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O supertelescópio que vai procurar vida extraterrestre

ALEXANDER JOE/GETTY IMAGES

A maior infraestrutura científica do século XXI vai começar a ser construída em 2018 na África do Sul e na Austrália. Chama-se SKA, é o mais poderoso radiotelescópio de sempre e Portugal participa com universidades e empresas

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Imagine um radiotelescópio — que produz imagens do cosmos a partir das ondas de rádio e não a partir da luz — em forma de antena parabólica, construído para desvendar os grandes mistérios do Universo, com uma gigantesca superfície de 1 km2, algures no Hemisfério Sul, onde o céu observável está iluminado por mais estrelas, planetas e galáxias. Seria uma maravilha da ciência, a maior infraestrutura científica mundial do século XXI, mas não passa de um sonho: é tecnicamente impossível erguer e manobrar uma parabólica com um milhão de metros quadrados, o equivalente a 140 campos de futebol.

Só que este sonho pode tornar-se realidade a partir de 2020, com o arranque da construção de um radiotelescópio com esta área mas organizado em rede, isto é, distribuído por milhares de antenas ligadas entre si e espalhadas por vastos territórios na África do Sul e na Austrália. Chama-se SKA — Square Kilometer Array, e Portugal está envolvido através de um consórcio liderado pelo Instituto de Telecomunicações (IT), que junta as universidades de Aveiro, Porto e Évora, o Instituto Politécnico de Beja, o Polo de Tecnologias de Informação, Comunicação e Eletrónica (TICE) e empresas.

O coordenador do consórcio português no supertelescópio, Domingos Barbosa, investigador do IT na Universidade de Aveiro, afirma ao Expresso que “a principal tarefa do projeto é gerir toda a informação gerada pelo SKA, um grande desafio quando está em causa um volume de dados anual três vezes superior aos dados gerados hoje pelo Google”. E a sua maior descoberta “será a identificação de todos os 100 mil pulsares da Via Láctea”. Pulsares são estrelas de neutrões em rotação, muito pequenas e densas, que emitem um feixe de radiação eletromagnética a intervalos de tempo muito regulares, como uma pulsação.

Mas para o público em geral, olhando para os grandes objetivos do SKA (ver caixa), o mais aliciante será a procura de vida extraterrestre, em especial vida inteligente, porque o supertelescópio poderá detetar um radar de aeroporto até uma distância de 50 anos-luz. E será capaz de identificar moléculas complexas, que são blocos de construção da vida.

Há dez países membros do projeto e Portugal fez o pedido de adesão em abril, decorrendo negociações para definir, até ao fim do ano, quanto irá pagar para participar no projeto e quais serão as contrapartidas, nomeadamente para a indústria nacional. “Mas a organização do SKA vai ser transformada em tratado internacional, com o nome de SKA Observatory, e Portugal será um membro fundador”, revela Domingos Barbosa.

O interesse da indústria portuguesa não reside apenas na construção das gigantescas infraestruturas do SKA, que só na primeira fase envolvem 200 grandes antenas parabólicas na África do Sul e 130 mil antenas dipolo (para captar ondas de rádio de baixa frequência) na Austrália, bem como extensas redes elétricas e de comunicações.

Portugal vai tratar volume 
de dados igual ao do CERN

Há também oportunidades únicas no tratamento do (literalmente) astronómico volume de dados gerado pelas observações do supertelescópio (Big Data), porque 2% a 3% desses dados serão tratados anualmente em Portugal, o equivalente aos dados gerados pelos aceleradores de partículas do CERN (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear) em Genebra (Suíça). E há pelo menos três interessados: o Centro de Dados da Altice (PT) na Covilhã, o futuro Centro de Supercomputação da IBM na Universidade do Minho e a FCCN, unidade pública que gere a Rede Ciência, Tecnologia e Sociedade.

Vasco Lagarto, presidente da comissão executiva do Polo de Tecnologias de Informação, Comunicação e Eletrónica (TICE), com sede na Universidade de Aveiro, salienta que “Portugal tem uma posição estratégica global nas ligações de alto débito por cabo submarino, porque é o único país do mundo a ter ligações diretas com todos os continentes exceto a Antártida”. Os grandes cabos submarinos que ligam a África, o Mediterrâneo ou a Ásia à Europa passam todos pela região de Lisboa, “e Portugal pode oferecer capacidade global em termos de transporte e processamento de dados, bem como projetar, instalar e manter redes de fibra ótica”. O dirigente do TICE avisa que “quanto mais cedo Portugal for membro do SKA mais viável será envolver a indústria portuguesa na sua construção, e já temos pouco tempo”.

O radiotelescópio “vai ser decisivo para o desenvolvimento da Critical Software”, reconhece Paulo Guedes, diretor de negócios da empresa portuguesa, envolvida em contratos no SKA. A Critical foi atraída “pelo grande impacto do projeto na compreensão do Universo”, por ser “um desafio de engenharia”, pelo tratamento de dados “e pela propriedade intelectual, que vai levar a empresa a formar uma série de engenheiros e que pode ser aplicada noutros projetos”.

Mas, além do tratamento dados, o que vai ficar em Portugal? “Vamos ter plataformas de teste de tecnologia nacional no centro do país, no radiotelescópio de 9 metros de diâmetro de Pampilhosa da Serra, onde em breve será também instalado um espetrógrafo solar (equipamento que realiza um registo fotográfico do espetro luminoso do Sol) da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP)”, explica Domingos Barbosa. Haverá ainda a criação de protótipos de aplicações de software no Instituto de Telecomunicações e plataformas de teste de antenas e de sensores da tecnologia da Internet das Coisas em Moura e Beja, no Alentejo. Por outro lado, serão atualizadas as antenas de comunicações de satélite da Altice (PT) nos Açores, “para integrarem as redes de antenas europeia e africana e fornecerem serviços de grande distância do SKA”.

Um dos membros do grupo científico de física solar do SKA, Dalmiro Maia, investigador da FCUP envolvido no projeto desde os primeiros estudos em 2002, considera que “na primeira fase as tarefas mais importantes dos investigadores serão o estudo dos pulsares e as ondas gravitacionais”. Estas ondas “serão depois usadas como ferramentas para progredirmos na cosmologia (origem e evolução do Universo) e na gravitação”, conta Dalmiro Maia. Para já, cerca de 30 investigadores portugueses estão envolvidos na engenharia e na ciência do mais poderoso radiotelescópio de sempre.