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O Amor e a Inteligência Artificial

O mIRC e o ICQ foram dois dos primeiros cupidos da Internet. Os afortunados que tinham ligações à Web e uma veia de Don Juan utilizavam estas ferramentas de chat (conversa) e espalhavam o seu perfume pela teia que começava a ligar o mundo. Pela primeira vez, este tipo de comunicação dava-se, realmente, em tempo real e os sons agudos do modem serviam de embalo para grandes serenatas virtuais. Lembro-me de muitas conversas no mIRC (uma das aplicações mais populares de IRC – Internet Relay Chat) em salas sobre os mais variados temas.

Os “Ficheiros Secretos” e o “Twin Peaks” davam acesas discussões e era sempre uma oportunidade para conhecer novas pessoas. Claro que, naquela altura, a Internet era um caldeirão cheio de testosterona onde era rara a presença feminina. Isto foi muito antes do Facebook, do Tinder ou dos milhões de fotos despejadas no Instagram diariamente.

O que seria, nos anos 90, ter homens e mulheres a partilharam proativamente fotos suas em férias de fato banho e em posições, digamos, muito sugestivas? Nesses tempos, ver uma foto da Claudia Schiffer em fato de banho implicava esperar que a imagem fosse construída linha a linha - o que, convenhamos, fazia com que a intenta perdesse o seu encanto. As velocidades da Internet não eram, realmente, rápidas. Isso dificultava a visualização de fotos e vídeos, mas não era impeditivo para as já referidas ferramentas de chat que, basicamente, só transmitiam linhas de texto e emojis (sim, os ícones animados não foram inventados agora pela Snapchat).

Com um maior equilíbrio de géneros na Internet, surgiram os sites de encontros. Locais onde os responsáveis pelos serviços garantem que a tecnologia ajuda a encontrar o par perfeito. Serão os algoritmos capazes de encontrar e juntar pessoas que nunca se conheceram? Ser o elo de ligação entre Bergerac e Roxane, onde o que faz cada um de nós singular vai muito além dos traços físicos? Apesar de existirem, provavelmente, milhares de uniões que foram criadas por estes sites de encontros… um estudo feito por investigadores de TRÊS UNIVERSIDADES NORTE-AMERICANAS perguntava: “O desejo romântico é previsível?”

O objetivo do estudo era perceber até que ponto o Machine Learning (a Inteligência Artificial) pode ser aplicado aos encontros amorosos. O resultado dos testes não foi benéfico para as máquinas: os algoritmos falharam. Em grande. Não conseguiram juntar ninguém com sucesso – o estudo utilizou 350 voluntários em idade universitária. E a conclusão foi simples: é muito complicado conseguir prever os elementos que levam às relações românticas… antes que as pessoas se conheçam, presencialmente.

Isto não quer dizer que os sites de encontros sejam um ardil para caçar dinheiro a quem procura companhia amorosa. O seu contributo mais positivo é o de ser, seguramente, um primeiro filtro para encontrar, pelo menos, pessoas que têm gostos semelhantes. O que, convenhamos, já pode ser uma ajuda.

Quer isto dizer que os algoritmos, quando se trata de “assuntos do coração”, ainda têm muito de aprender sobre aquilo que leva os humanos a estabelecerem relações românticas. A palavra chave aqui é o “ainda”. Porque na Saúde, por exemplo, a informação recolhida pela Facebook e pela Google pode, em breve, detetar cancro num utilizador de uma rede social antes que ele saiba que padece da enfermidade.

No combate à fraude, a Inteligência Artificial (IA) também está a fazer um bom trabalho – que o diga, por exemplo, a empresa portuguesa WeDo Technologies, que lidera o mercado mundial do combate à fraude no sector das telecomunicações. E, claro, há o pessimismo de Elon Musk (o patrão da Tesla já doou dinheiro e encabeça um grupo que quer colocar limites ao desenvolvimento da IA) e o otimismo de Mark Zuckerberg, que vê no horizonte uma IA benigna.

Por agora, no quotidiano, vamos lidando com os muito pouco certeiros algoritmos da Spotify e da Netflix, que aconselham, com muita regularidade, conteúdos que não têm qualquer tipo de relação. Mas também isso vai melhorar. E o mundo vai ficar à espera de perceber quanto tempo levarão os algoritmos a perceber como encaixar os melhores pares românticos, mesmo antes das pessoas se conhecerem. Para nosso bem, espero que demorem, ainda, muito tempo. Aliás, que nunca o consigam fazer. O que seria dos poetas e dos compositores se o amor se transformasse numa coisa decidida pelos computadores?