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O novo Galaxy Note: depois da tempestade, a bonança? (mais a mais de mil euros...)

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Com o Galaxy Note 8, a Samsung passa, pela primeira vez, a barreira de preço inicial dos 1000 euros e integra o maior ecrã alguma vez produzido por este fabricante para um smartphone. Mas será este terminal capaz de apagar totalmente o pesadelo vivido com o Note 7, o telefone que teve de ser retirado do mercado por defeitos graves de fabrico?

Pedro Miguel Oliveira

Pedro Miguel Oliveira

em Nova Iorque

Jornalista

A resposta à pergunta da entrada deste artigo é sim, mas o passado aconselha alguma cautela nestas afirmações absolutas. Vamos ver o novo smartphone da Samsung mais em pormenor, começando por dizer-lhe que já está disponível para reserva em Portugal e que chega ao mercado a 15 de setembro, com um preço que começa nos 1019,90 euros.

o malogrado note 7

Em agosto do ano passado, a Samsung mostrava ao mundo aquele que era, seguramente, o telefone mais arrojado alguma vez saído da mente dos engenheiros da empresa coreana. O Galaxy Note 7 chegava antes do iPhone 7 e tinha tudo para conseguir manter a Samsung como número 1 mundial nos smartphones – incluindo nos EUA, onde a Apple tinha perdido a liderança.

Depois de análises extremamente favoráveis pela imprensa especializada – em Portugal, por exemplo, a Exame Informática carimbou-o com um símbolo “Recomendado” – e de ter esgotado no período de encomendas; o Note 7 começou a dar os primeiros indícios de problemas de fabrico. Um defeito de conceção levou a que a bateria sobreaquecesse o que levou, em muitos casos, a que o telefone começasse a arder.

A Samsung demorou a reconhecer o problema, mas os casos foram acumulando e o Note 7 tornou-se um bomba relógio que andava no bolso de alguns milhares de utilizadores espalhados pelo mundo. Os danos à reputação do fabricante coreano escalavam e a gota de água caiu quando as companhias aéreas começaram a anunciar aos passageiros que se tivessem um Note 7 tinham de o manter desligado durante todo o voo. Isto num primeiro momento. O que se seguiu era pior: o telefone, a existir, tinha de ir no porão do avião.

Como ultrapassar o pesadelo

O smartphone bandeira da empresa – apresentado como o mais avançado e o melhor alguma vez produzido pela Samsung – transformou-se num verdadeiro pesadelo que forçou o presidente da área de dispositivos móveis a reconhecer publicamente o defeito de fabrico e a ordenar a recolha do Note 7. O movimento era inédito na Samsung e nem o pedido de desculpas públicas do já referido DJ Koh amenizou os custos de reputação e financeiros implícitos no reconhecimento de uma falha técnica na empresa reconhecida por fabricar e desenhar a grande parte dos componentes eletrónicos integrados nos seus próprios dispositivos.

A Samsung investigou as causas do problema e encontrou-as. Estavam nos processos de verificação da montagem de componentes nos aparelhos. A resolução foi rápida. O fabricante desenhou um novo processo de verificação, composto por 8 testes, que seria aplicado a todos os dispositivos que usassem baterias de iões de lítio. A questão técnica estava resolvida, mas seria possível reconquistar a confiança dos consumidores? Foi preciso esperar pelo lançamento do Galaxy S8 e do Galaxy S8+ para perceber duas coisas: a Samsung não tinha perdido a capacidade de inovar e os utilizadores não abandonaram a empresa. Esses dispositivos, os atuais topos de gama do fabricante, tornaram-se rapidamente os mais vendidos do mercado e ajudaram a Samsung bater, no segundo trimestre deste ano, um recorde nos resultados FINANCEIROS.

Note 8: uma besta de desempenho

E se o mercado duvidava da continuação da marca “Note” no portefólio da Samsung, então é porque não conhecem, minimamente, a obstinação coreana. Seria impensável para uma empresa com um forte ADN técnico e tecnológico deitar a toalha ao chão e abdicar do Note – é preciso entender que esta gama de terminais sempre serviu como exemplo da melhor tecnologia produzida nas fábricas da Samsung. Por isso, era muito previsível que veríamos a materialização de um Note 8. E isso aconteceu esta quarta-feira em Nova Iorque. Numa sala repleta (mais de 1500 convidados vindos de todos os cantos do mundo) DJ Koh tomou um palco multimédia impressionante para mostrar, orgulhoso, um telefone que, não sendo particularmente surpreendente, reúne características imbatíveis – neste momento.

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O presidente da unidade de dispositivos móveis começou por recordar o pesadelo Note 7 e a agradecer a todos os utilizadores que se mantiveram fieis à marca e alguns até o fizeram publicamente. No ecrã, passaram testemunhos em vídeo dos compradores do Note 7 onde pediam à empresa, entre outras coisas, para continuar a fazer o dispositivo. Além dos ecrãs interativos que tornavam todo o palco (incluindo o chão) num grande espetáculo de imagem, o evento teve poucos momentos efusivos com a audiência a manter-se em silêncio durante grandes períodos. Não foi, seguramente, um momento de grande comemoração.

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E, afinal, o que tem este telefone de novo? Muito pouco. Ao contrário do Note 7 que era muito arrojado em termos de definições e design, o Note acaba por ser um Galaxy S8+ com alguns retoques. Mas são importantes.

O ecrã é o maior ecrã disponível num smartphone deste fabricante (6,3 polegadas – o S8+ tem 6,2 polegadas) e segue o mesmo layout e formato (18.5:9) que o S8+. Ou seja, não existem limites laterais para o ecrã e só no topo é que estão duas estreitas áreas negras onde estão a câmara frontal e, em baixo, os botões virtuais.

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A grande novidade é a já referida câmara dupla. É verdade que a Samsung não é o primeiro fabricante a fazê-lo, no entanto, o Note 8 é o único telefone do mercado a ter uma câmara dupla onde cada câmara tem um estabilizador ótico integrado. É a tecnologia a garantir (ou a tentar) que as fotos e vídeos não fiquem tremidos. Ambas as câmaras têm uma resolução de 12 megapixéis e, a frontal, tem de 8 megapixéis. Esta é, realmente, o principal destaque do telefone e, confessamos, o que mais nos interessa colocar à prova.

De resto, temos mais memória RAM (6 GB) e o Note 8 tem 64 GB de armazenamento que podem ser expandidos até aos 256 GB com um cartão MicroSD. A bateria de 3300 mAh é mais generosa do que a existente na versão anterior e o processador integrado, para a Europa, é o Exynos 8995 com oito núcleos. Em termos de design, o Note 8 tem os cantos um pouco mais quadrados do que o S8+ e, infelizmente, o sensor para impressões digitais continua a estar muito próximo da, agora, câmara dupla.

Abordagem conservadora

Ao contrário do que aconteceu com as anteriores gerações do Note, esta, é bastante cautelosa. Em vez de apresentar um design disruptivo (é preciso relembrar que foi no Note que a Samsung integrou, pela primeira vez, um ecrã curvo), o fabricante adaptou um form factor já testado e bem-recebido pelo público. Ou seja, os engenheiros retocaram o desenho do Galaxy S8+. Depois, deram o salto (já dado pela Huawei, Apple e LG) e colocaram a primeira câmara dupla num smartphone Samsung. Uma abordagem muito conservadora tendo em conta que estamos perante um Note. Talvez seja necessário esperar pelos resultados deste novo telefone para saber se na próxima versão a Samsung retoma a sua estratégia de colocar o Note como a luz que orienta o caminho a seguir no mercado da mobilidade.

O jornalista viajou a convite da Samsung