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“O Boletim de Saúde Infantil e Juvenil sempre foi cor-de-rosa para as meninas e azul para os meninos e nunca ninguém reclamou”

alberto frias

A polémica em torno de dois livros para crianças da Porto Editora, com exercícios diferentes consoante sejam para meninos ou meninas, é “uma discussão idiota, própria da silly season”, defende Mário Cordeiro, médico pediatra. “Há coisas bastante mais importantes que uns cadernos de exercícios para entreter nas férias”

Dois livros de exercícios para rapazes e para raparigas em idade pré-escolar bastaram para fazer estalar a mais recente polémica em matéria de igualdade de género. O pediatra Mário Cordeiro defende que, "mesmo havendo algumas coisas discutíveis" nas obras, não há motivo para tanta indignação ou para "rasgar as vestes". Teria sido preferível mantê-las à venda e até sugerir aos pais que pusessem as crianças a fazer todos os exercícios.

"Estamos a ficar agarrados a minudências, fazendo delas exemplos enormes de coisas erradas na sociedade, que existem, sim, mas cuja demonstração deve ser feita com coisas bastante mais importantes que uns meros cadernos de exercícios para entreter nas férias". Por exemplo, quando é que se incluem muda-fraldas também nas casas de banho dos homens?

Fez bem a Porto Editora em retirar dos pontos de venda os livros “Bloco de Atividades para Meninas” e “Bloco de Atividades para Rapazes” após as críticas de que foram alvo?
Creio que, apesar de algumas coisas polémicas ou pelo menos discutíveis nas publicações, teria sido preferível não retirar, explicar claramente que não houve malícia ou qualquer intenção de ferir os direitos de género e a igualdade desses direitos, e até sugerir aos pais que, porque não, trocassem os manuais e colocassem todas as crianças a fazer todos os exercícios. Foi um escorregão de uma das mais conceituadas editoras do país, mas é motivo para tanta indignação, e para "rasgar as vestes"? Creio que há algo aqui um pouco perturbado...

Não concorda, então, que ao optar por lançar duas publicações com atividades que diferenciam cores, temas e grau de dificuldade para rapazes e raparigas, se está a acentuar estereótipos de género, como defende a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género?
Acho exagerada essa visão fundamentalista. O Boletim de Saúde Infantil e Juvenil da Direção Geral de Saúde (DGS) é – sempre foi – cor-de-rosa para as meninas e azul para os meninos e nunca ninguém reclamou. Deve a DGS passar a fazer todos em cinzento ou castanho? Não confundamos diferença de géneros – que as há, anatómicas, fisiológicas, psicológicas, sociais, sentimentais, de desenvolvimento, especialmente nesta idade em que, exatamente, se adquire a identidade de género – com a defesa intransigente de igualdade de direitos e deveres de géneros. Mais do que o cor-de-rosa e o azul, assusta-me é que, em certas empresas e empregos, um homem ganhe mais do que uma mulher para desempenhos e trabalhos iguais, ou que o facto de ser homem ou ser mulher pretira uma determinada pessoa relativamente a um emprego. Observa-se esse preconceito e essa desigualdade em alguns empregos dentro do mesmo género, ou até relativamente à beleza ou à idade das pessoas, preferindo-se umas mais jovens mas muito menos experientes do que mulheres ou homens mais sabedores e com experiência... mas mais velhos ou mais feios. Alguém se insurge nas redes sociais? Veja quem são as 'caras' que estão à frente dos balcões de agência de viagens, rececionistas, etc. Aliás, não há maior discriminação de género do que a que é feita nas revistas cor-de-rosa e em alguns programas de TV, e ninguém parece importar-se muito. Enfim, isto levava-nos longe.

Alguns autores - Henrique Monteiro, por exemplo, falava disso esta quarta feira numa crónica no Expresso Diário - questionam se não estaremos a levar a “ideologia do género” longe demais. Concorda?
Estou totalmente de acordo com o Henrique e com o que ele escreveu. As crianças (as pessoas) não são iguais quanto ao género e procuram até exaltar as diferenças, sobretudo a partir dos dois anos, dois anos e meio, altura em que se forma a identidade de género e em que elas passam a ser “princesas pirosas e pespenetas” e eles uns “espadachins de ´vou-te matar!`”. Levar isso para o politicamente correto é ridículo. Embora defenda que qualquer criança possa ter acesso a brincar com qualquer brinquedo adequado à idade, ou seja, uma menina poder ter a oportunidade de brincar com carros e um rapaz com bonecas e às casinhas, obviamente que essa "igualdade no acesso" não se deve transformar numa obrigatoriedade em brincar assim ou assado. Mais, não deve esquecer as diferenças psicológicas e fisiológicas que existem – queiram as redes sociais ou não – entre os dois géneros. Ser rapariga não é o mesmo que ser rapaz. E, precisamente, entre os 4 e 10 anos essas diferenças são patentes, o que leva a que as crianças formem clusters segundo o género, e elas achem que "eles são uns estúpidos" e eles achem que "elas são umas parvas"…

Mas faz sentido que haja exercícios de complexidade diferente para os dois géneros?
O exemplo dos labirintos que foi mostrado nos manuais obviamente é quase ridículo porque o do rapaz é razoavelmente complexo e o da rapariga quase indigente... Todavia, poderá haver tipos de exercícios diferentes, respeitando as apetências e competências diferentes dos dois géneros. Estamos a ficar agarrados a minudências, fazendo delas exemplos enormes de coisas erradas na sociedade, que existem, sim, mas cuja demonstração deve ser feita com coisas bastante mais importantes do que uns meros cadernos de exercícios para entreter nas férias. Olhe, quando é que se obriga, por exemplo, as casas de banho dos homens a terem também muda-fraldas? Ou sanitas para miúdos pequenos? Só as das mulheres é que têm? Este tipo de coisas são, para mim, muito mais importantes do que esta discussão idiota, própria da silly season, e que, com base num tropeção de uma editora que até tem duas mulheres como diretoras da secção de livros para a infância, quer que quase se organize um auto-de-fé. Mais do que estar a fazer disto um caso – e a entrar por um talibanismo de 'vigilantes' sociais –, debrucemo-nos sobre as coisas realmente importantes que mostram na prática, no quotidiano e na vida real das pessoas, o profundo desrespeito que ainda existe em certos pontos pela igualdade de direitos e deveres de género, que não é, repito, a igualdade de géneros. Essa, felizmente, não existe nem deve existir.

  • As Marias são rapazes e os rapazes também choram

    A propósito da acesa polémica aberta sobre os dois livros de exercícios, diferenciados para rapazes e raparigas, lançados pela Porto Editora e que vão sair do mercado por recomendação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, republicamos um trabalho saído na Revista E, em outubro de 2015, que aborda esta questão. O género conta cada vez menos

  • Confesso-me pecador e além do mais ignorante, sem capacidade para atingir as altas escarpas intelectuais daqueles que defendem a ideologia do género. Sou do género estúpido. Posto isto, e na minha qualidade, que é tão intocável como a de outro género qualquer, seja LGBTIQ+ e o que mais quiserem pôr, nasci menino e fui educado como menino. Naturalmente essa repressão feroz exercida pela família, sociedade e escola, fez-me desembocar, com o passar dos anos (mais de 60), num velho pai e avô heterossexual. Como já devem ter percebido por aquilo que aqui escrevi (mas que eu, como estúpido, não tenho a certeza) sou, quase certamente homofóbico, racista, xenófobo, chauvinista e, claro, fascista