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Fogos disparam emissões de CO2

PAULO CUNHA / Lusa

Nos primeiros sete meses deste ano, os incêndios emitiram mais 53% de gases de efeito de estufa do que a média desde 1990

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

As contas feitas pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) indicam que os 128 mil hectares de mato e floresta que arderam em Portugal, até 31 de Julho, foram responsáveis pela emissão de 2,9 megatoneladas de dióxido de carbono equivalente (MtCO2eq) para a atmosfera.
Os números provisórios permitem concluir que em apenas sete meses as emissões de gases de efeito de estufa dispararam 53% face à média registada desde 1990 (1,92 MtCO2eq) e ultrapassam os totais anuais da última década. Acima destes valores estão mais uma vez os terríveis anos de 2003 e 2005 (com respetivamente 8,1 e 6,9 MtCO2eq emitidas e 475 mil e 347 mil hectares ardidos). Os cálculos têm por base uma equação que cruza a área ardida e o tipo de vegetação e árvores em causa, entre outros critérios descritos no “National Inventory Report” definido pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas.


“Um ano desastroso”


“Este ano vai ser desastroso em termos de emissões de CO2, pois estamos num período de seca, temos uma quebra de 60% no uso de energia proveniente de fontes hídricas e um aumento de 80% no uso da grande térmica, a que se juntam agora os incêndios”, lamenta Francisco Ferreira, dirigente da associação Zero. O ambientalista e também investigador da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa explica ainda que “tão dramático como estas emissões para a atmosfera é a incapacidade de as zonas queimadas reterem CO2 num futuro próximo, o que pode pôr em causa o objetivo de o país ser neutro em carbono em 2050”.
Mais otimista está o ministro do Ambiente. “Apesar do número invulgar de incêndios e da afetação da produção de energia hídrica, nada põe em causa as metas para 2050”, garante João Matos Fernandes. Segundo o governante, “Portugal tem cumprido as metas”. Mas “ainda há muito trabalho a fazer, nomeadamente investimentos na energia solar, vamos continuar esse percurso para sermos neutros em carbono em 2050”. Em 2016, Portugal foi um dos 11 países da UE que viu as emissões globais reduzidas (menos 5,7%) segundo o Eurostat.
O compromisso do Protocolo de Quioto, válido até 2020, define que os países “podem não contabilizar as emissões anormalmente elevadas de fenómenos naturais como os incêndios para cumprimento das suas metas de redução”, explica ao Expresso fonte oficial da APA. “Esta possibilidade foi introduzida como medida de ‘gestão de risco’ para países, como Portugal, para os quais existem anos com condições naturais excecionalmente complicadas”, esclarece. Contudo, Portugal também não poderá contabilizar o “sequestro” ou retenção de emissões com a recuperação da floresta, por decisão do Parlamento e do Conselho Europeu. Segundo a APA, “até à data, Portugal nunca teve necessidade de aplicar esta medida”. E se o vier a fazer devido aos incêndios de 2017, tal decisão só será comunicada em 2019.
Na UE, as negociações sobre a contabilização das emissões com origem nos incêndios florestais serão retomadas em setembro, já que, segundo a eurodeputada Marisa Matias (do BE), “o que está aprovado até agora é muito desfavorável para os países do sul”.