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A arena de Lisboa

A praça de touros do Campo Pequeno fez esta sexta-feira 125 anos. Inaugurada em 1892, pela sua arena passaram gerações de toureiros e pelas suas bancadas milhares de aficionados. Republicamos nesta edição o artigo publicado na revista de 17 de junho de 2000 sobre a(s) história(s) de um símbolo de Lisboa cujo historial atravessou reinados e convulsões políticas

Na tarde de 18 de Agosto de 1892, num clima de festa e pouco vulgar correria, Lisboa vestiu-se de gala para assistir à inauguração da sua nova praça de toiros. Todos os caminhos iam dar ao Campo Pequeno. Do antigo "Rocio" partiam comboios especiais, excecionalmente postos à disposição dos aficionados para os levar à corrida, enquanto os chamados carros americanos transportavam outros grupos de populares, dispostos a não perder a ocasião solene.

d.r.

O recinto, ainda revestido de andaimes por não estarem as obras concluídas, esgotou os seus 8437 lugares. E, do lado de fora, a festa proporcionava um lucro inusitado aos vendedores de bolos, bolachas (com o desenho da praça gravado), pães com chouriço, fotos dos artistas, água e capilé.

No jornal “O António Maria”, assim se retrataram os toureiros e os episódios da corrida inaugural

No jornal “O António Maria”, assim se retrataram os toureiros e os episódios da corrida inaugural

Quando, por fim, os cavaleiros Alfredo Tinoco e Fernando de Oliveira iniciaram as cortesias, ante a presença do Infante D. Afonso (em representação dos Reis, D. Carlos e D. Amélia), o povo rejubilou. A capital via finalmente estreada a arena prometida, um centro digno para a tão apreciada arte de tourear, depois da antiga praça do Campo de Sant´Ana ter sido demolida, por falta de condições de segurança.

O entusiasmo da primeira corrida acabou por não se justificar. "Os touros do acreditado lavrador, o sr. Emílio Infante da Câmara, estavam bem tratados, eram na maioria de boa estampa, mas sahiram muito ordinários. Nunca esperámos um curro de inauguração tão réles. A direcção foi má, a corrida péssima e desanimada", escreveu à época o crítico Zé Jaleco. Porém, outras tardes viriam a legitimar a decisão de construir o tauródromo.

Corridas de touros, um exclusivo da Casa

A ideia surgira em 1889, tendo sido apresentada à Câmara de Lisboa pelo vereador Frederico Ressano Garcia. Daí nasceu a proposta de atribuir à Casa Pia um terreno onde implantar a praça, construção que interessava a muita gente mas que estava vedada a qualquer outra entidade, pois a exclusividade da organização das corridas estava há muito atribuída àquela instituição.

Não foi fácil fazer aprovar a proposta. Teófilo Braga, então vereador e feroz opositor da festa brava, argumentou poderosamente contra a ideia. As discussões acaloradas fizeram perigar o projeto, que acabaria aprovado pelo segundo marquês de Sá da Bandeira e por Aires de Sá Nogueira de Abreu e Vasconcelos. Quanto à localização da praça, o Campo Pequeno pareceu o lugar ideal, favorecido pela urbanização das Avenidas Novas, em curso no final do século XIX.

Construção custou o equivalente a 800 euros

"A Casa Pia, possuidora do terreno, lutou depois com dificuldades para arranjar dinheiro, porque a crise monetaria no paiz inspirava cuidados", lê-se na "História do Toureio em Portugal", publicada pelo já citado crítico Zé Jaleco. A solução foi conceder o direito de construção a uma empresa particular, pelo que os 161.200$000 réis em que importou o edifício foram adquiridos através de ações, ficando os acionistas da Empresa Tauromáquica Lisbonense com o direito de propriedade e de organizarem as corridas pelo período de 90 anos (pagando à Casa Pia uma determinada verba anual), findo o qual entregariam a praça "livre de ónus ou de quaisquer encargos".

Numa primeira fase, a Real Casa Pia pretendia construir uma réplica da praça de Madrid, tendo mesmo chegado a ser pedida autorização para a aquisição do projeto arquitetónico do recinto. A praça portuguesa teria, contudo, uma lotação inferior e uma arena de diâmetro mais reduzido, o que oficialmente se justificava por melhor se ajustar ao toureio equestre português. "No entanto", diz António Manuel Morais em "A Praça de Toiros de Lisboa", "segundo as más línguas, o diâmetro teria sido reduzido por sugestão do bandarilheiro José Joaquim Peixinho (também um dos acionistas), que era bastante forte e tinha dificuldade em correr."

A demora no parecer técnico e a urgência da obra acabaram por levar a outra opção. Apresentado ao então diretor da Casa Pia, o arquiteto António José Dias da Silva (que se ocupava de um projeto nunca concretizado para a construção de uma praça em Queluz) prontificou-se a elaborar outro projeto para Lisboa sem cobrar. Tão franca disponibilidade foi logo aproveitada.

O edifício, que viria a ser construído pelo engenheiro Emile Boussard, tem a sua assinatura e insere-se na arquitetura romântica que vigorou entre 1750 e 1850, de que também são exemplo o Palácio da Pena, em Sintra, e o Teatro de S. Carlos, em Lisboa. No exterior, o projeto seguiu o estilo árabe, inspirado no modelo da velha praça madrilena, que integra diferentes motivos muçulmanos. Os quatro torreões correspondem aos pontos cardeais, e em termos de novidade assinala-se a colocação dos curros e a relativa preocupação com a comodidade dos espetadores.

Aspeto das bancadas no princípio do século XX

Aspeto das bancadas no princípio do século XX

Este cartaz, com as cores da bandeira francesa, serviu para anunciar a corrida em honra do Presidente Emile Loubet

Este cartaz, com as cores da bandeira francesa, serviu para anunciar a corrida em honra do Presidente Emile Loubet

Desde o início, a praça tornou-se um importante centro diplomático. Entre as corridas especiais aí realizadas, as de gala à antiga portuguesa foram durante muito tempo uma das formas escolhidas para obsequiar os chefes de Estado que se deslocavam a Portugal. Assim aconteceu em 1903, quando Eduardo VII de Inglaterra nos visitou, e até 1973 (depois do 25 de Abril, este hábito caiu em desuso), altura em que Portugal recebeu o Presidente da República Federativa do Brasil, Emílio Médici.

Apesar de não se incluir na lista das praças mais fatídicas, também no Campo Pequeno aconteceram colhidas graves, que em alguns casos se traduziram na morte de alguns artistas. A primeira delas, em 1893, foi sofrida pelo matador espanhol Juan Luiz (Lagartijo), que ao colocar um par de bandarilhas foi volteado e fraturou o crânio.

Foi, no entanto, o cavaleiro português Fernando de Oliveira o primeiro a morrer na arena lisboeta. Numa corrida realizada em 12 de Maio de 1904, o cavalo que montava foi colhido com violência. "Fernando fez esforços para se erguer depois da queda; néssa occasião, o touro investe outra vez com os vultos, o ginete foge, e então o desgraçado artista é afocinhado pela fera com furia enorme. Attingiu certamente com as armas a cabeça do infeliz, n´uma das arremetidas. Fernando não se moveu mais."

A segunda tragédia aconteceu quase 50 anos mais tarde, quando, ao tentar pela segunda vez pegar o último toiro da corrida, o forcado conhecido por "João Raiva" foi perfurado por uma bandarilha. Era a sua primeira pega como cabo do grupo de Lisboa, que passaria a capitanear caso o acidente não tivesse resultado fatal.

Em 1966, nova colhida vitimou o cavaleiro português Joaquim José Correia, no dia em que completava 21 anos. Mais recentemente, a 11 de Agosto de 1983, foi colhido José Varela Crujo; o cavaleiro ficou em estado de coma, vindo a falecer quatro anos depois.

Se o toureio a cavalo encontrou no Campo Pequeno palco para a exibição das figuras máximas em cada época - por lá passaram Simão da Veiga, João Branco Núncio, David Ribeiro Telles, José Mestre Baptista, João Moura e todos os que ocuparam posição cimeira nos cartazes tauromáquicos -, também os matadores de toiros receberam do público lisboeta ovações tremendas.

Reprodução do cartaz da corrida que apresentou em Lisboa os irmãos Pepe, António e Angel Luiz Bienvenida, em 1940

Reprodução do cartaz da corrida que apresentou em Lisboa os irmãos Pepe, António e Angel Luiz Bienvenida, em 1940

Um bilhete de 1950

Um bilhete de 1950

Gallos, Belmonte, Bienvenida, Manolete, Litri e Camino contam-se entre as dinastias espanholas que aqui se apresentaram nos melhores momentos das suas carreiras. Competições acesas que faziam vibrar os aficionados, sempre dispostos a acarinhar com particular sentimento as figuras nacionais, como Manuel dos Santos, Diamantino Viseu, Armando Soares, Mário Coelho, José Júlio ou Vítor Mendes. De toda a justiça é também lembrar Nuno Salvação Barreto, fundador e cabo histórico dos Forcados Amadores de Lisboa, cuja fama ultrapassou fronteiras.

Não foram as épocas sempre brilhantes. Ao entusiasmo dos primeiros anos, em que o número de corridas chegou a ultrapassar as três dezenas, tempos vieram em que a escassez de espetáculos serviu para justificar a "decadência do nosso toureio". Assim refletia José Pedro do Carmo, no final dos anos 20, considerando que "a tauromaquia em Portugal devia honrar-se de possuir uma praça de touros em nada inferior às melhores de Hespanha, sendo para lastimar o número escasso de corridas que presentemente se estão dando no Campo Pequeno".

Já em 1914 a qualidade dos espetáculos tinha decaído, mas então pela falta de artistas (sobretudo cavaleiros) e de toiros com qualidade - o fim da Lei dos Morgadios deu origem a uma série de cruzamentos de castas sem nexo, com exceção de algumas reses cruzadas com exemplares espanhóis.

Poucos se lembrarão da existência de uma escola de toureio no Campo Pequeno. Ela existiu, contudo, e na década de 40 acabou por mostrar-se válida, dada a prestação de muitos profissionais daí saídos. Uma tentativa para não deixar morrer o toureio apeado. Rara foi também a corrida organizada em 1919 e que, a exemplo do que se fazia por vezes em Espanha, dividiu a arena de Lisboa em duas metades, lidando-se toiros simultaneamente em cada uma delas.

A corrida completa, entendida à maneira espanhola, com a morte dos toiros, foi outra das exigências dos aficionados alfacinhas. Por pressão sua, autorizou o Governo que se realizassem algumas corridas de morte em 1933, privilégio apenas concedido a praças como a de Vila Franca de Xira ou Lisboa. Foram as primeiras corridas completas, já que as anteriormente aí montadas "foram ainda com touros embolados e, depois das varas, desembolados pelo processo de cordel". Nas duas tardes em que o público encheu a praça do Campo Pequeno, os aplausos foram genuínos e, segundo os relatos, não houve qualquer protesto. "A carne dos touros foi distribuída pelos pobres da capital."

Serviram ainda estas corridas, a fazer fé nos relatos do crítico português Rogério Pérez - "El Terrible Pérez" -, para acabar com "algumas convenções disparatadas, uma das quais nos colocava na situação de pacóvios e da qual os toureiros espanhóis se aproveitavam, rindo-se de nós". O transporte para a praça, que, ao contrário do que acontecia na terra de "nuestros hermanos", era pago pelas empresas portuguesas, deixou de o ser em 1933. "Vão como quiserem, a pé ou de carro eléctrico, desde que estejam na praça antes da hora marcada, como rezam os contratos", foi a resposta dada aos surpreendidos toureiros que atuaram nesse ano no Campo Pequeno.

Anos mais tarde, e sem autorização para o efeito, Manuel dos Santos estoqueou um toiro, a 3 de Junho de 1951. Foi o delírio na praça, o que não lhe evitou a prisão. Mas António dos Santos e José Falcão viriam a repetir a façanha, este último poucos dias antes de morrer em Barcelona, em 1974, nas hastes do toiro Cuchareto.

A partir desse ano, como recorda António Manuel Morais, o panorama tauromáquico português (e nele se integra obviamente o Campo Pequeno) acabaria por ser afetado pelas conturbações políticas. A ocupação de muitas ganadarias e sua posterior degradação trouxe amargas consequências à festa brava, e o nome da praça ficou mesmo associado a uma tirada política de Otelo Saraiva de Carvalho, que em comício prometeu "montar um dia o cavalo do poder e enfiar os fascistas no Campo Pequeno".

As últimas décadas ficaram marcadas pelo progressivo afastamento do público, ainda que muitas corridas tenham tido sucesso e continuassem a apresentar as primeiras figuras nacionais e espanholas. Em 1988, chegou mesmo a estar marcada a 1 Grande Feira Taurina de Lisboa, iniciativa integrada nas Festas de Lisboa e apoiada pela Câmara alfacinha. Uma inovação que resultou fracassada, em parte devido ao mau tempo.

Decorreram mais de cem anos e o álbum de recordações da praça fala por si. Entre inevitáveis momentos de má memória, casos polémicos e acidentes de maior ou menor gravidade, o Campo Pequeno foi palco para muitos artistas brilharem e se darem a conhecer.