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Uma noite à procura de sardinha

José Carlos Carvalho

A redução dos stocks de sardinha tem levado à imposição 
de restrições. O Expresso acompanhou uma noite de faina a bordo da “Arrifana”

Joaquim Manuel Dias, o mestre, chega pouco depois das 00h30, na primeira hora de um dia que, como todos os outros entre maio e meados de outubro, será sobretudo vivido de noite. Os restantes 11 homens já carregaram os caixotes com gelo, já desenrolaram cabos e apenas aguardam a ordem de saída para o mar, a partir do porto de Portimão. Joaquim Manuel Ramos, o contramestre e sobrinho do mestre com quem partilha o nome e os últimos 16 anos ao leme da traineira “Arrifana”, deita um olho ao telemóvel e à aplicação que lhe permite ver que outros barcos de cerco já andam por ali. Identifica o “Costa do Sul”, o “Poema do Mar”. São poucas as palavras trocadas dentro da casa do leme. Fala-se do pouco que o peixe vale hoje — “este ano está um descalabro” —, dos euros a que foi vendido o quilo de sardinha na véspera e sobretudo das paragens por onde poderão andar os cardumes. A saída da noite anterior não correra particularmente bem e o plano é agora rumar a sotavento, a três, quatro milhas da costa, lá para os lados de Albufeira. “Ontem havia muito peixe por lá”, explica o contramestre.

É sobretudo através de informações trocadas entre pescadores que antecipam as melhores localizações. Mas Joaquim Manuel tem uma ajuda adicional. O filho que em tempos pescava com ele tem agora uma empresa de observação de cetáceos. E já se sabe que onde há golfinhos há sardinhas. Tal como para muitos portugueses, é esse o seu prato preferido.

A discussão sobre a falta ou não de uma das espécies mais importantes na indústria pesqueira nacional e um clássico dos meses de verão saltou para a mesa dos portugueses no final de julho, quando foi noticiado um documento do Conselho Internacional para a Exploração do Mar (CIEM).

O órgão consultivo a quem a União Europeia pediu a opinião sobre o plano de gestão da pesca da sardinha que tem vindo a ser executado por Portugal e Espanha desde 2012, precisamente para a proteção deste recurso, anunciou que só se iria pronunciar em outubro, depois de recolhidos os dados dos cruzeiros científicos realizados pelos dois países para avaliar os stocks. Mas foi avisando que, atendendo à redução de juvenis verificada desde os anos 90, seria preciso deixar de pescar durante 15 anos se se quisesse garantir com alta probabilidade uma recuperação dos stocks para valores acima das 300 mil toneladas.

A antecipação deste cenário mais negro fez títulos de jornais. Mas foi logo afastado pela ministra do Mar. “Impensável”, declarou Ana Paula Vitorino. Ao contrário do que acontece com a maioria das espécies comerciais, a sardinha não está sujeita ao sistema de TAC (Totais Admissíveis de Capturas) e Quotas definido pela Comissão Europeia, sendo essa gestão feita por Portugal e Espanha e acompanhada pela UE. A fixação dos limites para 2018 será em outubro.

O GPS, o sonar e o telemóvel

A bordo da “Arrifana”, a icónica traineira de 22 metros de comprimento, pintada num arrojado cor de laranja e equipada com dois motores, desvaloriza-se o alarme. “Isso é conversa de gente doida que não gosta de peixe”, atira o mestre. “A redução da biomassa, que ocorreu não por causa da pesca, é um problema que nós reconhecemos desde 2010. Deixou de ser possível os níveis de exploração na ordem das 70 ou 100 mil toneladas como fazíamos e tomámos medidas. Mas não estamos a falar de um cenário de extinção da espécie”, sublinha Humberto Jorge, presidente da Associação Nacional das Organizações de Produtores da Pesca do Cerco.

Joaquim Manuel Dias, 65 anos de idade e tantos de mar que já nem se lembra ao certo de quando começou, reconhece que é preciso restrições, como a imposição de vários meses de defeso. E que até se devia ir mais longe e proibir por completo a apanha da petinga: “Não há mães se se matam as crianças”. Mas também acredita que não é a pesca que tem provocado a redução dos stocks. “Já apanhei água a 25 e a 26° graus. Nunca vi nada assim. E as sardinhas não gostam”, vai explicando, sem tirar o olhar dos vários monitores que equipam a traineira

Durante toda a noite será assim. Mais do que para o mar, Joaquim Manuel Dias irá a olhar para o visor que indica a profundidade do mar, para a carta que assinala os obstáculos a evitar, mas sobretudo para o que revelam os dois sonares instalados, que funcionam como uma espécie de ecografia do mar. São aquelas imagens que indicam a existência de cardumes nas proximidades. Por cima ainda está a velha “menina” — assim lhe chama o mestre —, a bússola que o GPS tornou dispensável e para a qual já não se olha. “Dantes é que era tudo a olho”, recorda o contramestre. Começou na pesca aos 5 anos “para ir ganhando calo” e é por é lá que continua aos 44, fazendo o que gosta.

É a ele que compete segurar o leme e seguir a rota indicada pelo mestre. Lá fora, o encarregado da casa das máquinas, Inácio Grade, o mais velho dos 12, assume outra das funções vitais a bordo. Apesar do barulho ensurdecedor, tem de manter-se à porta para ver se não há sobreaquecimentos ou avarias. Se o motorista ainda apanha com o calor que vem lá de baixo, Ivo Nascimento tem de proteger-se o melhor que consegue na chata, o barco auxiliar que segue atrás da traineira, levando com o vento, a água e o frio até à hora de se afastar da embarcação para ajudar a estender a rede. É uma das tarefas de maior responsabilidade.

José Carlos Carvalho

As horas passam, os telefonemas de e para Joaquim Manuel Dias sucedem-se. O telefone toca às duas, às três, às quatro da manhã. A restante tripulação aproveita para dormir nos exíguos espaços que sobram. A popa é totalmente preenchida pela gigantesca rede que ainda há de ser lançada. A proa recebe as caixas térmicas onde irá ser guardada a sardinha que se pescar.

Passa das quatro da manhã quando surgem nos écrans os primeiros sinais de um cardume a sério. Os monitores enchem-se de riscos. O mestre levanta-se, toca a buzina para avisar a tripulação que deve estar a postos, inclina o corpo para o lado, tentar ler a informação, dá breves instruções ao contramestre que vai girando a roda do leme ora para a esquerda ora para a direita.

No momento da aproximação final é ele que assume a manobra. Mas a operação acaba por ser abortada. Navega-se mais um pouco para a frente. Às 5h10 nova agitação nos monitores, novo sinal sonoro e o ritual repete-se idêntico. Ainda não foi dessa vez, mas tudo indica que o momento está próximo. “O cardume parecia que estava concentrado, mas depois não estava. Estamos sempre à espera de mais, porque a ideia é lançar a rede e apanhar o peixe todo de uma só vez”, ia explicando o contramestre.

Da lota ao prato

À terceira tentativa, ao largo dos Olhos de Água, e já com o dia a nascer, foi de vez. Com os oleados vestidos e botas calçadas todos sabem o que têm de fazer. A gigantesca rede de 800 metros de comprimento começa a ser estendida de forma a cercar o cardume. A chata fica parada, a traineira traça uma circunferência à sua volta de forma a que as sardinhas fiquem presas dentro daquele saco imenso, assinalado pelas boias em volta. Depois é puxar para ver o resultado. Também nesta etapa muito mudou desde os tempos em que se alçavam as redes com a força dos braços. A força continua a ser precisa, mas é uma máquina que faz o maior esforço. À medida que vai sendo içada, a rede vai fechando até que o peixe, que estava a cerca de 40 metros de profundidade, fique concentrado à superfície.

O sol nasce à mesma hora em que aparecem as primeiras sardinhas e, claro, as primeiras gaivotas. A ação passa da popa para a proa. Com a ajuda de uma rede mais pequena são retiradas da rede gigante para dentro das caixas térmicas. “Arreia!”, vai gritando um dos homens para o colega que manobra a grua. Em pouco tempo ficam todas cheias: 3750 quilos de sardinha — a quota máxima permitida por dia — e mais umas bicas, sarguetas e linguados que são divididos entre os pescadores. “Então, há ou não há sardinha?”, pergunta em jeito de desafio um dos homens. Já descansado com o resultado da faina, Joaquim Manuel faz o elogio à sardinha: “É o peixe mais asseado que o mar tem. Onde há água poluída não há sardinha. Não é como o carapau e a cavala.”

À chegada à lota cumprem-se as últimas formalidades de descarga e pesagem. O negócio estava feito: 1€ por quilo de sardinha, a maioria vendida para Espanha e 20% para o mercado local, sobretudo para o Festival da Sardinha que decorria em Portimão naqueles dias. É pouco, mas podia ser pior . Na mesma manhã, na lota de Quarteira, tinha sido vendida a €0,6. “A sardinha quer-se da pequenina”, lê-se num dos cartazes do festival. Mas o facto é que o tamanho condiciona o valor. E este ano não apareceu sardinha gorda a sul, a mais requisitada pelos hipermercados e a preferida de muitos clientes. O rendimento dos pescadores, que têm de fazer em seis meses o suficiente para todo o ano, ressente-se. “Tem sido um ano fraco. Este inverno vamos ter dificuldades”, antecipa o filho do mestre. Já os restaurantes da zona ribeirinha de Portimão não parecem ter razões de queixa. Estão cheios ao almoço e o quilo de sardinha que saiu a €1 da lota, vendido a €5 na praça, transforma-se em €6,5 a dose, com seis sardinhas na travessa. A salada à algarvia é paga à parte.