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Se os cães falassem, o que diriam?

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Estudo encomendado pela empresa americana Amazon indentificou alguns desenvolvimentos tecnológicos que estão previstos. Um deles é descodificar o que dizem cães e gatos

Daqui a uma década vai ser possível perceber o que o “Bobi” aí de casa lhe está a dizer. E não será só o seu cão que vai ter a linguagem descodificada. A tecnologia que está a ser desenvolvida também pode ser adaptada a gatos. Este é um dos desenvolvimentos tecnológicos identificados num estudo encomendado pela Amazon para comemorar a abertura da “Shop of the Future” britânica - a área onde a maior empresa mundial do comércio eletrónico vende os seus artigos mais futuristas como esta MALA que é vigiada por uma app ou esta GUITARRA para ligar ao iPhone.

O desenvolvimento de tecnologias apoiadas em Inteligência Artificial vai permitir criar um descodificador que vai abolir a barreira de comunicação entre pessoas e animais. O canal de transmissão vai concretizar-se numa coleira que vai monitorizar os movimentos do cão. Sempre que um movimento é detetado, entra em ação o componente de software que vai relacionar esse comportamento com a interpretação de voz. Bater com a pata na porta é o equivalente a pedir para ir à rua – mas isso já sabemos, certo?

Será curioso ver qual a voz que será incluída no sistema e é fácil prever um modelo de negócio paralelo no qual empresas vão fornecer vozes como uma in-app purchase. Ainda me lembro de usar o NDrive (da empresa portuguesa que fazia GPS para automóvel) com as vozes de Cavaco Silva, José Sócrates e Pinto da Costa. Imitações, claro, mas era muito engraçado ter o Presidente da República a dar indicações de trânsito. Algo do género foi feito pela Waze (a empresa que a Google comprou em 2013 e que tem uma app de navegação - com o mesmo nome - que dá informações de trânsito em tempo real) quando disponibilizou as vozes de C-3PO (o robô de Star Wars) ou quando convidou Morgan Freeman para ler uma série de instruções de navegação.

Sim, dá para antecipar uma série de piadas quando os imitadores que consigam fazer na perfeição as vozes de algumas figuras públicas forneçam essas capacidades às empresas que façam as tais coleiras. Um cão com a voz de um popular treinador de futebol? Impagável!

“Produtos inovadores que têm sucesso baseiam-se em grandes, e genuínas, necessidades dos consumidores. A quantidade de dinheiro que gastamos com os animais de estimação – estão a tornar-se bebés de pelo para tanta gente – significa que há uma enorme procura para algo deste tipo. Alguém vai ter de desenvolver a tecnologia”, disse, ao THE GUARDIAN, William Higham, um dos autores do estudo já citado feito para a Amazon.
É ele que avança com uma barreira temporal de dez anos para a concretização de um tradutor de latidos. No entanto, há vários desafios a ultrapassar. Os diferentes comportamentos entre raças; o treino a que têm acesso (e que lhes condiciona as emoções); a forma como lidam com stress e ansiedade; a sua personalidade… há toda uma infinitude de elementos que vai ser preciso ter em consideração antes que os algoritmos possam fazer um trabalho sério e cientificamente pertinente.

Além disso, tanto se fala em robôs humanoides que vão ser, ao que tudo indica pelas previsões da evolução da Inteligência Artificial e da robótica, ubíquos nas sociedades do futuro… não faria mais sentido antever que teremos, também, animais de estimação que vão ser, basicamente, máquinas? Já nem falo de um cenário mais perturbante, pelo menos para mim, em que serão essas “pessoas sintéticas” os tais animais de companhia.
Ou seja, toda a tecnologia a ser desenvolvida para perceber o que os cães querem dizer quando ladram poderá ser atropelada pelo desenvolvimento acelerado de pequenos robôs de companhia que vão acabar por ocupar o lugar dos animais.

Afinal, ao fim de um dia de trabalho, quem é que ainda vai ter paciência para ouvir as queixas do “Bobi” que está deprimido por ter ficado em casa sozinho o dia todo? Não será melhor ser recebido por um animado “cão” que vai contar-nos as histórias mais importantes do dia, sugerir receitas baseadas na comida que está no frigorífico ou tocar uma playlist com as nossas músicas preferidas? Prefiro, claramente, a segunda opção que ainda tem a benesse de não nos obrigar a andar na rua com saquinhos. Quanto à relação emocional, é necessário dar tempo aos algoritmos. Eles também vão conseguir dar conta desse recado. Por mais assustador que seja antecipá-lo.

Artigo publicado na edição do Expresso Diário de 24/07/2017