Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A imparável revolução do streaming

O mercado discográfico mudou e adaptou-se 
aos novos hábitos de consumo dos melómanos. É do lado dos serviços de streaming que se regista o crescimento, mas os 
portugueses não querem pagar a fatura

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

Texto

Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Infografia

Jornalista infográfica

Já não se ouve música da mesma forma. 
O streaming tomou o lugar antes ocupado pelos discos físicos e hoje os utilizadores têm milhões de temas à sua disposição. 
As coleções de discos deram lugar às playlists personalizáveis e está quase tudo disponível em qualquer lugar. Basta dar início à sua sessão através do computador ou do telemóvel para aceder aos álbuns mais recentes (ou a músicas que já estavam esquecidas). É também por lá que saem os primeiros singles de novos trabalhos discográficos — alguns deles são mesmo exclusivos de determinada plataforma —, pelo que é cada vez mais difícil resistir-lhes.

Os serviços de streaming, sejam eles independentes como o gigante Spotify, ou estejam integrados em grupos tecnológicos (como o Apple Music ou o mais recente Amazon Music), estão mesmo por todo o lado e a oferta parece convencer cada vez mais utilizadores. “Atualmente, o streaming é o formato mais predominante e significativo na indústria musical moderna”, expressa a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) no seu mais recente estudo, explicando que é ele que “alimenta o crescimento em quase todos os principais mercados”. De acordo com o “Global Music Report 2017”, esta nova forma de distribuir música “é o motor de crescimento que está a revolucionar o negócio” e os números não mentem. O último ano mostrou que a revolução em marcha é mesmo imparável.

Se olharmos para o mercado musical de forma global, rapidamente se percebe de onde vem o crescimento global das receitas (de 5,9%). 
É do lado do digital — que já representa 50% da receita total — e com destaque para o streaming. As receitas deste mercado subiram 60,4%, espelhando a mudança no comportamento dos consumidores. Só no último ano, o rendimento do suporte físico baixou 7,6%, com a moda do download de música a passar completamente. A quebra de receitas no sector foi de 20,5%.

Ouvir música sim, mas sem pagar

Mesmo com as alterações na forma como a música está a ser ouvida, ainda persistem algumas barreiras e uma delas parece ser o preço (ou mesmo o pagamento). De acordo com o Barómetro de Telecomunicações da Marktest, relativo ao quarto trimestre do último ano, 44% dos consumidores de Internet no telemóvel ouvia música online, mas este consumo tinha uma condição. Mesmo que o acesso online a conteúdos seja mais frequente em Portugal do que no resto da União Europeia, isto verifica-se “especialmente se os conteúdos forem partilhados, gratuitos e sem anúncios”. A verdade é que no final do último ano Portugal ocupava o primeiro do ranking na utilização gratuita de música (86%), mas isso não se verifica se adicionarmos um cartão de crédito 
à equação.

De acordo com o “E-Communications and Telecom Single Market Household Survey”, publicado pela Comissão Europeia em maio de 2016, apenas 9% dos utilizadores de internet em Portugal pagam por serviços de música através da internet, abaixo da média europeia (14%). Segundo o Eurostat, e se o fator preço não for mencionado, 49% dos utilizadores de serviços online admite “ouvir música através de rádio ou serviços de música online”. Afunilando para os “serviços over-the-top utilizados no acesso à internet” em casa, fica-se a saber que quase metade dos portugueses (47%) utiliza plataformas dedicadas para ouvir música. 
Os valores a mantêm-se praticamente inalterados se em causa estiver a internet no telemóvel (44,3%).

A importância da competição

Tendo em conta os últimos dados divulgados pela MIDiA, que analisou os mercado de streaming no último mês, o Spotify mantém-se na dianteira com 40% do mercado de streaming pago — mesmo que isso, num universo de mais de 140 milhões de clientes, não lhes chegue para chegar aos lucros. Seguem-se os mais pequenos Apple Music (19%) e Amazon Music (12%), que embora ainda não tenham conseguido tomar o lugar da empresa sueca contam com o apoio de dois gigantes tecnológicos, que lhes podem alavancar as vendas no futuro através de produtos complementares. No Oriente, destaca-se a estratégia seguida pela Tencent Music Entertainment, que reúne as preferências na China. Os seus três serviços de streaming (QQ Music, Kugou e Kuwo) são os mais populares no antigo Império do Meio.

Mesmo que o streaming seja hoje uma forma fundamental de vender música, ainda não é tempo de baixar os braços e as discográficas sabem disso como ninguém. Para Michael Nash, responsável pela estratégia digital da Universal Music, “isto não é apenas uma transição de formato, é uma transformação fundamental que está a mudar tudo no negócio”. Num texto publicado no “Global Music Report 2017”, Nash deixa ainda um aviso: “Levantar o estandarte de Missão Cumprida é o pior que poderíamos fazer”.

É também por isso — e por saberem que a guerra contra problemas como a pirataria ainda não está completamente vencida — que os serviços de streaming continuam a pensar em novas formas de cativar utilizadores. Com recurso aos dados recolhidos durante a escolha e reprodução de músicas, estão a ser construídas ferramentas inovadoras para os consumidores. Por exemplo, um separador dedicado à descoberta de novos artistas, ao qual se juntarão outras valências no futuro. O desafio está na interpretação correta dos resultados, que pode levar ao um maior envolvimento dentro das aplicações. É esse o objetivo.

Por outro lado, e de acordo com o relatório que analisa o mercado musical à escala global, as empresas discográficas estão também a usar “dados de uma forma mais sofisticada e agregada do que nunca”. Com eles, afinam a sua estratégia ao mesmo tempo que “partilham [resultados] com os artistas e as suas equipas de gestão, para ajudar ao desenvolvimento das carreiras destes”.

Sempre que reproduzimos uma música, enviamos uma mensagem a quem a faz, e nesta semana houve uma mensagem que passou. O tema ‘Despacito’, do porto-riquenho Luis Fonsi, tornou-se o mais ouvido de sempre em streaming em todo o mundo. Ouvida 4,6 mil milhões de vezes, destronou ‘Sorry’ (de Justin Bieber) e ‘Shape of You’ (de Ed Sheeran). Cuidado com o que ouve, porque há sempre alguém a escutá-lo.