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Mação a braços com o seu “pior incêndio”: uma história trágico-florestal em seis pontos

Bombeiros combatem o incêndio junto a Castelo, uma das localidades mais ameaçadas em Mação: chamas parecem incontroláveis

Nuno André Ferreira/Lusa

Mação revive as memórias do grande incêndio de 2003. Por muito que se tenha feito, e fez, o desordenamento da floresta fala sempre mais alto

Desde domingo, as chamas lavram em Mação, no distrito de Santarém, em pleno Pinhal Interior. O concelho vivera em 2003 o seu maior pesadelo, quando o fogo consumiu mato e floresta numa área de mais de metade do território. Agora as chamas voltaram com grande força, reavivando memórias de há 14 anos.

O que acontece agora em Mação deve-o muito pouco ao que se tem feito, que é bastante. Deve-o sobretudo ao que falta fazer, que é muito: o ordenamento da floresta (os mais rigorosos, dizem que essa já é uma perspetiva errada, pois o que importa mesmo é ordenar o território).

No rescaldo de Pedrógão Grande, em meados de junho, Mação foi apresentado várias vezes (a começar pelo Expresso) como um exemplo de boas práticas. Os responsáveis da Câmara refrearam sempre a conversa quando ela poderia fazer supor que Mação era o melhor dos mundos. Nessas alturas, invariavelmente, alertavam que novos incêndios podiam simplesmente acontecer.

Eles sabiam do que falavam. Pouco mais de um mês depois, a realidade encarregou-se, cruamente, de dar-lhes razão. Anatomia de uma história trágico-florestal contada em seis pontos.

1 O incêndio de Mação é uma surpresa?

Pode parecer que sim, mas para quem habitualmente só ouve falar do concelho pelas alusões às suas boas práticas na criação de mecanismos de combate a incêndios, eficazes quando eles se encontram na sua fase inicial (como um sistema de monitorização inovador, criação de faixas de segurança, limpeza de linhas elétricas, dotação das aldeias de equipamentos de primeiro combate aos fogos). Mas quem no terreno é responsável pela gestão do dispositivo de proteção civil sabe muito bem os riscos que Mação enfrenta. Há pouco mais de um mês, durante uma manhã passada com jornalistas do Expresso, o vereador de Mação responsável pela Proteção Civil, António Louro, fez questão de interpelar o jornalista quando a conversa pendia demasiado para as boas práticas do seu concelho. Louro prefere chamar a atenção para a parte do copo meio vazia, para o que ainda falta fazer: “Fazemos este esforço porque estamos num perigo tremendo. Podemos ficar na situação de Pedrógão Grande”, afirmou.

2 Quais são as boas práticas em que Mação mais se destaca?

São várias. A começar, a iniciativa talvez mais simbólica: o Mac Fire.

É um sistema de monitorização e de combate de incêndios em tempo real, controlado a partir da viatura, um posto de comando operacional móvel. O Mac Fire pretende ser “uma célula de planeamento”, explica António Louro. “O planeamento é o que mais falha, [a capacidade de] olhar para os dados e tomar decisões, prevendo a evolução do fogo. O problema em Portugal não é falta de meios; é a capacidade para os usar no sítio e momento certos”, acrescenta.

O Mac Fire é o centro nevrálgico do combate a incêndios em Mação. Em primeiro plano, António Louro

O Mac Fire é o centro nevrálgico do combate a incêndios em Mação. Em primeiro plano, António Louro

José Oliveira

Em Mação, sempre que desponta um incêndio, elementos no local enviam as coordenadas GPS. Os dados são inseridos no sistema, ficando então a localização visível nos ecrãs. Após atualizações, está tudo mapeado numa carta militar.

Outra das inovações é o kit de aldeia. Está disperso por 80 locais e é formado por um depósito para 600 litros de água, com motor e mangueiras. Permite a primeira resposta das populações, quando os bombeiros ainda não chegaram. O kit é colocado facilmente em cima do atrelado de um trator ou de uma pick up, enche-se em poucos minutos é levado até ao local das chamas.
de Mação, Vasco Estrela.

Habitantes da Carregueira junto ao seu kit de aldeia

Habitantes da Carregueira junto ao seu kit de aldeia

Nuno André Ferreira/Lusa

Estes equipamentos foram desenvolvidos em Mação já depois do grande incêndio de 2003, quando ardeu mais de metade da área do concelho. Antes disso, já o município era um bom aluno, em função de medidas postas em prática no rescaldo de fogos na década de 90: “Bons caminhos, vigilância permanente, pontos de água e uma população mobilizada para a prevenção”, recorda António Louro.

Só que um dia 12 de agosto de 2003 caótico (só uma trovoada seca fez uma dúzia de ignições) tudo levou, e Mação foi obrigado a recomeçar do zero. Então, além do Mac Fire e do kit de aldeia, avançaram outras medidas: mais estradões na floresta, maior limpeza das bermas, 22 aldeias envolvidas por uma circular e limpeza de 70 kms de linhas elétricas.

3 Com tantas boas práticas, não devia então Mação estar a salvo de incêndios desta natureza e dimensão?

Não, porque os passos dados em Mação incidem sobretudo na resposta aos incêndios e na criação de medidas para minorar os seus riscos. Não é que este passo seja irrelevante. Mas nunca pode evitar os fogos quando eles atingem determinada dimensão, pois estes só podem ser evitados se houver políticas de longo prazo que apostem na prevenção. E esta começa, antes de mais, num correto ordenamento do território. “A resposta aos incêndios não está no combate, mas na gestão da floresta e da paisagem”, repete António Louro. A paisagem (física e humana) nada tem a ver com a de há décadas. Nos campos, cresceu a mancha de pinheiro e de eucalipto e desapareceram os rebanhos, que limpavam os matos. Nas aldeias, multiplicam-se as casas abandonadas, daqueles que morreram ou partiram para outros locais. E os que ficam, são cada vez mais velhos, sem idade ou vontade de ir assegurando uma agricultura de subsistência, que sempre garantia mais segurança nos vales, em redor das localidades. E com os campos cheios de massa combustível, sobretudo de espécies facilmente inflamáveis (pinheiro e eucalipto), se o incêndio não é atalhado na sua fase inicial, ganha proporções que o torna incontrolável.

4 Que área ardeu já neste incêndio?

A meio da manhã desta quarta-feira, numa estimativa feita ao Expresso, o vice-presidente da Câmara, António Louro, apontava para 16 mil hectares ardidos. Em termos relativos, o vereador considerava tratar-se já do maior fogo da história de Mação. “Este incêndio é pior do que o de 2003”, afirmou António Louro.

Populares ajudam no combate ao incêndio na localidade de Castelo

Populares ajudam no combate ao incêndio na localidade de Castelo

Nuno André Ferreira/Lusa

Há 14 anos, desapareceram 21 mil dos 40 mil hectares da área total de Mação (terra que ficou na altura com o nada invejado título de "maior incêndio do país"). “Em 2003 fomos apanhados desprevenidos”, salienta Louro, explicando assim a razão de considerar este incêndio o pior de todos. Desta vez, ao quarta dia de chamas, haviam já sido retiradas de casa 200 pessoas, de 20 aldeias, algumas das quais regressaram entretanto às suas habitações.

5 O combate ao incêndio tem sido feito de forma eficaz?

Do ponto de vista da Câmara, não, pois tanto o presidente, Vasco Estrela, como o seu número 2, António Louro, queixaram-se das decisões tomadas pelo comando da Proteção Civil. “Os meios que tivemos hoje [quarta-feira] não estiveram cá no domingo quando precisávamos deles, não estiveram cá na segunda quando precisávamos deles, nem estiveram cá na terça-feira quando precisávamos deles”, afirmou António Louro. Já Vasco Estrela disse aguardar que venham a ser dadas “as devidas explicações” pelas “pessoas que têm responsabilidades no despacho de meios”. O autarca acrescentou: “Tenho o direito de saber os critérios que estão na base das decisões que foram tomadas ao longo das horas deste fogo. (...) Vou exigir em nome da população do concelho de Mação que justifiquem decisões que foram tomadas”.

Da parte da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), sem terem sido visados expressamente os autarcas de Mação, foi dada uma resposta. “Quem está no terreno a combater o fogo dificilmente tem uma perceção global da situação operacional. Havia várias ocorrências ao mesmo tempo e situações a que tínhamos de responder. O comando nacional assumiu a coordenação estratégica pois é isso que está determinado”, afirmou Patrícia Gaspar, adjunta de operações da ANPC.

Na terça-feira à noite, quando os autarcas de Mação já haviam feito as primeiras queixas mais ainda sem endurecer o tom, Marcelo Rebelo de Sousa visitou Mação.

6 E agora?

Agora, enquanto as chamas ainda estão altas (cerca das cinco da tarde desta quarta-feira, um repórter da SIC dava conta de quatro frentes de fogo só nas imediações do nó de Envendos sobre a A23) e o vento continua forte, em Mação faz-se com amargura uma retrospetiva dos últimos anos.

António Louro é a vez do desalento. “O que mais custa é andar há 14 anos a pedir ao país condições para colocar em prática um projeto-piloto de ordenamento da floresta e, sobretudo, do território. E esse projeto aguarda luz verde há oito anos”, dizia o vereador ao Expresso no final desta manhã. Com efeito, Mação tem pronto desde 2011 o seu projeto de empresa de aldeia. Consiste no agrupamento do minifúndio para dar escala à exploração, com um mínimo de mil hectares.

Os proprietários aderentes repartiriam tanto os custos (necessidade de implantar zonas de segurança, por exemplo) como os benefícios (os proveitos da empresa). A orientação passaria por dois eixos: reduzir no conjunto a área de floresta (de 90% para 70%) e relocalizar algumas espécies, fazendo uma “compartimentação”. Traduzindo por miúdos; evitar manchas compactas de pinheiro e eucalipto, que seriam cortadas por outras culturas, que podem barrar o fogo. “Não há em Portugal uma autarquia que tenha feito um esforço dessa dimensão. E ninguém nos ouviu. É uma frustração enorme”, desabafa António Louro.

Mas essas serão contas para ajustar depois, no rescaldo do incêndio, que curiosamente teve início na Sertã e só depois se estendeu a Mação. Para já, a prioridade em Mação é acabar com mais este pesadelo. Nesta tarde, eram várias as frentes ativas, de difícil controlo, com um vento forte a mudar muitas vezes de direção. “O vento ainda não acabou. Com total sinceridade não sabemos onde é que pode parar e quando pode parar”, dizia aos jornalistas o presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela.