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Ministério da Administração Interna não acolhe sugestão de Costa para SIRESP

lusa

Enterrar cabos no chão é muito oneroso. Governo vai pedir comunicações 
por satélite e microondas

O primeiro-ministro António Costa iniciou a semana a propor a passagem de cabos em calhas técnicas soterradas para dotar a Rede Nacional de Emergência e Segurança (SIRESP) de maior resiliência, mas o Ministério da Administração Interna (MAI) prefere apostar nas comunicações de satélite e microondas para criar soluções de redundância. Aparentemente, nada impedirá o executivo de solicitar esta evolução tecnológica ao consórcio SIRESP, mas é quase certo que essa opção implicará mais investimento do Estado – ou então uma grande capacidade de persuasão. Até porque o contrato assinado em 2006 não obriga o consórcio a usar o método de ligação entre estações que for considerado mais seguro ou resiliente, do mesmo modo que não também não impede o recurso a cabos suspensos por postes, mesmo depois das várias situações de derretimento provocadas pelos incêndios florestais.

“O contrato SIRESP identifica todos os circuitos de comunicações em termos de pontos de origem e de destino e débitos. No entanto não define a especificação técnica de cada um desses circuitos. Há circuitos em fibra ótica e em cobre, quer aéreos quer subterrâneos e também alguns links microondas”, explica o gabinete Constança Urbano de Sousa, Ministra da Administração Interna.

A rede SIRESP é composta por 550 antenas que estão ligadas diretamente por cabo a oito comutadores que gerem as comunicações dos diferentes distritos. As antenas só comunicam por rádio com os operacionais que se encontram nas imediações. As comunicações com outros pontos da rede (por exemplo um centro de comando em Lisboa) é feita por cabos. E têm sido esses cabos que derretem nos incêndios florestais. Tanto as comunicações de satélite como a tecnologia de microondas teriam a vantagem de estabelecer comunicações sem cabos e não serem afetadas pelos fogos, desde que as antenas não sejam igualmente danificadas pelas chamas.

“Atendendo ao elevado número de estações base que se localizam em áreas rurais e florestais, parece-nos especialmente relevante referir as novas soluções de redundância em que o MAI está a trabalhar e que assentam no recurso às tecnologias microondas e satélite que são resilientes ao fogo”, sublinha o gabinete da Ministra Constança Urbano de Sousa, numa alusão à parte da rede que está vulnerável aos incêndios, por estar assente nos denominados “cabos aéreos”.

O corpo principal do contrato é público – mas as especificações quanto aos equipamentos e métodos de ligação constam em anexos que estão considerados confidenciais, por questões de segurança da rede e por proteção dos direitos comerciais e industriais da Motorola (fornecedora e acionista do consórcio SIRESP). O MAI recusa fornecer os anexos confidenciais à comunicação social, e recorda que ao abrigo do contrato apenas podem aceder a esses documentos “a Entidade Gestora (Secretaria Geral do MAI), a Unidade Técnica de Acompanhamento Parcerias Público-Privadas e respetivas tutelas” e ainda “a empresa Siresp SA e os seus acionistas, sujeitos a uma cláusula contratual de confidencialidade”.

Calhas caras

António Costa não hesitou em denunciar os cabos suspensos por postes como os principais causadores das “vulnerabilidades inadmissíveis” do SIRESP, e também não se coibiu de considerar que a solução poderia passar pelas calhas técnicas das estradas. O que implicaria, caso o MAI seguisse essa opção, um investimento substancial. O custo de instalação de uma rede em calhas técnicas soterradas é 20 vezes superior ao custo de instalação cabos suspensos em postes. “E estou a fazer um cálculo por baixo”, refere um responsável de uma empresa especializada na instalação de redes para as maiores operadoras nacionais, que solicitou o anonimato. Luís Correia, professor do Instituto Superior Técnico e investigador do INESC, também admite que a diferença seja um pouco menor, lembrando que a instalação as calhas técnicas soterradas, com abertura de vala, colocação do revestimento de cimento, tubos de proteção e cabos, pode chegar a um custo de “cinco ou seis mil euros por quilómetro”. O que destoa de sobremaneira com os cerca de 100 euros da instalação de um único poste que permite acrescentar à rede um troço de cerca de 50 metros (o que dá um custo de cerca de 2000 mil euros por quilómetro).

“Faz sentido recorrer às calhas técnicas, mas os custos são muito maiores. É possível que nalguns casos se justifique o uso de mini-links (antenas que emitem sinais de rádio) para garantir redundância da rede. Há uma análise técnico-financeira que vai ter de ser feita caso a caso”, refere o especialista na rede.

O recurso às calhas técnicas das estradas poderia reduzir substancialmente os custos de abertura de valas (“90% dos custos das calhas técnicas são de construção civil, estima Luís Correia), mas tem um senão. “São poucas as estradas em zonas florestais que têm essas calhas técnicas já feitas”, refere o mesmo especialista na instalação de redes que solicitou anonimato.

Os dados fornecidos pela Infraestruturas de Portugal (IP) apenas dizem respeito a estradas nacionais e autoestradas concessionadas, mas permitem ter ideia do panorama que o consórcio SIRESP e o MAI terão de enfrentar caso optem pelas calhas técnicas que também são conhecidas como Canais Técnicos Rodoviários (CTR): “A IP gere cerca de 15 mil quilómetros de estradas, onde mais de 4.000 quilómetros têm CTR. Ao longo dos anos esta rede de CTR tem vindo a ser alargada, tendo por base o interesse dos próprios operadores de telecomunicações e o da IP/IPtelecom”.

Gabinete de Constança faz conclusões preliminares

Afinal, vai ser o gabinete do MAI a fazer o relatório intercalar sobre a tragédia de Pedrógão. O Governo cedeu à pressão do Presidente da República, que exigiu conclusões rápidas, considerando que esperar pela comissão independente nomeada pela Assembleia da República e cujo prazo de trabalhos só termina depois das eleições autárquicas seria tempo de mais. “É preciso analisar e cruzar toda a informação que temos para se fazer uma leitura sobre todos os diferentes intervenientes”, diz fonte do MAI ao Expresso. Não será a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI), contudo, a fazer isso.

O gabinete do MAI vai então analisar os relatórios da GNR, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), da Secretaria-Geral, do Instituto de Telecomunicações (IT) e do especialista Xavier Viegas. O trabalho do IT só estará concluído no final de setembro (no fim deste mês está prevista a parte sobre o que falhou em Pedrógão), bem como o estudo de Xavier Viegas, formalmente encomendado à Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial por 25 mil euros.