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Leia aqui, na íntegra, a controversa entrevista a Gentil Martins. E o seu pedido de desculpa à mãe de Cristiano

Tiago Miranda

Aos 87 anos, o cirurgião que ficou famoso pela separação de gémeos siameses continua a operar 
e a dar consultas. E a dizer o que pensa, sem medo 
de provocar um terramoto no politicamente correto

Nelson Marques

Nelson Marques

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Jornalista

Vera Lúcia Arreigoso

Vera Lúcia Arreigoso

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Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

António Gentil Martins está em casa. Recebe-nos para esta conversa no Instituto Português de Oncologia (IPO), em Lisboa, fundado pelo seu avô, Francisco Gentil, e onde criou a primeira unidade multidisciplinar de oncologia pediátrica do mundo. Cirurgião pediátrico e plástico, reformou-se há 17 anos, depois de uma carreira dividida pelo Hospital Dona Estefânia e o IPO, mas continua a vir cá agora como consultor. Tem pena de já não o deixarem operar, mas fá-lo ainda no privado, porque a mão não lhe treme e a cabeça “não está mal de todo”. São 87 anos acabados de fazer, 63 de carreira, mais de 12 mil cirurgias, as mais afamadas com a separação de gémeos siameses. Este ano, foi honrado com o prémio Manuel Sobrinho Simões, da Liga Portuguesa Contra o Cancro, e o Prémio Nacional de Saúde. Nesta entrevista, recorda o seu percurso, mostra arrependimento por não ter dedicado mais tempo à família e assume-se frontalmente contra o aborto, a eutanásia e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. E revela que vai doar o corpo à ciência, porque aprendeu “imenso a cortar os outros”.

Onde arranja energia para continuar a dar consultas e a operar?
Não vou buscá-la a lado nenhum, ela está ou não está. Canso-me mais a subir escadas ou a correr para os autocarros, que são caríssimos e francamente mauzinhos. Espera-se horas.

Reformou-se aos 70 anos, o limite 
na função pública.
Saí [do Hospital Dona Estefânia] em 2000, obrigaram-me. Sou pela reforma flexível. Se o médico estiver bem, devia poder trabalhar mais anos. Se não, também devia poder parar antes.

Chegava a ir para o hospital com 
o pijama debaixo da roupa.
Sim, quando me chamavam de urgência a meio da noite. Na altura, não havia serviço de cuidados intensivos. Para mim é sagrado: um doente que opere é da minha responsabilidade. Dou a primeira facada e o último ponto.

Porque escolheu o IPO para esta conversa?
Toda a minha vida como médico foi passada também aqui e continuo a vir cá, agora como consultor. Quando me formei, em 53, trabalhei durante dois anos sem receber, porque o meu avô [fundador do IPO] não me pagava se não fizesse as coisas como deve ser. “Tens de provar”, disse-me. A certa altura fiz o internato dos Hospitais Civis de Lisboa, o único que havia no país. Eram dois anos e constituía uma prova de esforço muito grande — em 300 candidatos entravam 30 — e punha-se na tabuleta do consultório ‘interno dos hospitais’. Era muito importante porque significava ter passado numa seleção muito severa. Depois resolvi ir para cirurgia pediátrica.

Porquê?
Gosto muito de crianças. São muito mais afetivas, diretas, sinceras... Além disso, têm uma grande diversidade de situações — na altura, as malformações congénitas eram das mais variadas — obrigando até um bocadinho à improvisação. Gosto muito da frase “guidelines are not God lines”. As normas são ótimas, mas há doentes que são diferentes e temos de adaptar as soluções. Também tinha uma irmã que era professora de enfermagem pediátrica, casou-se com um pediatra, e achei que podia ser cirurgião pediátrico.

Fez a especialização em Londres.
Achei que não estava tão evoluído como lá fora e fui para Inglaterra com uma bolsa do British Council. Aprendi em três anos o que aqui não aprenderia em 30. Trabalhava 24 horas, dia sim dia não, e um fim de semana em cada três.

As 24 horas não são, portanto, 
uma invenção portuguesa.
É diferente, não estava a trabalhar exatamente 24 horas. Tínhamos de estar presentes mas de noite podíamos descansar, a não ser na Urgência, que era uma vez por semana. Um dia espalhei-me. Fui parar ao hospital, onde estive três semanas, porque adormeci ao volante. Tinha acabado de ganhar uma prova de tiro no Estádio da Luz e foi quando me vim embora que me espalhei na Duque de Ávila. Nesse dia não me tinha deitado porque recebera um indivíduo que tinha levado uma série de facadas e tinha estado a cosê-las.

Que ferimentos teve no acidente?
Parti umas costelas e fiquei sem os dentes da frente. Acordei já na maca no [Hospital de] São José a olhar para o teto. Senti que conhecia aquilo de qualquer lado.

Vem de uma família com uma longa ligação à medicina. Era inevitável ser médico?
O meu penta-avô foi fundador da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa em 1850 e escreveu o primeiro tratado português de anatomia; o meu bisavô era médico, o sogro do meu avô era professor de obstetrícia, o meu avô foi cirurgião e fundador do instituto, o meu pai era cirurgião. E foi também o maior atleta português de todos os tempos. Agora só se fala no Ronaldo, mas esquecem-se de que há 90 anos houve um senhor que foi campeão do mundo de espingarda, mestre atirador nacional e internacional de todas as armas, campeão de Portugal e recordista do peso, do disco, do dardo, do salto em altura e comprimento... O meu irmão foi cirurgião e diretor do IPO , o meu padrinho era o pediatra Mário Pina. Havia uma grande tradição na família, mas não foi isso que me motivou. Na altura estava muito hesitante entre engenharia e medicina, mas, aos 11 ou 12 anos, vi uma pessoa ser atropelada no Largo do Rato quando estava a ir para o liceu. Vi o homem a sangrar, não sabia se estava vivo ou morto, e senti-me impotente. Decidi ser médico para saber o que fazer.

O apelido pesava-lhe?
Pesava num sentido: eu devia ser António Silva Martins.

O Gentil é mais adequado para um médico, ainda por cima pediatra.
[Risos]. Na faculdade todos me chamavam Gentil porque o meu avô era lá professor e todos conheciam o Professor Gentil. Ainda me lembro de uma récita dos estudantes de medicina: “Nem o Pulido [Valente] é Gentil nem o Gentil é Pulido”. Os grandes nomes eram o Pulido da medicina e o Gentil da cirurgia. E quando tive de arranjar um nome médico pensei logo em Gentil.

Foi uma ironia que alguém que dominava tão bem as armas como 
o seu pai morresse num acidente 
na carreira de tiro.
É daquelas coisas imponderáveis. Esqueceu-se de que tinha a arma carregada e quis mudar o ponto de mira. Para não sujar a coronha, colocou-a em cima do pé e suspeita-se de que a arma escorregou e isso fê-la disparar. O tiro entrou-lhe por baixo do queixo. Foi a única morte na carreira de tiro em cem anos e nunca voltou a acontecer. Eu tinha três meses.

Diz que ele foi a sua principal referência. Como é que o foi descobrindo na ausência dele?
Foi a minha mãe que me transmitiu o que tinha sido a vida do meu pai. Ele era o maior em tudo: o Egas Moniz dizia que ele era o melhor colaborador que tinha tido, o Sidónio Pais que era o tipo mais brilhante que tinha aparecido em Coimbra naquela geração e por aí fora. Foi voluntário na Guerra de 14-18 como médico, com o Fernando da Fonseca [que dá nome ao hospital Amadora-Sintra]. No enterro dele, em 1930, estiveram 1500 automóveis.

Entristece-o não ter tido oportunidade de o conhecer?
O mundo é o que é.

Foi muito complicado para a sua mãe?
Ficou viúva com três crianças pequeninas e um bocado atrapalhada. O meu pai tinha 38 anos e não tinha feito uma grande segurança financeira. Felizmente a minha mãe — que quis ser médica mas o meu avô não deixou porque no início do século passado não era normal uma mulher ser médica — arranjou um emprego. Sabia muito bem línguas e foi fazer traduções no boletim da Junta Nacional de Cortiça. Nunca passámos fome, mas vivíamos com uma certa modéstia.

Dedicou-se ao tiro apesar da morte trágica do seu pai. Participou até nos Jogos Olímpicos de 1960.
A minha mãe tinha um respeito total pelo meu pai e dizia-me: “O teu pai dizia que caçar é perigoso, portanto agradecia que não caçasses. Ir à carreira de tiro o teu pai sempre disse que era seguro desde que se tenha cuidado, portanto se quiseres podes ir”. O meu mestre foi um amigo dele, António Montez, que tinha sido atleta olímpico na mesma altura e tinha a Espingardaria Central no Rossio. Foi ele quem me ensinou a atirar, pagou as munições e emprestou-me as armas no início. Tinha uma grande veneração por ele. Chamava-lhe Pai Montez.

O tiro era uma homenagem ao seu pai?
Ele tinha feito todas aquelas proezas e eu queria imitá-lo.

Gentil Martins assume-se frontalmente contra a eutanásia 
e o suicídio assistido. 
“A nossa Constituição, que não é propriamente católica, diz que a vida é inviolável. Tenho de ajudar o doente até ao fim, posso sempre tirar as dores. Quando ele está em sofrimento e lhe dão uma injeção com a intenção 
de lhe tirar a dor, o doente pode morrer. É o princípio do duplo efeito. A moral do médico é o único juiz”

Gentil Martins assume-se frontalmente contra a eutanásia 
e o suicídio assistido. 
“A nossa Constituição, que não é propriamente católica, diz que a vida é inviolável. Tenho de ajudar o doente até ao fim, posso sempre tirar as dores. Quando ele está em sofrimento e lhe dão uma injeção com a intenção 
de lhe tirar a dor, o doente pode morrer. É o princípio do duplo efeito. A moral do médico é o único juiz”

Tiago Miranda

Uma das muitas histórias extraordinárias que conta dele envolve uma transfusão que ele fez 
a um marinheiro.
Ele estava de serviço no banco de Urgência do São José e veio um marinheiro que precisava de ser operado de urgência. O único que tinha o sangue compatível era o meu pai, mas ele tinha de operar o doente. Então, teve uma ideia genial: tirou o sangue do pé diretamente para o braço do doente e operou. Mas o mais importante é que não se vangloriou disso.

Herdou essa capacidade 
de improviso?
Posso dizer que violei dois protocolos internacionais durante muitos anos. No primeiro congresso mundial de cancro da criança, em 1969, mostrei como tratava tumores do rim com injeções [quimioterapia] antes da radiação. Segundo o protocolo, primeiro era a radiação e depois operava-se. Além disso, era habitual tirar-se o rim e achei que, quando o tumor era só num bocadinho do rim, não devia tirá-lo todo. Fiz isso e durante mais de 20 anos violei o protocolo internacional. Hoje toda a gente faz dessa forma.

Agora seria mais difícil violar 
um protocolo.
Possível é, corre-se é um risco. À minha responsabilidade faço aquilo que entendo que é útil ao doente. Na altura era diretor do serviço e fazia o que entendesse ser melhor.

Apaixonou-se num hospital.
Tive de operar uma criancinha com uma doença grave e cujos pais estavam mobilizados em Angola. Quem tratava da criança era uma tia e passei a conhecê-la. Curiosamente, a minha mãe e a mãe dela eram muito amigas. Casámos tinha eu 33 anos e ela 24.

Foi um pai ausente?
Mais do que ausente.

Custa-lhe não ter acompanhado mais os seus filhos?
Prejudiquei sobretudo a minha mulher, ela é que teve de aguentar os filhos. Tenho ‘só’ 8 filhos e 25 netos, é contra a corrente. Durante os 12 anos em que estive ligado à Ordem dos Médicos a parte familiar praticamente não existiu, foi a adolescência dos meus filhos. Talvez tenha sido influenciado pelo facto de a minha mãe ter sido tão completa, quase não me preocupei por estar ausente. Foi a única coisa de que sinceramente me arrependo, não soube equilibrar as coisas. A família é a base de qualquer sociedade.

Tem algum filho médico?
Tenho três que queriam ser, mas não conseguiram. Até escrevi um artigo na altura a defender que a nota era importante, mas a vocação era mais importante. Há médicos e licenciados em medicina.

Entristece-o que nenhum deles tenha seguido os seus passos?
Tive muita pena porque dariam bons médicos. Mas tenho uma neta médica e outra que está na Faculdade de Medicina.

Só mulheres.
O mundo acaba se as mulheres não tomarem conta. É simples: os homens não podem ter filhos. Podemos discutir muita coisa, mas se as mulheres não resolverem o problema de terem filhos, acabou. Ninguém quer ver isto, mas é uma realidade. Podemos ajudar, mas não os fazemos.

É uma responsabilidade das mulheres?
É. Elas é que têm de encarar a solução. Se não se dispuserem a isso, não há hipótese. Não podemos obrigá-las a ter filhos.

Como é que vê a hipótese de um homem solteiro ter filhos recorrendo a uma barriga de aluguer, como alegadamente foi o caso de Cristiano Ronaldo?
Considero um crime grave. É degradante, uma tristeza. O Ronaldo é um excelente atleta, tem imenso mérito, mas é um estupor moral, não pode ser exemplo para ninguém. Toda a criança tem direito a ter mãe. Mais: penso que uma das grandes culpadas disto é a mãe dele. Aquela senhora não lhe deu educação nenhuma.

A sociedade nem questionou.
Fiquei horrorizado com isso. Muitos até o desculpam dizendo “coitadinho, ele até gosta de criancinhas”. E as criancinhas não têm mãe? Ter mãe já não tem significado?

É católico praticante?
Sou. Vou à missa todos os domingos e dias santos.

Casou-se tarde para a época.
Queria escolher bem. Tem de existir uma similitude de ideias e aquela atração que não sabemos porque aparece. Sentir amor por outra pessoa. Sou totalmente contra os homossexuais, lamento imenso.

Duas pessoas do mesmo sexo não podem amar-se?
Ouçam, é uma coisa simples: o mundo tinha acabado. Para que o mundo exista tem de haver homens e mulheres. Trato-os como a qualquer doente e estou-me nas tintas se são isto ou aquilo... Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam.

É, portanto, contra o casamento e a adoção de crianças por homossexuais.
Sou totalmente contra. E contra o aborto também. É muito curioso dizer-se que não se sabe quando começa a vida humana. É tão simples como ter uma célula masculina e uma feminina que se juntam, ficam com todos os cromossomas, e aquela celulazinha já tem a cor dos olhos e do cabelo, a estatura, está lá tudo...

Não tem personalidade ainda.
E um recém-nascido tem uma grande personalidade? Alimenta-se sozinho? É capaz de falar, de fazer tudo? Não há uma interrupção na evolução do ser humano.

Não admite nenhuma exceção?
Nenhuma. Defendo a evolução natural: nascemos e morremos.

Notabilizou-se a separar casos de siameses, que hoje são raríssimos.
Já não existem na Europa, abortam todos. Só vêm do Bangladesh, da África do Sul, da Índia... Nos sítios onde há ecografia pré-natal abortam. Os primeiros siameses que operei [duas meninas] têm 38 anos e estão impecáveis. Têm uma grande cicatriz, mas fora isso estão normalíssimas.

Sente-se no papel de Deus quando corrige a natureza?
Não me sinto no papel de Deus, sinto-me o maior do mundo. Quando safo um doente, sinto-me fantástico. Quando um doente acaba por morrer, penso se fiz o que devia ter feito, se tinha alternativa. Sentimo-nos francamente mal. A medicina dá-nos o melhor e o pior.

Morreu-lhe algum paciente no bloco operatório?
Na sala de operações, honestamente, não me lembro, mas é possível. Mas morreu-me um doente logo depois de me formar, no Curry Cabral. Era um doente com tétano, que tinha de alimentar com uma sonda naso-gástrica. Quando lhe meti o cateter ele teve um espasmo, deixou de respirar e morreu.

Esse episódio marcou-o?
[Suspira] Marcou-me brutalmente, estive para desistir de ser médico. Fui ter com o meu avô, desesperado, a dizer ‘matei o doente’ e ele explicou-me que não, que não tinha sido por minha responsabilidade porque eu tinha mesmo de o entubar. Com o tempo, vamos esquecendo. Temos de reconhecer que não somos infalíveis.

É contra a eutanásia e o suicídio assistido?
Absolutamente. Tenho de ajudar o doente até ao fim, posso sempre tirar as dores. Quando ele está em sofrimento e lhe dão uma injeção com a intenção de lhe tirar a dor, o doente pode morrer. É o princípio do duplo efeito. A moral do médico é o único juiz.

Uma pessoa não deve ter direito 
a decidir o fim da sua vida quando está em sofrimento?
Acho que não. Podem dizer que é por eu ser católico, mas não é por isso. A nossa Constituição, que não é propriamente católica, diz que a vida é inviolável.

Denunciava um colega que lhe confessasse que ajudou alguém 
a morrer?
Não denunciava, mas dizia-lhe que para mim deixava de ser médico. Nós fizemos um juramento. Então, para que serve a honra das pessoas?

Ainda opera.
Ainda [estica a mão para mostrar que não treme], mas muito pouco. Não uso óculos, fui operado às cataratas há cinco anos. De cabeça, não estou mal de todo. Faço sobretudo cirurgia pediátrica. E já não opero narizes, porque não tenho a certeza de que vão ficar bem. Se tiver dúvidas, já não faço. Mas a maior parte das pessoas vem pedir-me uma segunda opinião, porque operar no privado é muito mais caro.

Anda há 40 anos a lutar contra 
o modelo do Serviço Nacional 
de Saúde (SNS).
Não há nenhum serviço de saúde correto se não se der liberdade ao doente de ir onde lhe apetecer, quer à instituição quer ao médico. Nós adotámos o sistema inglês — um pouco como os soviéticos — que garante o médico, mas a relação personalizada é muito mais fácil num sistema de liberdade de escolha. Perdeu-se um bocadinho da personalização dos doentes privados. Eu era chamado às duas da manhã para ir apalpar uma barriga, agora vai-se diretamente para o hospital. Há um pequeno avanço feito por este ministro [Adalberto Campos Fernandes] de permitir às pessoas mudarem de centro de saúde e de médico.

Mas muitos utentes não têm sequer acesso a um.
No ‘meu sistema’ isso não existe. Num sistema com seguros de saúde isso não existe, têm sempre o médico que escolhem. Não quero que me deem um médico, quero poder escolhê-lo. Deve ser um médico da família e não de família.

Isso não aumentaria a clivagem no acesso aos cuidados de saúde entre os mais ricos e os mais pobres?
Não, desde que haja preços tabelados.

E os médicos querem preços tabelados?
Não querem? No projeto que fiz, os médicos tinham um ordenado-base relativamente baixo que ia aumentando de acordo com as consultas que fizessem. É evidente que se for pago à peça um médico trabalha mais horas, mas também está motivado para ganhar mais. O seu esforço é recompensado.

Que opinião tem do atual ministro 
da Saúde?
Acho melhor do que os anteriores, mas ainda não chega. Tem de mudar o sistema e não há coragem para isso. Por exemplo, ter os médicos a receber em função do número de consultas que façam. Toda a gente diz que o SNS é uma das grandes pérolas do 25 de Abril, então ninguém o pode alterar. Para mim, a grande pérola não é a melhor.

Acha que o SNS está condenado 
ou para durar?
Está para durar, mas condenado. Vai continuar a existir, não vai ser é aquilo que dizem que ele é. Começou por dizer-se que este ‘brilhante’ Serviço Nacional de Saúde feito pelo Dr. Arnaut era um imperativo constitucional e não era preciso fazer contas. Depois a Constituição teve de ser alterada para dizer que afinal o SNS não é gratuito, é tendencialmente gratuito. Falta mais dinheiro para a saúde, ou então têm de dizer honestamente que não dão. Não podem é dizer que dão e depois faltar. Mais: os tempos de espera não fazem sentido; quero ser tratado quando estou doente, não quero estar à espera de uma consulta.

Hoje confia-se menos nos médicos?
Muito menos. Não há uma escolha. Não percebo porque é que o 25 de Abril foi uma revolução para a liberdade e na Saúde não há. Dizia-me o Veiga Simão, que foi ministro da Educação antes e depois do 25 de Abril: “Foi uma pena no 25 de Abril terem destruído Deus, pátria e a família e ficado só com a liberdade. Juntavam a liberdade a Deus, pátria e família, não tinham de destruir tudo. Ficaram só com a liberdade, ainda por cima não a interpretaram bem, e dá nisto”. E é verdade. Realmente, não sei o que estes políticos que temos pensam que vai ser o futuro do país.

As pessoas vão primeiro ao Google antes de irem ao médico.
É uma ameaça terrível. É evidente que qualquer um pode ir à internet e ver lá tudo, mas cada doente é um doente. Às vezes uma boa frase é melhor do que um comprimido. Porque é que os charlatães e os bruxos têm sucesso? Porque dão atenção às pessoas, falam com elas.

Em desespero, as pessoas 
agarram-se a qualquer coisa. Veja-se o caso dos portugueses que vão 
para a Alemanha atrás do ‘milagre’ das células dendríticas.
É uma vigarice total. Escrevi um artigo por causa da menina Safira. As células dendríticas não lhe fizeram absolutamente nada. Mais: custavam cerca de 80 mil euros. Há muita gente que vai convencida de que é sacrossanto. A Safirazinha, coitadinha, já tinha sido operada, já tinha tirado o rim, já tinha feito a quimioterapia e tinha pelo menos mais de 50% de probabilidades de ficar curada. Se tivesse completado a quimioterapia, teria 90%. Outra menina, a Nonô, foi para lá num estado desesperado, mas não chegou a fazer as células dendríticas. Esteve três semanas internada num hospital em Frankfurt e os pais quiseram que viesse morrer a Portugal. Fui eu que fui buscá-la à Alemanha, porque era preciso um médico. Morreu passados três dias.

Nunca teve o apelo da política?
Fui convidado para secretário de Estado pelo [João] Morais Leitão no tempo do Sá Carneiro. Já era presidente da Ordem e disse-lhe que não era bom para a política, porque só digo o que quero e o que penso. Os políticos às vezes têm de dizer coisas que não pensam. Tive a sorte de me chamarem tanto comunista como fascista; é porque devia estar certo. Não pertenço a partido nenhum, nem quero.

Mas é um homem de direita.
Sou nitidamente mais à direita do que à esquerda. Sou um democrata-cristão.

De que é que sente falta nesta fase 
da vida?
Não sinto falta de nada em especial. Só quero sentir que fiz aquilo que devia ter feito.

Como é que gostava de ser recordado?
Nunca pensei nisso. Ofereci o meu corpo à faculdade, porque aprendi imenso a cortar os outros.

O que é que a família achou dessa decisão?
Não gostou especialmente, mas aceitou. No dia em que eu morrer, ligam para a Faculdade de Ciências Médicas [de Lisboa].

Teme o momento da morte?
Honestamente, não penso nela. Quando vier, vem e não posso fazer nada. Tinha um grande amigo, o Daniel Serrão, que foi atropelado na passadeira ao sair de casa... Sei lá o que vai acontecer.

Acredita que há algo para lá 
desta vida? Confessou que achava 
que iria passar algum tempo 
no purgatório.
Isso com certeza. Um Deus bondoso não deixa ninguém ir para o inferno, mas o purgatório é absolutamente essencial, porque fizemos disparates e coisas más. É correto ser punido pelo que se fez de mal.

Esse é um pensamento pouco científico.
Conseguem explicar como é que uma celulazinha já tem a cor dos olhos, do cabelo, a estatura? Como é que apareceu? Tem de haver uma origem, alguma coisa além disto e que não consigo compreender.

ESCLARECIMENTO

No dia seguinte à publicação da entrevista, que sucedeu na edição de 22 de julho de 2017, o Expresso recebeu de Gentil Martins a seguinte mensagem:

"Face à minha entrevista ao Jornal Expresso e dada a celeuma, que nunca desejaria tivesse acontecido, gostaria desde já esclarecer que me limitei a responder a perguntas directas dos entrevistadores do Expresso.

Quanto a Ronaldo não ser exemplo, referia-me exclusivamente à escolha por ”Barrigas de Aluguer”, permitidas por lei, mas das quais discordo totalmente, quer como Pediatra quer como Ser Humano. Isso nada tem a ver com os excepcionais méritos desportivos de Ronaldo, nem com a sua generosidade para com Instituições Sociais e crianças com dificuldades.

Por outro lado nunca foi minha intenção ofender a Mãe de Ronaldo, pessoa que não conheço pessoalmente.

Quanto à homossexualidade, lamento quem sofra com essa questão, que continuo a considerar anómala, sem no entanto deixar de respeitar os Seres Humanos que são.

Sempre ao dispor

António Gentil Martins"