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Comissário europeu sobre Pedrógão: “Não é um debate justo dizer que não tinham uma boa prontidão e prevenção”

TOBIAS SCHWARZ/GETTY

Em entrevista ao Expresso, Christos Stylianides, comissário responsável pelo Mecanismo Europeu de Proteção Civil, diz que a UE se mostrou solidária na tragédia de Pedrógão Grande. Defende que em termos de prevenção, há sempre melhorias a fazer, mas acredita na capacidade das autoridades portuguesas para lidar com os fogos florestais

"Tenho um profundo respeito pelos corajosos bombeiros portugueses", diz Christos Styalianides logo no início da entrevista ao Expresso. O Comissário com a pasta da ajuda humanitária e da gestão de crise recorda a deslocação a Lisboa, em fevereiro passado, para receber os 52 bombeiros portugueses que integraram a força especial da EU, enviada ao Chile para ajudar no combate aos incêndios.

"São verdadeiros heróis no terreno", defende, referindo-se também à atuação no caso de Pedrógrão Grande. "Demonstraram as suas capacidades a lidar com uma situação devastadora", diz, e deixa ainda elogios aos "muitos voluntários" que "arriscaram a vida" para ajudar a controlar a situação, "em particular na primeira fase do incêndio".

O Comissário cipriota lamenta ainda o elevado número de vítimas. 64 pessoas perderam a vida e mais de 150 ficaram feridas a 17 de junho, numa situação e condições sem precedentes. "Não há duvida de que estes fogos florestais - não apenas em Portugal, mas em toda a região do Mediterrâneo - são sem precedentes".

Questionado sobre o que falhou, o Comissário prefere não entrar no debate interno sobre os meios de comunicação e as causas. "O nosso papel enquanto Mecanismo de Proteção Civil da UE não é avaliar ninguém, mas encontrar meios para ajudar em situações de crise", diz, sustentando que "toda a avaliação" é da responsabilidade das autoridades portuguesas". Ao mesmo tempo acredita que estas "são muito conhecedoras" na área do combate aos incêndios.

"Não é um debate justo dizer que não tinham uma boa prontidão e prevenção", continua. A prevenção e atuação em situação de catástrofe continua a ser da competência de cada Estado-membro, mas Stylianides diz que, no conjunto, a UE ocupa um lugar cimeiro no que diz respeito a "prontidão e prevenção".

"Como sempre, há espaço para melhorar. Mas isso aplica-se a todos, a Portugal, à Alemanha, a Chipre, à Suécia ou Itália", admite e acrescenta: "sei que Portugal é um dos países mais eficientes, eficazes e disciplinados na prevenção e prontidão".

Já sobre a atuação do Mecanismo europeu de Proteção Civil, Christos Stylianides defende que funcionou e que "tudo foi feito para ajudar" Portugal desde o primeiro pedido de auxílio, na madrugada de 17 para 18 de junho. "A UE espondeu rapidamente, de forma substancial".

A União Europeia não tem meios próprios de combate a incêndios e catástrofes. O mecanismo assenta, por isso, na coordenação e agilização rápida - por vezes em menos de uma hora - de recursos postos à disposição pelos países participantes. A coordenação é feita através do centro de emergência situado em Bruxelas.

No caso de Pedrógão, a UE diz que todos os pedidos de Portugal tiveram resposta positiva. França, Espanha e Itália enviaram sete aeronaves de combate a incêndios. Grécia e Chipre também se disponibilizaram para enviar bombeiros, tal como Espanha. E foi do país vizinho que seguiram 135 homens.

"Este mecanismo é a manifestação tangível da solidariedade europeia no terreno", diz Stylianides, adiantando que desde o início houve coordenação com as autoridades portuguesas. Para Pedrógão, o centro de emergência da UE enviou também um oficial de ligação, para ajudar na coordenação de novos pedidos de ajuda.

"Claro que nos nossos contactos e encontros com as autoridades, podemos fazer uma análise destes desastres para melhorar as nossas capacidades de lidar com estas situações", diz, referindo-se à coordenação através do centro de emergência. No entanto, diz que ainda não chegou a hora. "Ainda é muito cedo para ter estas reuniões com as autoridades portuguesas", conclui.

Texto publicado na edição do Expresso Diário de 07/07/2017