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Como eram os jovens da Cova da Moura: Cabo Verde lá longe

Bairro da Cova da Moura (Buraca): metade dos moradores (maioritariamente africanos) tem menos de 20 anos

fernando peres rodrigues

Na semana em que a Cova da Moura está na mira das notícias, recuperamos uma reportagem que o Expresso fez naquele bairro, e que foi publicada no dia 13 de abril de 1991. Há já 26 anos

Frederico Carvalho (texto) e Fernando Peres Rodrigues (foto)

“O cabo-verdiano tem o corpo aqui, mas o espírito fica lá”, assegura um responsável associativo do bairro da Cova da Moura, na freguesia da Buraca, Amadora. “Sinto-me cabo-verdiano por causa da família, mas Cabo Verde parece-me uma história das nossas mães”, diz, por seu turno, um jovem já nascido em Portugal. Na Cova da Moura, onde a população de origem africana é maioritária, 49 por cento dos moradores têm menos de 20 anos. É a geração da dupla diferença: criada num ambiente familiar em que dominam ainda os costumes do além-mar, não se reconhece já nas memórias dos pais.

Aos domingos, os espaços ao ar livre enchem-se de grupos à conversa, o ambiente é temperado pela melodia do crioulo (“a única arma que se leva quando se sai da terra”). Famílias cozinham em frente das habitações, um barbeiro atende os seus patrícios no meio da rua, crianças jogam à bola com cães à mistura. As portas das casas estão abertas, o som das mornas e o cheiro da cachupa flutuam no ar. Numa esquina, vendem-se os produtos para a cozinha tradicional: coco, mandioca, milho, feijão, bananas, legumes, batatas.

Veem-se automóveis de matrícula francesa e holandesa, mas entrar na Cova da Moura é como dar um salto para Cabo Verde.

fernando peres rodrigues

Casas superlotadas

A sobreocupação das habitações e a flutuação dos aglomerados é característica da Cova da Moura, como de todos os bairros de cabo-verdianos. A custo se contém a tendência para aumentar as habitações:a “família alargada”, tradicional entre os cabo-verdianos, reclama sempre mais espaço para acolher um novo parente, próximo ou afastado, ou mesmo um amigo íntimo chegado a Portugal. A forte solidariedade que marca a comunidade resulta, sempre, em apoio de alojamento e alimentação para os patrícios recém-chegados.

Muitos dos mais velhos continuam a alimentar o sonho do regresso: “Somos saudosos, como todos os povos com sangue latino”. Há aqui um certo desencanto com a “terra prometida”, ligações que se mantêm com os familiares distantes, um sentimento de desenraizamento. A comunidade é a sua defesa. Orgulham-se das tradições; a roupa, a música, a culinária, os ritos religiosos servem-lhes para afirmar as raízes e manter acesa a esperança de retorno.

As celebrações da fé católica, largamente maioritária entre os cabo-verdianos, misturam-se com rituais próprios. A cerimónia do ‘fazer cristão’, uma semana depois do nascimento, continua a ser praticada, embora seja mal vista por parte da hierarquia católica. Sete dias de ‘esteira’ depois do funeral são, ainda, a garantia de que o espírito do ‘finado’ não se zangará. O recurso a ‘mestres’ e curandeiros continua a combinar-se com a ida aos hospitais e centros de atendimento permanente.

Neste ambiente cresce a segunda geração: “Não lhes falta em casa nem morna, nem coladera, nem cachupa, nem crioulo”.

Coladeras e ‘rap’

“O simples facto de começarem a bambolear-se ao ritmo da morna é já marca de cabo-verdiano”, diz, sobre os jovens, um responsável pela animação desportiva. Mas o facto é que nem só as mornas agitam o sangue da juventude, e os grupos que tocam coladeras são de adultos e velhos. Entre os adolescentes, ferve o ‘rap’ e o reggae. Para se divertir, a maioria dos jovens prefere sair do bairro, em grupos, rumo a discotecas de Lisboa ou da Amadora.

Nas tascas, os adultos jogam o indecifrável ‘uril’, em caixas com doze buracos, entre os quais trocam rapidamente pedrinhas e berlindes; mas na casa de jogos, um dos pontos de reunião preferidos pela juventude da Cova da Moura, o despique é em torno dos matraquilhos, do ‘snooker’ e dos jogos eletrónicos.

Lima, 17 anos, armador de fero na construção civil, até na forma sacudida de falar tem a marcado ‘rap’. Usa um elaborado corte de cabelo, a carapinha afiada em popa à frente e traçada por finos riscos rapados. As amigas, dengosas, enfiam as mãos pelo decote da sua camisola laranja berrante: “Gosto de damas, tanto pulas (brancas) como bumbas (negras)”, informa. “Respeito” é o que sente pelos mais velhos, mas exclui em absoluto o regresso a Cabo Verde, de onde veio aos quatro anos: “Nem penso nisso, aqui não sinto racismo.”

fernando peres rodrigues

“Não me quero integrar”

Apenas efeito do choque de culturas? Talvez algo mais. “A juventude em Cabo Verde não é muito diferente da de cá”, assegura Valdemar, de 19 anos, chegado em 1985 para estudar. Apesar de tudo, ao sair do bairro à noite, ele opta pelo grupo que faz o circuito das discotecas cabo-verdianas e africanas: “Entre um bom bacalhau e uma cachupa, preferimos a cachupa.”

Francisco, de 21 anos, nasceu em Portugal e é estudante do 3º ano de engenharia; no panorama de escolaridade do bairro, é um privilegiado. Sente-se português e é cá que imagina o seu futuro. Ainda assim, declara: “Não me quero integrar na sociedade portuguesa, no sentido de perder o meu lado bom cabo-verdiano” — algo que não consegue definir bem mas que associa à sociabilidade. É um dos que acompanha Valdemar no apego às raízes.

Acha que no seio da comunidade, além do choque de culturas, há um conflito de gerações. Para ele e para a sua geração, visiona o papel de “elo de ligação” entre africanos e europeus. “Em certos aspetos, pode estar a nascer uma cultura de gueto”, afirma. Real é a grande atração exercida, na juventude do bairro, por manifestações da cultura negra norte-americana.

Benfica, “o radical”

A desconfiança racial como manifestação de defesa da comunidade desagrada a Ulisses, 19 anos: “Há jovens que pressionam os que se dão muito com portugueses, dizem que se estão a armar em bons.” Voltar a Cabo Verde? “Talvez, se conseguisse uma boa posição...” O arquipélago confunde-se com a ideia de pobreza e atraso que lhes foi transmitida pelos pais.

José Benfica, 19 anos, é ‘rasta’ militante, de cabelo entrançado, brinco na orelha e ‘badge’ tricolor. Veio aos 10 anos da Praia, não se sente “nada ligado” a Cabo Verde e nem sequer gosta de cachupa. Não tem dúvidas sobre a existência do racismo: “A maneira como nos tratam se andamos com uma branca, como nos chamam pretos, as discriminações para arranjar emprego.” Para ele, ser ‘rasta’ é “um desafio à sociedade, uma maneira de afirmar a minha africanidade e a minha cor, de me sentir livre”. Alguns jovens da Cova da Moura chamam-lhe “radical”.