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André Jordan: “Não é chique ser bandido em Portugal”

josé carlos carvalho

Diz que este país é o único do mundo onde as amizades contam para fazer negócio. Ele preserva as suas mais do que tudo na vida. É o seu luxo. O seu segredo, esse, é o poço de histórias que tem para contar e que fascinaram sempre as pessoas. Chamam-lhe o pai do turismo português

Alexandra Carita

Alexandra Carita

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Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Nasceu há 83 anos em Lwöw, uma cidade polaca que hoje faz parte do território ucraniano. Aos 6 anos abandonou o país para fugir aos nazis na véspera da invasão das tropas alemãs, em setembro de 1939. Com os pais, a irmã de 1 ano, dois primos e um casal que trabalhava para a família, chegou à fronteira com a Roménia de carro. Seguiu para Bucareste de comboio, de lá viajou até Roma, passou por Paris e chegou a Portugal com visto para embarcar rumo aos Estados Unidos. Foi o pai quem primeiro se apaixonou por Lisboa e tomou a parte de Salazar. Chegou ao Brasil pouco depois. Mas com 14 anos já vivia com a mãe nos EUA. Regressou ao Rio de Janeiro com 17 anos e aos 27 já se encontrava em Buenos Aires. Londres esteve sempre na sua mira e por lá passou muitas vezes durante uma vida cheia que haveria de escolher o Algarve como sede de um empreendedorismo turístico, hoteleiro e imobiliário. O ramo que até hoje desenvolve em terras lusas, agora às portas de Lisboa, em Belas. André Jordan, para sempre o dono da Quinta do Lago, foi amante de muitas mulheres, senhor de eventos tantos, homem de negócios com altos e baixos, boémio exuberante, galã... Conheceu o mundo e a gente que do mundo fez parte. Da realeza inglesa aos homens do regime português, dos capitães de Abril aos condes e marqueses da alta aristocracia europeia ou às grandes personagens da sociedade nacional. Um poço de histórias com quem conversámos durante duas horas, entre o discurso profissional e a exposição íntima.

Já vendeu a Quinta do Lago em 1987, mas ainda hoje, quando se fala em si, as pessoas associam-no a ela. Porquê?
Não sei. Mas é verdade. Encontro pessoas na rua que me perguntam como é que está a Quinta do Lago ou se estou de passagem por Lisboa.

É o empresário que faz o lugar?
A Quinta do Lago, por razões que eu próprio não compreendo muito bem, foi uma fórmula de inspiração minha quase espontânea e que caiu no goto das pessoas do mundo inteiro. Surgiu de um projeto relativamente simples e modesto, sem muito dinheiro e sem ideia de ser o melhor do mundo. Eu não tinha intenção de comprar uma coisa grande, nem tinha meios para isso. Mas como o dono da propriedade, que era o Pinto Magalhães, o banqueiro do Porto, me deu condições de comprar o terreno, parti para um projeto maior do que tinha imaginado. É muito difícil fazer subir o nível de um projeto, mas ali aconteceu. Tinha uma conceção de harmonia social para os ricos. Não era para ser um lugar de ostentação. No início, os lotes tinham todos o mesmo tamanho, para que as casas não diferissem muito umas das outras, mas ao mesmo tempo cada um fazia a casa que queria. Agora há pessoas que compram quatro, cinco, seis lotes, derrubam as casas todas e constroem uma que custa 20 milhões! A Quinta do Lago, hoje, está muito longe da sua origem.

O que é que o atraiu naquele lugar?
Eu tinha ideia de fazer um country club. Havia passado algum tempo, ainda solteiro, em Punta del Este, no Uruguai. Aquilo era uma península com um lado de mar bravo e outra parte de mar manso... E tinha chalets, bungalows e tal. As pessoas andavam de camisolas, sweaters, pullovers, calças. Eram as pessoas mais ricas da Argentina e do Uruguai, mas estavam ali na maior simplicidade. Ia-se para a praia. Os bares eram diferentes todo o ano, com redes de pesca, fotografias de artistas e toca a andar.

Inspirou-se em Punta del Este?
Inspirei-me nessa simplicidade elegante e nesse ambiente sem concorrência, de que a minha casa é maior do que a tua e por aí fora. Lá se formavam os pequenos grupos da praia. O dono era o rei social dali, todos os dias convidava pessoas para almoçar na sua casa — o almoço era às cinco da tarde, íamos para a praia ao meio-dia, depois íamos a um bar tomar um drink. Lembro-me de que ficava toda a gente nervosa à espera de saber se tinha sido convidada ou não.

Aceita o título de pai do turismo português?
Aceito ter criado uma referência de qualidade. Também falo do portuguese style desde essa altura. O que me atraiu em Portugal foi isso, a simplicidade. O meu pai tinha tido aqui negócios, vim cá várias vezes e fiquei encantado com a simplicidade elegante e despretensiosa dos portugueses. Aceito também esse título na medida em que as pessoas mo atribuem. E fico muito honrado com ele. Fiz realmente um projeto que hoje é o número um no mundo. Há espaços e lugares mais luxuosos, mas não há nada que tenha o prestígio da Quinta do Lago.

Depois apaixonou-se por Vilamoura?
Passei para Vilamoura e fiz a reabilitação da Vilamoura antiga e o plano da Vilamoura XXI. Do ponto de vista profissional, foi um desafio até maior do que a Quinta do Lago, que era um terreno virgem, uma tela em branco. Em Vilamoura já existia muita coisa que era preciso respeitar. A reabilitação foi um enorme sucesso e conseguimos introduzir conceitos de qualidade que correram muito bem. Agora, claro, já passou pela crise, já mudou várias vezes de mãos. Depois vim para aqui, para Belas, fazer algumas coisas que aprendi com as experiências do Algarve, mas num contexto urbano.

Continua a ser esse conceito de qualidade que defende para o turismo?
Sim.

O que aconteceu em Portugal nos últimos anos?
O que aconteceu foi extremamente simples. Os operadores do Chiado, da Baixa de Lisboa e dos hotéis mais baratos descobriram que podiam recrutar clientela pela internet através do preço. O que fez acontecer esta invasão foi o preço. É verdade que continuamos a ser mais baratos, mas o grande atrativo são razões climáticas e culturais. As pessoas gostam é disso. Portanto, quando dizem que temos de desenvolver o turismo em todo o país e na época baixa, acho que é uma ilusão. Nessa altura está frio e as pessoas não vêm. É tão simples como isso. O único lugar em que a temporada baixa tem possibilidades é o Algarve. E Lisboa e Porto, por serem cidades que têm outros atrativos além do clima.

Há os atrativos culturais, também...
Sim. Mas eu diria que é muito importante preservar a personalidade portuguesa. Não temos grandes monumentos, nem grandes museus, nem grandes obras de arte nas nossas coleções. Mas temos boas coisas, como os Jerónimos, que têm um equilíbrio e uma escala humana muito interessantes, ou a Fundação Calouste Gulbenkian, que é uma peça importante dentro do contexto cultural português, ou ainda Serralves... Mas não é isto que conta fundamentalmente, o importante é o ambiente de vida, o estilo de vida.

Qual é o tipo de turismo que nos convém?
É o turismo de qualidade, porque somos competitivos nesse segmento. Ou seja, hoje, o preço médio por noite está abaixo dos 150 euros. Se chegarmos aos 300 euros, ainda ficamos pela metade ou mesmo por um terço do preço de um hotel do mesmo tipo em Londres ou em Paris ou em Nova Iorque. Somos de facto competitivos, e somos competitivos também na maneira de ser das pessoas. Por exemplo. Agora andam todos enlouquecidos com os chefes de cozinha, é uma espécie de maluquice obsessiva, mas não temos um restaurante com três estrelas Michelin. Há que ter noção da realidade. Temos meia dúzia de restaurantes de duas estrelas, quando Madrid tem 20 ou 30. Mas temos uma comida de que as pessoas gostam. E não devemos fugir muito da naturalidade da cozinha portuguesa. Sou a favor de que se façam coisas mais evoluídas do ponto de vista culinário, mas é preciso cuidado com isso, porque as pessoas gostam do peixe grelhado, e quanto mais sofisticado for o cliente mais simples ele quer que seja a oferta. Essa simplicidade elegante é um ativo fantástico. Até hoje não consegui convencer totalmente as pessoas do que se trata, mas é o ser-se natural.

E este turismo de massas?
Isso não faz mal a ninguém. Os portugueses queixam-se porque gostam imenso de se queixar.

Também se queixam do alojamento local. Têm razão?
Nesse capítulo é preciso haver regras. Chamar as partes e negociar um regulamento. Não poder entrar depois das oito da noite, etc., etc., etc. Talvez também pagar um bocadinho mais de condomínio. Quando eu pertencia ao conselho da Associação de Hotelaria de Portugal, o Fernando Medina apareceu lá para dizer que ia introduzir a taxa turística. Foi uma gritaria, ninguém queria aquilo, e o Medina, teimoso, deixou falar, falar, e quando chegou ao fim disse que ia mesmo introduzir a taxa turística, e criou-se depois uma comissão para decidir como aplicá-la e usá-la. Está a funcionar às mil maravilhas.

Onde investiria hoje?
No imobiliário turístico, onde sempre trabalhei. É uma componente muito básica do futuro. Cada vez mais, até em zonas urbanas, a combinação de hotelaria com habitação permanente, casa com serviço e segurança, é mais procurada. Esse é o caminho, e é o que procuro fazer aqui em Belas.

Caminho. No empreendimento Belas Clube de Campo aplicou muitas experiências testadas no Algarve

Caminho. No empreendimento Belas Clube de Campo aplicou muitas experiências testadas no Algarve

josé carlos carvalho

Tinha 6 anos em 1939 e, na véspera da invasão da Polónia pelas tropas alemãs, fugiu com a família e acabou por passar por Portugal a caminho do Brasil. Do que é que se recorda?
De muita coisa. Mas não sei em que medida me lembrava apenas de fragmentos que as histórias dos meus pais completaram. A família do meu pai era produtora de petróleo, com muito sucesso. Mudámo-nos para a cidade de Lwöw, hoje território ucraniano, porque antes morávamos junto aos poços de petróleo. Antes da invasão, que foi no dia 1 de setembro, os alemães andavam a sobrevoar as cidades para assustar as pessoas. Tocavam as sirenes da defesa antiaérea, e nós íamos para os porões, as caves dos prédios. Num desses dias, o meu pai tinha ido jantar fora, e eu, a minha mãe e a minha irmã, que ainda não tinha 1 ano, escondemo-nos na cave do nosso prédio. Lá encontrámos um senhor que disse que estava a chegar da fronteira com a Alemanha, no outro extremo da Polónia, e que tinha visto os tanques alemães alinhados para nos invadirem. Quando o meu pai chegou a casa, a minha mãe disse-lhe: “Vamos embora!” O meu pai não queria ir, protestou, mas a minha mãe insistiu: “Vamos embora amanhã!” E fomos. Ele levou dois carros, o motorista e outro chofer. Connosco veio um casal de primos que estava hospedado em nossa casa, porque os pais tinham saído para uma viagem na Europa, e outro casal, a secretária do meu pai e o marido.

Para onde fugiram?
Para a fronteira com a Roménia. No meio do caminho fomos parados por uma patrulha militar. Estavam a requisitar os automóveis privados para a defesa do país, imagine a ingenuidade! E o chofer disse para o meu pai: “Senhor coronel, este soldado quer ver os seus documentos.” Deixaram-nos seguir, pensando que o meu pai era coronel. Na fronteira estivemos um dia ou dois numa espécie de pousada e depois fomos para Bucareste de comboio. Passámos por Roma, onde a minha mãe conseguiu junto do embaixador americano o visto para entrar nos Estados Unidos, porque de outra maneira não entrávamos em Portugal, e viemos para Lisboa, de onde partimos de barco, o “Conte Grande”, para o Brasil. O meu pai era maçom, e eu suponho que a rapidez com que ele fez contactos e até negócios foi através da maçonaria.

Porquê o Brasil e não os EUA?
Uns amigos jornalistas do meu pai convenceram-no de que o Brasil era o país do futuro e que ele era jovem, tinha o visto americano e se não gostasse do Brasil podia sempre seguir para os Estados Unidos. No barco ia um príncipe polaco e a mulher, que era uma multimilionária francesa que herdara grandes propriedades em São Paulo. Fizeram amizade com os meus pais e vieram a criar vários empreendimentos juntos.

Como foi a sua integração no Brasil?
A pessoa tem de ter muito mau temperamento para não se integrar com facilidade no Brasil. O Brasil absorve e admite toda a gente. A cultura brasileira, a música, o desporto, o sentido de humor, o otimismo, a visão positiva da vida, a irresponsabilidade... Ninguém resiste a isso. E há o amor e o sexo. O sexo no Brasil é extremamente importante, se não for a coisa mais importante mesmo.

Teve muitos amores...
Graças a Deus. Tive muitos amores, acredito muito no amor e tenho a certeza de que é a grande força da vida. Posso dizer até que amo mulheres e homens no sentido não sexual. A amizade é uma forma de amor, é o preocupar-se com outra pessoa.

Quatro casamentos...
Exato, sendo que três das minhas mulheres continuam boas amigas minhas. O outro casamento foi a única relação que tive com alguém que foi má. A única pessoa má de todas aquelas com quem estive envolvido na vida. Muitas dessas minhas amigas passam por Lisboa e telefonam-me, mas não me querem ver. Não querem ser vistas, melhor dizendo. É o envelhecimento.

E em termos de educação, como foi a sua?
Estudei num colégio, o Ginásio Padre António Vieira, que foi fundado por uma senhora muito rica, casada com um nobre português. Ela montou esse colégio com um grande educador brasileiro e um engenheiro português da família Câmara, também da nobreza portuguesa, que tinha sido um monárquico que se exilara em África por causa da ditadura, antes de chegar ao Brasil. Era o D. Tomás da Câmara, um santo homem. Eu adorava-o, mas ele não conseguia impor a mínima disciplina. Com ele trabalhava o Décio, outro grande educador, a quem devo saber tão bem português. Estudei todos os escritores e poetas a partir de Camões. Era um colégio um pouco clubístico, digamos que não era de um grande rigor académico. Fiquei amigo de toda a gente para o resto da vida.

Mas a base da sua formação foi nos Estados Unidos, ou não?
Os EUA tiveram um outro efeito em mim a nível político e a nível profissional. Foi a era do New Deal, de Franklin Roosevelt, dos valores sociais-democráticos, da economia da livre empresa, mas da regulamentação, uma coisa que hoje está a ser ameaçada — já o Reagan e o Bush desregulamentaram a economia americana, e o mundo ia vindo abaixo, e agora o Trump quer fazer a mesma coisa. Esses valores ficaram sempre comigo. Nunca mudei de posição, acho que é a justa e a produtiva. Já no que respeita ao lado profissional, aprendi duas coisas. Uma, que não apliquei tão bem como devia, foi conhecer a concorrência, que nos EUA é implacável a todos os níveis. Ninguém é nosso amigo. Isso foi um choque para mim. A outra coisa que aprendi foi o planeamento. O grande segredo dos americanos é o planeamento. E nunca foi suficientemente bem compreendido no resto do mundo. Eles planeiam até ao último detalhe. Essa noção foi para mim de imensa valia.

Aplica-o no seu dia a dia?
Sempre. Em todos os eventos, e já fiz centenas, nunca tivemos, graças a Deus, um único incidente devido ao planeamento. Um planeamento qualquer idiota executa, costumo dizer, e é verdade. Essa é a força dos americanos.

Foram os Estados Unidos ou o Brasil que o formaram?
Foi tudo. Foi a minha origem polaca, foi a minha passagem por um intenso catolicismo...

Mas é judeu.
Somos judeus, mas fomos batizados. A minha mãe batizou-nos em 1938, antes de sairmos da Polónia. Ela tinha a ideia ingénua de que se fôssemos católicos de religião podíamos escapar ao Holocausto, o que, como ficou mais do que provado, não era verdade. Se tivesse um bisavô judeu, também ia para o forno.

Como olha para a religião?
Hoje não olho para a religião no seu sentido formal. Olho para valores. E esses são muito parecidos, católicos, judeus, a base é a mesma. Deus é um só. Não tenho nem nunca tive nenhum problema com isso. Quando fui para o colégio no Rio de Janeiro, aos 7, 8 anos de idade, era muito irrequieto e era expulso com frequência. Lá fora, sentava-me num banco, e um padre italiano, o padre Agostinho, conversava comigo. Depois, pela vida fora, tinha valores de correção, de honestidade, de lealdade um bocado sérios. E perguntava-me porquê. Os meus pais nunca tinham falado dessas coisas comigo, embora fossem pessoas muito dignas. E só há poucos anos, durante a madrugada — a hora egocêntrica, em que só penso em mim e nas minhas memórias —, descobri. Foi o padre Agostinho. Fez o seu trabalho. Nesse sentido, talvez seja católico, mas é absolutamente igual. Sou contra extremismos de qualquer espécie.

Delegou grande parte dos negócios no seu filho Gilberto. Continua a segui-los com interesse?
Muito, e continuo a intervir e a dar ao meu filho bastante apoio, apesar de ele ser o CEO do grupo. A crise colocou-nos numa situação muito complexa, à qual acresceram imensas dificuldades com o plano de urbanização aqui em Belas. Trabalho todos os dias.

Como é renascer do nada e tomar as rédeas de um negócio? Isso aconteceu-lhe mais do que uma vez.
Brinco sempre com a minha família a dizer que não nasci para ter sossego. É verdade, nunca tenho sossego, se não é um problema é outro. Muitas vezes pergunto-me se ainda estou em condições. Acho que sim. Vou contar-lhe um detalhe quase técnico. Quando relançámos Belas, descobrimos que, como a primeira fase já estava acabada há muitos anos, ninguém nos conhecia. Éramos desconhecidos cá dentro e lá fora. Fiz então um plano de promoção, e na semana passada saiu uma belíssima reportagem no “Finantial Times” sobre Lisboa que tinha um mapa onde estavam assinalados o Chiado, o Estoril, Cascais e o Belas Clube de Campo... Liguei para todos a dizer: “Estamos no mapa!” Para isso é preciso muito know-how.

É o marketing, a publicidade, o quê?
Faz parte do marketing. É contar uma história que interessa à outra parte. Agora claro que temos uma reputação, uma marca. Lá está a Quinta do Lago do início da nossa conversa. Felizmente, é assim. É preciso aproveitar.

Trunfo. André Jordan considera que é muito importante preservar a personalidade portuguesa. “Não temos grandes monumentos, nem grandes museus, nem grandes obras de arte nas nossas coleções”, justifica

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josé carlos carvalho

Na Quinta do Lago, e já que falamos de inícios, houve o problema do 25 de Abril. Teve de fugir?
Não fugi, mas saí de Portugal. Eu não era um simpatizante do regime, mas tinha herdado um contacto com o regime do meu pai, que fizera negócios aqui. Ele era um homem de direita, fortemente anticomunista.

Tinha mesmo uma ligação pessoal com Salazar?
Sim. E tinha contacto com um príncipe polaco que era casado com a irmã da Jackie Kennedy. Os dois fizeram um trabalho junto do Departamento de Estado para diminuir a pressão sobre Portugal em relação a África. Veio cá um dos secretários de Estado assistentes, numa viagem secreta, e, realmente, do ponto de vista formal, a pressão americana continuou, mas na prática foi aliviada. E o Salazar ficou muitíssimo reconhecido ao meu pai por causa disso. Quando ele morreu, o Salazar escreveu-me uma carta, que levou muito tempo a decifrar porque ele tinha uma letra absolutamente ilegível, e eu vim cá com a minha primeira mulher, a mãe dos meus dois filhos mais velhos, a princesa do Liechtenstein, e pedi para ser recebido por ele para lhe agradecer a carta pessoalmente. Então, ele mandou-me ir ao Forte do Estoril num sábado e tivemos uma conversa fascinante.

Conversaram sobre o quê?
No princípio, falámos do meu pai. O Salazar tinha uma espécie de atração pelos opostos. O meu pai era um bon vivant, um homem de amores, um homem de grandes gestos. E ele achava graça a isso. Fez vários comentários sobre essas características dele, que fascinavam as pessoas. Estava muito relaxado. Ele tinha muito carisma. Tinha uma voz feia. Mas percebi como é que seduzia as pessoas e as puxava para o seu lado. Acabei a entrevistá-lo como se fosse um jornalista. Perguntei-lhe várias coisas e lembro-me de ele me ter dito assim: “A Espanha deve-me a mim não ter entrado na guerra, porque eu disse ao general Franco que, se a Espanha entrar pelo lado do Eixo, Portugal entra pelo lado dos Aliados.”

Disse-lhe isso a si?
A mim! Estava a ouvir uma declaração que ele certamente nunca fez publicamente. A conversa foi toda assim. “O seu pai foi um grande amigo de Portugal, o senhor pode contar com o nosso apoio para tudo o que quiser fazer aqui...” Eu, um pouco por razões ideológicas e um pouco por razões práticas, decidi naquela altura que não viria para Portugal durante um regime que estava a morrer. Não quis ficar associado para o futuro por ter sido apadrinhado pelo fascismo. Não era conveniente. Também já não tinha ficado no Brasil no tempo da ditadura. É que, apesar de não ter atuação política, não me sentia confortável com não poder ter opinião e não poder dizer nada, porque me podia prejudicar nos negócios.

Veio em 1970.
O filho do Marcello Caetano, o arquiteto João Caetano, tinha trabalhado com o meu pai, quando o pai dele não estava no Governo. E ficámos muito amigos. Estava eu nessa altura em Buenos Aires, onde fiquei seis anos. O meu pai pediu-me informação sobre um arquiteto que pudesse vir trabalhar com o João Caetano, e eu indiquei-lhe um búlgaro que vivia no Brasil. Ele veio para cá, mas os dois desentenderam-se, e fui eu quem vim desfazer o desentendimento. Dei razão ao João, e ele ficou sempre muito reconhecido. Passado um tempo, já eu tinha deixado a Argentina e os EUA, estava em Paris, vi um anúncio num jornal. Era o concurso para a concessão do Casino de Vilamoura. Já havia decidido que queria voltar para Portugal, mas não sabia quando, nem como, nem nada. E telefonei ao João Caetano, que me chamou imediatamente, a dizer que eu era preciso cá. E vim. Estávamos em 1970.

E o 25 de Abril?
Mantive uma prudente distância do regime. A marquesa do Cadaval, uma italiana muito interessante, grande patrona da música clássica em Portugal naquela altura, ligou-me a dizer que ia trazer cá uma série de músicos e a perguntar-me se eu não queria fazer um evento no Algarve. Acabei a montar o primeiro festival internacional de música do Algarve. Estávamos na primavera de 1973. Foram seis concertos. E a marquesa disse-me: “Sabe que o Américo Tomás adora música, e não se faz nada na música em Portugal em que ele não esteja presente, de modo que temos de ir a Belém convidá-lo.” Lá fui eu, com pouco entusiasmo. Estava lá e, enquanto falávamos, entra o chefe de gabinete a anunciar a chegada do secretário de Estado Henry Kissinger, que ficou à espera que terminássemos a conversa para ser ouvido.

De qualquer maneira, acabou por sair de Portugal nessa altura e só regressou mais tarde, mesmo que tenha conquistado as boas graças de Otelo Saraiva de Carvalho...
Ele não estava do meu lado, mas passou para o meu lado. O Otelo tinha uma amizade com o Palma Inácio, um sujeito adorável, amigo de um amigo meu. No fundo, um social-democrata. Queria vender a social-democracia ao Otelo e pediu-me para falar com ele. Fui ter com ele e começámos a ter conversas. Estávamos prestes a inaugurar o campo de golfe e convidei-o. Quem eram os golfistas naquela altura? Era o clube de golfe do Estoril, a elite financeira. Convidei também gente da Europa e algumas princesas, que ficaram doidas com o Otelo, porque ele era o Fidel Castro, o revolucionário. Mas os outros, os banqueiros, recusaram falar com ele. Tentei explicar-lhes que era uma oportunidade de o atraírem e de conversarem, mas não, hostilizaram o homem. Estavam tão habituados a mandar...

Esse episódio acabou por jogar a seu favor no regresso a Portugal?
Houve pessoas que ficaram zangadas comigo dos dois lados.

Neste mundo dos negócios, os amigos contam muito?
Vou dar-lhe uma resposta dramática. O único país do mundo onde os amigos contam é Portugal. Os portugueses são muito boa gente, mas claro que também há lutas nos negócios.

E quais são os seus amigos?
Não tenho tantos amigos assim, porque o meu negócio nunca teve muitos sócios. Mas, por exemplo, o engenheiro Jardim Gonçalves é a quem eu devo a minha carreira em Portugal. Acreditou sempre em mim e apoiou-me sempre. Somos amigos pessoais desde que nos conhecemos, estava ele a começar a sua carreira bancária. Mas tenho amigos também fora do mundo dos negócios.

Mesmo depois de o engenheiro Jardim Gonçalves ter sido condenado continuou ao lado dele?
Sempre. Ele cometeu alguns erros, e todos cometemos erros. Mas não está ao nível de muitos outros.

Que são cada vez mais...
Sim, mas mesmo assim a honestidade ainda é um valor muito alto em Portugal. Não é chique ser bandido em Portugal. Noutras sociedades é. Basta ver o Trump, não preciso ir mais longe.

Como é o seu lado boémio, o lado das festas e dos banquetes?
Isso veio dos meus pais. Sempre vivi nesse ambiente. O meu pai vinha do interior da Polónia, de uma boa família judaica, mas não deixava de vir do interior da Polónia... Como é que ele sabia essas coisas todas? Sabia os protocolos, tudo. E isso era só um passatempo dele, não era a sua ocupação. A minha mãe também frequentava os meios mais requintados, mas era menos social e mais tradicional. Estava muito ligada às artes e a grandes artistas. Vivi muito nesse meio fascinante. Digo sempre que as pessoas são importantes porque são interessantes.

E é interessante viver nesse meio e conhecer assim tanta gente?
É interessante desde que não se faça disso a nossa vida.

Não fez disso a sua vida?
Nunca. Para mim, sempre foi como ir ao teatro ver o espetáculo ou mesmo participar no espetáculo. Todos esses jantares e festas ajudam, claro, mas nunca ninguém que participou nos meus eventos achou que estivesse a ser usado. Também colaborei muito com causas. Tenho dificuldade em resistir a uma causa.

Qual é o seu maior luxo?
A minha vida já é um luxo. Vivo com conforto, com qualidade. Mas o maior luxo, a coisa mais importante da minha vida são as amizades.

Foi sempre uma pessoa extrovertida?
Eu fui muito tímido. Fui um menino muito tímido. Quando voltei a primeira vez dos EUA para o Rio de Janeiro, com 17 anos, vivia com o meu pai no Copacabana Palace. Ele saía muito, e eu comecei a sair também. Fiz ali amizades incríveis nos bares. A piscina do Copacabana Palace era um centro da elite e de muita outra gente. Havia de tudo ali, desde um grupo de rapazes homossexuais profissionais até sei lá o quê... Mas era preciso ter uma certa presença, um certo comportamento. E eu, pelo facto de ser tímido, tive alguns momentos de humilhação. Foi então que decidi deixar de ser tímido. E deixei. Comecei a reagir.

Mas todos dizem que era um homem charmoso, bonito, de quem as mulheres gostavam...
Nunca tive essa autoconfiança. Em relação às mulheres, fui sempre muito humilde. Quando me encontrava na cama com uma daquelas mulheres, dizia: “Não é possível, isto é o máximo, como é que me aconteceu?!”

E onde vai passar estas férias?
Não faço férias. Vou para o Algarve alguns dias. Acho que a minha vida, apesar de trabalhar muito, é tão divertida e tão interessante que as férias não me fazem falta. Nunca fui turista.