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Funcionários da Agência Europeia do Medicamento escolheram mudar-se para Lisboa

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Presidente da Apifarma teve acesso a resultados de inquérito interno feito na semana passada aos elementos da Agência Europeia do Medicamento (EMA) e a capital portuguesa venceu nas preferências para mudar a sede em 2019. Técnicos portugueses dizem que a decisão política desta quinta-feira de concorrer com o Porto pode ter ditado a derrota

Portugal vai concorrer à sede da Agência Europeia do Medicamento (EMA) com a cidade do Porto mas a maioria dos quase 900 funcionários da EMA queriam ir para Lisboa. Um inquérito interno realizado na semana passada sobre as várias cidades candidatas a receberem o regulador europeu a partir de 2019, por força do “Brexit”, deu a vitória à capital portuguesa.

O resultado da sondagem interna na EMA é revelado pelo presidente da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma). “Na semana passada, foi feito um inquérito interno e Lisboa saiu largamente vencedora comparativamente com Milão, Copenhaga, Lille e outras cidades concorrentes”, afirma João Almeida Lopes. Ao Expresso, o gabinete de comunicação da EMA confirmou ter realizado “vários inquéritos para avaliar o ambiente entre o staff e perceber as suas expectativas face à mudança da agência” mas “os resultados não foram publicados nem comunicados aos Estados-membros”.

Os laboratórios foram desde o início a favor de Lisboa e a decisão tomada esta quinta-feira em conselho de ministros de avançar com o Porto empurrou-os para o silêncio. “A nossa posição em defesa de Lisboa era clara mas a partir do momento em que o Governo tomou uma decisão não fazemos mais comentários”, explica João Almeida Lopes.

A mesma opção por não comentar a escolha do executivo é feita pelo Infarmed. O regulador nacional do sector do medicamento sublinha que sendo “uma decisão política, não há comentários a fazer”. O distanciamento que agora está a ser adotado por vários responsáveis resulta da polémica que envolveu todo o processo. Os documentos técnicos defenderam Lisboa (como na primeira candidatura na década de 90 e que colocou a capital na lista final com Barcelona e Londres, que viria a ganhar), a candidatura foi aprovada em conselho de ministros e votada por unanimidade no parlamento mas o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, escreveu ao primeiro-ministro manifestando o interesse em incluir a cidade na candidatura e o Governo reabriu o processo, que esta quinta-feira terminou com a escolha do Porto e que para vários peritos pode ter ditado a derrota portuguesa.

“Estão todos nervosos”

“Ainda não sabemos se a agência vem para cá e já estão todos nervosos”, critica António Vaz Carneiro, diretor do Instituto de Medicina Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina de Lisboa. Profundo conhecer do trabalho da EMA, prefere o Porto por convicção, para contrariar o centralismo, mas garante que Lisboa estava mais bem preparada. “Gostava que fosse o Porto porque sou a favor da descentralização, mas não tem as mesmas hipóteses de Lisboa, que tem mais recursos e um número maior de pessoas capazes em todas as áreas.”

António Vaz Carneiro alerta que países como França ou Holanda “vão querer a EMA desesperadamente porque é de um prestígio enorme, traz pessoas muito competentes em duas áreas com muita importância - a saúde e o medicamento. Portanto, é uma corrida séria e com Lisboa teríamos mais hipóteses”. O consultor internacional é taxativo: “Lisboa tem muitos mais recursos por força do centralismo, o que dificulta o desenvolvimento mas que neste caso favorecia-a”.

João Goulão, que durante dois mandatos presidiu ao Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência — uma das duas agências europeias sedeadas em Portugal, ambas em Lisboa — , afirma que a capital portuguesa seria mais competitiva. “Tenho algumas dúvidas quando ao acesso de deslocação de outros Estados-membros ao Porto, pois às vezes já temos viagens complicadas mesmo para Lisboa. Parece ter havido uma grande pressão do autarca do Porto”, sublinha.

Cientistas habituados a frequentar Lisboa

Sobre o funcionamento de uma agência europeia em Lisboa, João Goulão, atual diretor do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, revela que os parceiros internacionais do Observatório “gostam muito e Lisboa é um destino que a comunidade científica nesta área se habituou a frequentar”. E dá um exemplo: “Em outubro vamos ter um congresso internacional e já temos 800 inscritos”.

Cardápio do Porto foi o melhor menu

“Valeu a pena levantar a voz.” Foi com esta frase que Rui Moreira anunciou, esta quinta-feira a escolha do Porto para representar Portugal na candidatura à sede da EMA, um campeonato que é o primeiro a reconhecer que não será fácil. Mas no dia em que a Invicta venceu o dérbi nacional, o presidente da Câmara do Porto optou por não repisar a falsa partida que deu a vitória de Lisboa por decreto, preferindo louvar o primeiro-ministro e o ministro da Saúde por terem sabido olhar para o argumentário do Porto e tomar a decisão certa. “Não é fácil voltar atrás numa decisão e reabrir um processo que parecia fechado”, lembrou Moreira, que referiu que agora o Porto precisa da diplomacia portuguesa para trazer para a região norte um extraordinário investimento para o país.

rui duarte silva

Rui Moreira não abriu o jogo em relação aos requisitos que determinaram a seleção do Porto, mas avançou que no recuo do Governo em relação a Lisboa tenha pesado a questão da dispersão geográfica, dado já existirem na capital duas agências europeias. “O nosso cardápio é o melhor menu”, resume assim o autarca as vantagens da cidade, atraente em qualidade de vida e preços competitivos a nível europeu.

Eurico Castro Alves, que liderou a candidatura musculada do Porto e integra a Comissão Nacional de Candidatura à EMA, não avançou ainda que edifício será apresentado em definitivo como candidato à sede da EMA, mas não tem dúvidas que opções não faltam para apresentar até 31 de julho, fim do prazo da apresentação de candidaturas junto da UE. “Não me preocupa, até porque Amesterdão nem apresenta edifício mas terrenos a construir.” O ex-presidente do Infarmed e ex-administrador da EMA lembrou que o dossiê de candidatura do Porto foi preparado em quatro ou cinco dias com a ajuda da autarquia através da Invest Porto, pressa que está convicto não fragilizou a candidatura da cidade, que “tem todas as potencialidades para acolher os cerca de 900 funcionários da agência, entre os quais 40 portugueses, e 600 crianças”. Para suprir eventuais falhas de recursos humanos, já que alguns funcionários da agência europeia não irão deixar Londres, Eurico Castro Alves revelou que já existem protocolos de pós-graduação especializadas na área do medicamento com duas faculdades de farmácia do Porto.

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Governo errou, mas soube corrigir, diz Pizarro

Manuel Pizarro, vereador socialista que levou a reunião de Executivo para candidatar o Porto já na fase de prolongamento, admitiu esta quinta-feira que o Governo errou ao colocar inicialmente de lado o Porto, mas nem por isso deixou de elogiar o PS. “É um enorme orgulho pertencer a um partido que soube admitir que os argumentos esgrimidos pelo Porto eram os mais certos e capazes para captar da sede da EMA”, afirmou. Apesar de reconhecer que a caminhada ainda vai a meio, o candidato socialista à Câmara do Porto está convicto de que a candidatura portuguesa tem bons argumentos para convencer a UE, lembrando que um dos critérios de escolha é o da coesão territorial. “Ao contrário de Lisboa, a região Norte continua a ter um rendimento per capita inferior ao da média europeia, fragilidade que neste caso é uma força.” Questionado sobre se a eleição do Porto foi uma vitória sua, Pizarro optou pela resposta politicamente correta: “Foi uma grande vitória do Porto, que revelou que em nada perde para Lisboa quando se une e coloca divergências de lado”.

Instigado sobre se esta era uma vitória de Manuel Pizarro, Rui Moreira afirmou ser tempo agora de falar numa campanha nacional e não numa campanha eleitoral. E a tecer louros preferiu evocar o candidato apoiado pelo PSD, Álvaro Almeida, o primeiro a defender a candidatura do Porto logo no dia a seguir à resolução do conselho de ministros da candidatura única de Lisboa, nos idos de abril.

O prazo para a entrega das candidaturas nacionais, no caso com a cidade do Porto, terminou esta quinta-feira e até dia 31 de julho o país terá de comunicar oficialmente a cidade candidata. O vencedor será conhecido em novembro, em Bruxelas. A EMA foi constituída em 1995 e vai sair do Reino Unido no início de 2019 devido ao “Brexit”.