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Mulheres sentem-se vulneráveis ao andar a pé em Lisboa

António Pedro Ferreira/Lusa

O problema chega ao ponto de levar muitas mulheres a preferirem não irem à rua à noite “para não terem a sensação de medo e de vulnerabilidade”, frisa a investigadora Adriana Souza, que está a recolher dados sobre o assunto

A investigadora brasileira Adriana Souza, que está a analisar a mobilidade a pé na perspetiva das mulheres em Lisboa e em Brasília, concluiu que os problemas nestas capitais são semelhantes, desde logo pela vulnerabilidade ao caminharem sozinhas.

Em declarações à agência Lusa, Adriana Souza referiu que as mulheres “têm dificuldade a caminhar na rua porque muitas vezes se sentem vulneráveis naquele espaço”.

“Não se sentem acolhidas, têm uma visão de que a cidade não lhes pertence”, precisou, falando à margem da conferência “A rua respeita a mulher?”, que decorreu nos Paços do Concelho de Lisboa.

A investigadora assinalou que “muitas [mulheres] preferem não ir à rua, não estar na rua, para não terem a sensação de medo e de vulnerabilidade”.

Quando o fazem, são, por vezes, alvo de piropos: “Os homens ainda se sentem no direito [de o fazer]. Para eles, não estão a fazer nada de mais, não entendem que isso é um desconforto e um constrangimento”.

Tendo por base os contactos que fez, notou também que “caminhar de dia é uma coisa e de noite é outra coisa completamente diferente”, no que toca à confiança sentida.

Também à noite, “as mulheres sentem uma certa insegurança e medo de usar o transporte púbico”, segundo a especialista em Mobilidade, acrescentando que as utilizadoras do sexo feminino “têm dificuldade de encontrar os melhores horários para circular e, por diversas vezes, deixam de fazer qualquer tipo de atividade cultural” por não terem como se deslocar.

Engenheira civil de formação, Adriana Souza está há três meses na capital portuguesa no âmbito do doutoramento em Transportes pela Universidade de Brasília e já entrou em contacto com várias mulheres para compreender esta realidade, depois de ter feito o mesmo no Brasil.

“Sempre quis fazer uma comparação com o meu país, que é um país em desenvolvimento, com um país mais desenvolvido e achei que seria viável fazer com Portugal porque além de ter a questão do idioma e da língua, a questão cultural também era parecida”, apontou.

Quanto às conclusões, sempre se questionou “se iria encontrar resultados diferentes do que encontrava no Brasil”, mas, de momento, “os resultados não são assim tão diferentes”.
“A questão do medo e da violência, do que as mulheres percebem no espaço público ao caminhar, ao usar o transporte público, o metro, o autocarro, é praticamente a mesma coisa”, enumerou.

Quanto a diferenças, considerou a rede de transporte público “mais eficiente” em Lisboa.

Para inverter os problemas, Adriana Souza sugeriu, desde logo, uma aposta na mobilidade suave: “O andar a pé e o andar de bicicleta porque uma cidade fica mais calma quando existem mais pessoas a passar”.

Outra medida elencada foi a requalificação do espaço público, para chamar “as pessoas de um modo geral para a rua”.

“E, por último, é sempre desconstruir uma questão social, que está sempre ligada a cultura do estereótipo, do sexismo”, adiantou.

Falando à Lusa, o vereador dos Direitos Sociais da Câmara de Lisboa, João Afonso, reconheceu a necessidade de promover a igualdade de género e aludiu a “medidas físicas” que estão a ser adotadas como a colocação de bancos individuais no espaço público, a instalação de paragens no mesmo local (em vez de estarem dispersas), a colocação de revestimento transparente nas paragens e ainda a eliminação de espaços apertados junto a estes locais.