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Tiago Oliveira: “Estamos presos na armadilha do combate”

nuno botelho

O engenheiro florestal Tiago Oliveira defende um comando único para a prevenção e combate aos incêndios — “o tripartido não funciona e é um sistema de ‘passa culpas’” — e aconselha o Estado a inverter o caminho que tem seguido: “Assim não vamos lá.”

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Desde os anos 70, metade do país ardeu e foi perdida superfície florestal. A que se deve esta realidade?
A perda de área arborizada está sobretudo associada aos incêndios, que se devem a não reconhecermos que para ter floresta é necessário gerir a vegetação. No Sul, onde há mais dias prováveis para haver incêndios, arde menos, porque se gere a vegetação e evita-se o fogo. Não ficam à espera do sistema, que está cativo na lógica de proteção civil. A Norte, esse aprisionamento perdura, a par com o colapso agrícola.

Como sair desta “prisão”?
É preciso reconhecer que estamos presos na armadilha do combate e que a prevenção é o melhor caminho. Continuando nesta armadilha, vai sempre escapar um fogo, e esse um vai queimar tudo de forma trágica, como aconteceu em Pedrógão. O combate não serve de bala de prata.

Porque é que a prevenção sempre foi o parente pobre?
Porque há resistências políticas, que se fundam no imediatismo do resultado. É muito mais vistoso para um político financiar um camião ou um helicóptero do que investir na prevenção, que no futuro pode evitar uma catástrofe mas que não será lembrada com o seu nome. Vivemos em ciclos de quatro anos e atacam-se as consequências e não as causas do problema.

Sucederam-se planos e estratégias de defesa da floresta contra incêndios, mas acabou tudo quase na mesma.
O sistema está montado nas tropas que combatem os incêndios e não está preocupado em governar o risco e o seu impacto. O problema é sistémico e exige uma relação mais madura da sociedade com os processos de longo prazo, o que será essencial no futuro, tendo em conta as alterações climáticas.

É um crítico da “reforma mais rápida de sempre da floresta”, anunciada pelo ministro da Agricultura?
Sim, desta e de todas as outras. Não basta ter leis sem os meios para as implementar e para os proprietários aderirem. Leis feitas a mata-cavalos para ter um sound bite não produzem resultados.

Fala num “colapso institucional” desde os anos 80. Pode concretizar?
Sim, deve-se a terem desmanchado os serviços florestais, a não terem tido energia nem recursos para chegarem ao proprietário privado, e à armadilha do combate. O Ministério da Agricultura descartou-se do problema desde os anos 80 e achou que tudo se resolveria com bombeiros e entregando aos municípios a execução de uma obra que não está supraplaneada. A floresta é como o mar, não a podemos dividir por 308 municípios. Ainda agora se viu, o incêndio começou em Pedrógão e chegou a Góis, passando por sete concelhos.

Quais as diferenças entre o que faz uma empresa de celulose e a maioria do país?
O sucesso das empresas de pasta de papel reside em estarem focadas em defender um ativo com conhecimento e eficiência na gestão do orçamento de que dispõem. Para isso, não compram um avião, que seria um custo, e apostam na gestão da vegetação como um investimento. Executam a obra no terreno 365 dias por ano e com uma única equipa, que aborda a prevenção e o combate.

Defende um comando único a nível nacional?
Sim. O comando tripartido não funciona e é um sistema de ‘passa culpas’. É essencial um comando único de base florestal focado na organização e execução da obra, que depois é acompanhado no combate aos incêndios por bombeiros e equipas mais profissionais. Pode ser criado emprego e pode colocar-se os bombeiros a fazer prevenção. Seria transformar um custo num investimento com trabalho no inverno e no verão.

Espera que a sua tese seja politicamente útil?
As ideias suportadas na tese já circulam. Por aqui não vamos bem e é preciso mudar.