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O sonho americano

Luis Barra

Mónica Lima é uma bailarina portuguesa em Nova Iorque. A sua vida pode parecer um sonho. Mas foi fruto de muito trabalho.

Luís Barra

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Fotojornalista

Vinte anos, 1m 65, olhos verdes que enfeitiçam e um cabelo vaporoso, próprio da beleza da juventude. Mónica Lima esbanja graciosidade quando nos encontramos no Chiado, a dois passos do sítio que foi a sua segunda casa durante 7 anos, o Conservatório Nacional de Dança. Mas muito antes, já dançava ballet - desde os 4, em Aveiro, quando a harmonia dos sons fazia parte da sua vida e Mónica adormecia ao som de música classica. Há três anos a viver na Big Apple, onde integra o New York Theatre Ballet, sente-se num processo contínuo de crescimento, um percurso natural de quem concentra 16 anos de dança no corpo.
Há poucos bailarinos portugueses em Nova Iorque. Esse é o lado mais duro da experiência: o individualismo, a solidão, o "voltar a casa depois de um dia difícil e não ter ninguém com quem desabafar". Mas é também um sítio que fervilha de oportunidades, perfeito para crescer, onde se dança "clássico e contemporâneo". Na "cidade que nunca dorme", Mónica já calçou as sapatilhas de ballet para dançar "Alice no País das Maravilhas" e "O Quebra-Nozes" - que deverá voltar a encarnar, nesta próxima "season".

Mónica Lima fotografada no Conservatório Nacional de Dança, numa vinda a Lisboa.

Mónica Lima fotografada no Conservatório Nacional de Dança, numa vinda a Lisboa.

Luis Barra

Olhando para trás, sente-se "a viver o sonho". Mas tem ainda muitos objetivos profissionais, embora saiba que "Nova Iorque é uma cidade de passagem". Ali, gosta da "mistura de culturas. Da independência. Da vida que tem a cidade. De fazer ioga e 'jogging' no Central Park". Vive em Brooklyn, do outro lado, e adora olhar para Manhattan, abraçando a cidade . Há 8 meses, começou a dar aulas de jazz e ballet a crianças de 7 anos, num estúdio de dança em Queens. Está a gostar muito da experiência, mas nunca como agora percebeu o cansaço de um professor. A nível profissional, já aprendeu muito - "a ser mais versátil, a estar preparada para entrar em cena a qualquer momento, substituindo um colega num papel que não é o seu". O objetivo é ser reconhecida pelo seu trabalho. "Ser uma artista completa, feliz e realizada".
Para Mónica, nunca houve vida sem dança. Em Aveiro, para onde a família se mudou tinha ela dois anos, entrou na Academia de Bailado Clássico, com quatro primaveras. "Todos os dias, saía da escola às 15h e ia para o estúdio, onde ficava até às 22h, a dançar. Fazia as aulas todas. Era um prazer", partilha. Aqui fez o primeiro solo - "A Bela Adormecida", com 10 anos. Mais tarde, foi protagonista do "Quebra-Nozes", de "O Corsário"...

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Quando a família se mudou de novo para Lisboa, a professora de ballet de Aveiro sugeriu que ela se candidatasse ao Conservatório Nacional. Havia uma vaga. E Mónica entrou. "O primeiro ano foi terrível. Era tímida, não fiz amigos facilmente, sentia-me menos desafiada em matéria de dança". Mas andou sempre entre as melhores do curso. No final, concorreu a uma bolsa de três anos no Joffrey Ballet Concert Group, em Nova Iorque, e ganhou. Começava assim uma nova etapa na sua escadaria profissional.

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Hoje como ontem, Mónica acredita que é a força de vontade que manda, que se impõe ao talento. Para ela, o sucesso define-se como "90% de trabalho, 9% de talento e 1% de sorte". "Sempre trabalhei muito", conta, assumindo-se como uma perfeccionista. O ano passado, uma lesão grave que fez no tornozelo obrigou-a a parar durante dois meses (e a questionar o que faria se não fosse dançar - não encontrou alternativa, diga-se). "Todos os dias, calçava as pontas pelo menos 5 minutos, para obrigar os pés a regressar à rotina". Apesar das dores.
A "limpeza dos passos", entre posições e piruetas de ballet, é neste momento o que considera mais desafiante. Como a "presença de palco", mais do que a técnica. Para Mónica, que aprende depressa e acredita ter "um bom salto", tudo o que se quiser consegue-se. O céu é o limite.

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