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La Lalanda: A vida dele dá um filme

Pertenceu a um partido de extrema-direita, foi patrão de José Sócrates e fez fortuna com a venda de plasma da Octapharma a hospitais de todo o mundo. Paulo Lalanda e Castro tinha uma vida de sonho: mulheres, casas de luxo, Ferraris e jantares nos restaurantes mais caros. É hoje arguido em três dos mais mediáticos casos de justiça em Portugal

Tiago Carrasco (texto), Sofia Miguel Rosa (infografia)

Em meados de 2012, dois ilustres patrícios coincidiam na capital francesa por diferentes motivos: o primeiro, Paulo Lalanda e Castro, administrador da poderosa farmacêutica suíça Octapharma, passava frequentemente pela cidade em negócios, enquanto o segundo, José Sócrates, estava em período sabático após seis anos como primeiro-ministro, estudando Teoria Política no Institut d’Études Politiques de Paris. Não se conheciam mas tinham em comum o gosto pelo luxo e por restaurantes sofisticados, como o Alain Ducasse, no hotel Plaza Athénée. Foi num desses templos da haute cuisine, por intermédio de um amigo mútuo, que se conheceram. E então perceberam que, além do estômago, tinham outros interesses compatíveis — Sócrates procurava um emprego e Lalanda e Castro um lobista para defender os interesses da Octapharma na América Latina, onde a reputação da companhia estava em queda desde que tinha sido alvo de investigação no processo ‘Máfia dos Vampiros’, devido à sobrefaturação de hemoderivados no serviço nacional de saúde brasileiro. Sócrates era a escolha perfeita: não só tinha construído enquanto governante laços muito fortes com políticos sul-americanos como era amigo pessoal do antigo presidente brasileiro Lula da Silva. Lalanda e Castro propôs-lhe emprego para aumentar as vendas de plasma e de hemoderivados naquele continente. Sócrates não aceitou prontamente. “Recordo-me de o engenheiro José Sócrates me fazer perguntas sobre o Paulo Castro. Queria saber quem ele era e como era. Calculo que nessa altura o Paulo já lhe tivesse feito a proposta de emprego”, conta o cirurgião Eduardo Barroso, amigo de Paulo Castro há 40 anos. “Só lhe disse coisas boas, claro. Que era um homem de confiança, bestial e generoso. Disse-lhe que quando tivesse de viajar, ia seguramente em primeira classe.”

Em janeiro de 2013, os emigrantes Paulo Castro e José Sócrates apareceram em Portugal, através da comunicação social, já aliados: o socialista ia passar a trabalhar para a Octapharma AG como presidente do Conselho Consultivo para a América Latina. O salário: 12.500 euros mensais. “Quando o Paulo me disse quanto ia pagar ao Sócrates, achei ridículo”, diz um amigo do gestor, que preferiu manter o anonimato. “Estava à espera que fosse meio milhão ou um milhão por ano.” Segundo a mesma fonte, o vencimento, um ponto-chave da investigação encetada pelo Ministério Público a Lalanda e a Sócrates no âmbito da Operação Marquês, não foi a primeira escolha do chefe da Octapharma. “A forma como o Paulo queria pagar dava muito mais dinheiro ao Sócrates. Mas ele quis assim”, diz. “Assim”, recorde-se, foi a celebração de um segundo contrato de valor idêntico — 12.500 euros/mês —, com a DynamicsPharma, uma empresa detida por Lalanda e Castro, hoje investigado como alegado canal de branqueamento de dinheiro oriundo de uma empresa do universo de Carlos Santos Silva. Para o Ministério Público, esta seria uma forma de o ex-primeiro-ministro ter acesso a dinheiro que recebeu através de subornos. “Que necessidade é que o Paulo tinha de pagar mais 140 mil euros por ano? Está tudo louco? Então, o Sócrates não quis aceitar meio milhão”, diz o mesmo amigo.

Processo. Lalanda e Castro e o seu advogado à saída do Tribunal após um interrogatório num processo em foi acusado de corrupção. O ex-presidente da Octapharma está envolvido em três dos casos mais mediáticos da justiça portuguesa e encontra-se na Suíça a preparar a sua defesa

Processo. Lalanda e Castro e o seu advogado à saída do Tribunal após um interrogatório num processo em foi acusado de corrupção. O ex-presidente da Octapharma está envolvido em três dos casos mais mediáticos da justiça portuguesa e encontra-se na Suíça a preparar a sua defesa

FOTO Cortesia Correio da Manhã

Os problemas com a justiça só apareceriam quase dois anos mais tarde. Para Lalanda e Castro, a quem Sócrates passou a chamar de “patrão”, a primeira consequência da contratação do ex-primeiro-ministro foi a exposição mediática. Até então, o seu nome era completamente desconhecido na esfera pública, o que lhe permitia usufruir da sua fortuna em recato: era só mais um ricaço com casa na Quinta Patino, um dos mais exclusivos condomínios do país, no Estoril, onde uma moradia chega a custar 6,5 milhões de euros, ao volante de um Ferrari ou a jogar golfe. Isso acabou com Sócrates — deixara de ser um milionário qualquer para ser o milionário que pagava a um ex-primeiro-ministro controverso. Insistentemente abordada pelos media, a Octapharma chegou mesmo a contratar um gestor de crise mediática após a publicação na capa do “Correio da Manhã” de uma foto de uma reunião entre Lalanda, Sócrates e Alexandre Padilha, ministro da Saúde do Brasil. Um dos presentes na primeira reunião não se esquece da primeira frase do especialista, que gelou a sala: “Isto é mais ou menos como contratar um dos Irmãos Metralha para guardar a porta do forte.”

Antes de o forte rebentar a parceria corria às mil maravilhas. A influência de Sócrates conferia à Octapharma novos contratos na América do Sul. “O Paulo Castro sempre me sublinhou que apreciava muito as qualidades do engenheiro Sócrates e foi por isso que o contratou”, diz Ricardo Sá Fernandes, o advogado de Lalanda e Castro no caso Marquês. “Pensou inicialmente nele para a América Latina, mas depois visou alargar as suas capacidades de atuação para outras áreas, como o Norte de África e Cuba. Via nele uma mais-valia para a Octapharma.” Sócrates, por seu lado, não escondia a satisfação pelo seu novo ofício. Numa escuta gravada pela Polícia Judiciária (PJ) durante a investigação já referida, descrevia assim a António Guterres as suas funções: “Agora trabalho para a Octapharma, tenho um emprego porreiro, os gajos tratam-me como a um ex-primeiro-ministro, o que já não é habitual neste país. Faço com eles umas viagens a São Paulo e à Colômbia, falo com uns políticos de lá... Só me pagam as viagens em primeira classe, exigem que fique em bons hotéis e preocupam-se com os restaurantes onde vou.” O atual secretário-geral das Nações Unidas comentou prontamente: “Arranjaste um tacho.”

A 21 de novembro de 2014, Sócrates foi detido no aeroporto de Lisboa, à chegada de Paris, e o nome de Lalanda e Castro mencionado na comunicação social como possível alvo de mandado de detenção, o que não se verificaria. Só em fevereiro de 2015, após ter sido ouvido pelas autoridades por requerimento do seu advogado, foi constituído arguido, ainda que deixado em liberdade com termo de identidade e residência. “O Paulo era um homem bem sucedido, fazia um trabalho notável. Mas ao contratar José Sócrates — e não estou com isso a criticar Sócrates — ficou na mira dos jornalistas portugueses. Começaram a perguntar quem era aquela pessoa. Passou a ter os holofotes em cima dele”, diz Eduardo Barroso. “Tudo aquilo que podia haver de polémico, apareceu.” Desde então, o percurso triunfante de Lalanda e Castro foi abalado por escândalos sucessivos. É arguido em três dos megaprocessos portugueses — além da Operação Marquês, também no caso dos Vistos Gold e da Máfia de Sangue —, sendo que no último foi sentenciado a prisão domiciliária, de que saiu passados dois meses mediante o pagamento de caução de um milhão de euros. Um percurso que começara há 59 anos, no centro do Porto.

Da extrema-direita à Octapharma

Nascido na freguesia de Santo Ildefonso, no coração do Porto, Joaquim Paulo Nogueira de Lalanda e Castro cresceu no seio de uma família de classe média: o pai, Joaquim, era inspetor da PJ e a mãe, Maria Helena, muito influente na sua educação, foi a primeira diretora da farmácia do Hospital de São João. Os medicamentos sempre fizeram parte do universo familiar. Também a irmã, Helena, viria a fazer carreira numa instituição médica — o INEM, onde chefiou o departamento de formação.

Os Lalanda e Castro viviam na zona das Antas. As férias de verão, essas, eram passadas na casa de praia da família, na Póvoa de Varzim, debaixo da guarda dos avós maternos. “O Paulo era muito ligado aos avós”, diz um familiar.

Na escola, era um aluno mediano que nunca canalizou os seus atributos sociais para uma vocação. “Ele tinha boas notas e cativava a atenção dos professores pela astúcia e prontidão nas respostas. Sempre teve um raciocínio rápido”, diz a mesma fonte. “Não mudou muito de perfil desde criança. Teve sempre um grande sentido de responsabilidade e muito gosto em relacionar-se com os outros”. Benfiquista fervoroso, o futebol foi o seu principal passatempo até que, na adolescência, a política irrompeu na sua vida. Tinha 16 anos quando se deu o 25 de Abril: cristão e conservador, tornou-se seguidor dos ideais de extrema-direita propagados pelo general Kaúlza de Arriaga, um dos mais duros comandantes militares na Guerra do Ultramar, que em 1977 lançou o Movimento Independente para a Reconstrução Nacional (MIRN), grupo que viveu na clandestinidade durante dois anos até se tornar um partido oficial em 1979. Lalanda e Castro era ajudante de campo. “Ele participou de forma muito ativa e apaixonada na luta política durante três anos”, diz fonte próxima.

O período de orientação nacionalista coincidiu com a entrada na universidade. Pressionado pela família, escolheu o curso de Medicina na Universidade do Porto: ficou com um dos 300 lugares disputados por mais de 3000 candidatos. Era perto de casa, dava para ir a pé para as aulas. Mas era a retórica e não a anatomia que lhe enchia as medidas. Nas RGA, envolveu-se em debates escaldantes com alunos de esquerda. Um deles, Luís Manuel Cunha Ribeiro — futuro diretor do serviço de Imuno-Hemoterapia e diretor clínico do Hospital de São João, futuro líder do INEM e da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo — viria a ter um papel fulcral na sua história. “Fizeram parte de um conselho pedagógico em que foram eleitos por linhas políticas adversárias e, mais tarde, o Cunha Ribeiro foi monitor do Paulo no curso”, diz um colega de ambos. Um amigo para toda a vida. Em dezembro de 2016, Lalanda e Castro seria detido em plena reunião da administração da Octapharma, em Heidelberg, na Alemanha, acusado de corromper um elemento de um júri num concurso público para a venda de plasma inativado aos hospitais portugueses. Esse elemento era Luís Cunha Ribeiro.

Com dois terços da licenciatura completados, desistiu de ser médico. Confessou as razões a um amigo: “Não é a minha vocação. Tenho curiosidade por outras culturas e quero fazer algo fora de Portugal.” A mãe ainda o tentou dissuadir, mas Paulo estava decidido a tentar outras vias. Com 19 anos, rumou a Lisboa, ainda inserido na estrutura política do MIRN. Mas isso não lhe pagava as contas e precisou de arranjar um emprego: concorreu a quatro das maiores companhias farmacêuticas e foi escolhido em todas. Optou por aquela que lhe pareceu ter um leque de produtos mais sofisticados — a Upjohn. Foi como jovem delegado de propaganda médica dessa empresa que travou contacto com os médicos que o inseriram no meio hospitalar lisboeta. “Fui das primeiras pessoas que ele conheceu cá”, diz Joaquim Barbosa, cirurgião vascular. “Ele era charmoso e carismático e conseguiu cativar toda a classe médica da altura para a droga que estava a vender.” Também Eduardo Barroso conheceu Lalanda e Castro nessa altura, enquanto jovem cirurgião no Hospital de São José: “Ele apresentou-se como ajudante de campo do general Kaúlza de Arriaga. Eu era de extrema-esquerda, do MES, mas não foi por isso que nos deixámos de relacionar”, diz. “Andava a vender uma droga nova, a clindamicina, que era para umas bactérias anaeróbias que andavam no intestino. Acabei por fazer um estudo com outros jovens médicos para comparar essa droga à que usávamos no hospital, a ampicilina, e provámos que a nova era muito mais eficaz na prevenção das infeções pós-operatório. Foi o ponto de partida para uma longa amizade”.

infografia sofia miguel rosa

Lalanda e Castro passou a ser o benjamim de um grupo de amigos formado por médicos — além de Barbosa e Barroso, também João Fortuna Campos e José Rebelo, chefe de Lalanda na Upjohn, se juntavam para jantares e noitadas de póquer. “Não metíamos muito dinheiro, até porque não o tínhamos. No máximo, uns dois ou três contos de réis por jogo”, conta Barroso. Todos eles sentiam estar perante um “génio da gestão”, que iria chegar longe em qualquer indústria em que se inserisse. Contudo, Lalanda continuava cismado em sair do país. Crescentemente atraído pela social-democracia, abandonou o MIRN e inscreveu-se num programa internacional para jovens empresários que o levaria a um estágio de dois anos no Japão. Entretanto, com 20 anos, o seu pai morreu e teve de abdicar do projeto para assistir a família. O acontecimento ditou que seguisse a carreira na indústria farmacêutica.

Ao longo da década de 80, teve uma trajetória ascendente em várias companhias: passou da Upjohn para delegado da American Cyanamid, depois chefe de exportação da Hovione e diretor-geral dos laboratórios Laquifa. Trabalhou em quase todas as áreas farmacêuticas, desde os genéricos aos produtos hospitalares. Os colegas descrevem-no nesta fase como “um homem obcecado pelo trabalho, extremamente ambicioso e imbatível como comercial”. “Enquanto chefe, acompanhava os funcionários quando eles tinham de se deslocar em trabalho no período natalício”, conta um deles. Já como diretor-geral da Lusitafarma, no fim dos anos 80, obteve os direitos de distribuição de mais de 40 empresas internacionais. Uma delas era uma ainda pequena empresa suíça, fundada em 1983, ligada ao plasma e a produtos derivados do sangue — a Octapharma. Lalanda e Castro começou a garantir mercado em Portugal para a empresa em 1988, tendo como primeiro interlocutor o belga Robert Taub, colaborador e posteriormente sócio do dono da firma, o alemão Wolfgang Marguerre. Segundo um diretor de uma farmacêutica concorrente, Lalanda e Marguerre ter-se-ão conhecido num congresso científico organizado em Seul, na Coreia do Sul, estabelecendo de imediato uma forte empatia.

Quando a multinacional alemã Merck comprou a farmacêutica portuguesa escolheu não ficar com a conta da Octapharma. Mas Marguerre queria estar representado em Lisboa e desafiou Lalanda a montar uma filial. Tanto os amigos como a família aconselharam-no a não trocar de emprego: “Ele já tinha a carreira lançada, tinha carro e cartão de crédito pagos pela empresa. Queria trocar isso tudo pelo zero. Eu fui dos que lhe disse que arriscar era um erro”, conta Eduardo Barroso. Mas Lalanda fê-lo. Em 1992, arrancou com a Octapharma Produtos Farmacêuticos Lda. Ao longo de 25 anos, não só fez de Portugal o primeiro mercado de exportação da empresa como construiu um monopólio no comércio e distribuição de plasma e de medicamentos hemoderivados: segundo uma investigação da TVI, ganhou 267 contratos com o Estado, no valor de 32 milhões de euros e vendeu cerca de 1,4 milhões de bolsas de plasma por aproximadamente 124 milhões de euros. O portuense ajudou também a Octapharma a assumir-se além-fronteiras: a firma suíça tem atualmente vendas brutas superiores a 1,5 mil milhões de euros.

O senhor do sangue

A orquestra da ópera de Berlim tinha acabado de tocar num jardim de Heidelberg quando Wolfgang Marguerre, patrão da Octapharma, violinista amador e ex-administrador de uma empresa de cosméticos, iniciou o discurso comemorativo do 25º aniversário do grupo. Corria o ano de 2008, a Octapharma tinha-se assumido como um dos gigantes mundiais no sector e Marguerre detinha uma das 20 maiores fortunas da Alemanha. “Ele anunciou que pensava retirar-se e que já tinha escolhido o seu sucessor natural. Devia haver umas dez pessoas com expectativas de ficar com o lugar. Mas ele disse que ia ser o português Paulo Castro”, conta um dos convidados (entretanto, a sucessão deve recair num dos seus dois filhos que ocupam lugares na administração, Frederic ou Tobias Marguerre). “Depois do discurso, foi com o Paulo para o jardim e estiveram em grande conversa. Apercebi-me de que o Paulo estava comovido.”

A confiança no português explica-se pelo seu desempenho empresarial estrondoso em negócios da Octapharma em mais de 60 países. Mas tudo começou num pequeno escritório na Rua Lagares de El-Rei, adjacente à Av. Estados Unidos da América, em Lisboa, onde pouco depois o gestor compraria uma das primeiras casas ‘inteligentes’ do país. Aí começou sozinho, até contar com mais de duas dezenas de funcionários no final dos anos 90. “A hegemonia da Octapharma deveu-se a dois fatores: a qualidade dos produtos da companhia e o extraordinário serviço pós-venda, que considero único no país e no mundo”, explica Lalanda e Castro, através de um dos seus advogados, Ricardo Sá Fernandes. “Procurei ainda ser inovador, ter equipas bem preparadas, dar lugar a mulheres na indústria e destacar a promoção científica em vez de abordagens meramente comerciais.” Amigos como Joaquim Barbosa sublinham que ele “revolucionou como ninguém a relação entre a indústria e o médico”. Há ainda quem aponte razões conjunturais para a impressionante escalada da Octapharma. Nos anos 90, Portugal viveu dois episódios traumáticos relacionados com contaminação de sangue: a administração de plasma contaminado importado da Áustria a doentes hemofílicos em Évora e o receio de propagação do prião de Creutzfeldt-Jakob (vulgo doença das vacas loucas). Perante isto, o método inovador de redução de agentes patogénicos no plasma para transfusão e em hemoderivados, comercializado pela Octapharma como Octaplas (designação técnica: “solvente/detergente”), foi tido como o mais seguro entre a maioria dos especialistas portugueses de imuno-hemoterapia. O Octaplas mantém o monopólio em Portugal há 26 anos.

Há, porém, quem encontre outras razões, menos virtuosas, para o sucesso da Octapharma. Diretores de farmacêuticas rivais e especialistas dissonantes não hesitam na hora de dar um nome à rede montada por Lalanda e Castro: máfia. “Começou a criar laços pessoais com médicos de todo o lado, oferecia viagens para os laboratórios da firma, na Suécia, cursos de formação. Depois os médicos ficavam em dívida. É este o jogo. Não foram criados contrapesos e ele tomou conta disto”, diz um diretor de serviço de um dos maiores hospitais do país, que optou pela ocultação da identidade por não se querer envolver no processo. As viagens pagas a médicos para congressos científicos, que, segundo alguns intervenientes, tinham pouco de ciência e mais de diversão, com voos e alojamento de primeira classe, eram um método usado pelas principais farmacêuticas, mas no campo do plasma a Octapharma oferecia mais e melhor do que a concorrência. A generosidade tornou-se modo de atuação: “Houve um acidente em Coimbra com um autocarro que transportava hemofílicos, o que é particularmente perigoso. Os sinistrados foram alojados num hotel da cidade. Quando lá cheguei, os delegados da Octapharma já lá estavam e tinham pago tudo. Ofereceram-se para me pagarem o quarto. Eu recusei. Mas é assim que operam”, relata o mesmo médico. Através do seu advogado, Lalanda e Castro refuta estas insinuações: “Procurei sempre que a empresa tivesse uma atuação parcimoniosa, sem tentar obter através de contactos com os médicos quaisquer vantagens estratégicas.”

As acusações não se resumem às viagens. O líder de uma farmacêutica rival, que não quis divulgar o nome com receio de represálias, alega que, num circuito muito fechado, Lalanda e Castro identificou os decisores e corrompeu-os. “Os concursos estavam completamente cozinhados”, denuncia. “Nas reuniões, os elementos da Octapharma eram colocados sempre à esquerda, para usufruírem da vantagem de serem os últimos a apresentarem proposta, depois de ouvirem todos os concorrentes. Numa ocasião, a organizadora do concurso, a jurista Edetilde Pinheiro, decidiu deixar as propostas, sigilosas, de um dia para o outro numa sala selada do Hospital Curry Cabral. No dia seguinte, os meus colaboradores disseram-me que tinham encontrado vestígios de que a sala tinha sido arrombada durante a noite e a proposta da Octapharma alterada em função das demais. Ganharam o concurso, claro.” Segundo o que o Expresso apurou, este incidente nunca foi reportado às autoridades.

A mesma fonte enumera os membros de júris controlados por Lalanda: “A Associação Portuguesa de Hemofilia [APH], muito poderosa, era toda dele, aliás, basta ver que uma das suas representantes está acusada de receber luvas. Toda a gente sabia também que a Edetilde Pinheiro decidia a favor da Octapharma. O Cunha Ribeiro, que tinha o conhecimento científico, digladiava-se pela Octapharma nas reuniões. Ao Manuel Campos, do Hospital de Santo António, até comprou uma casa no Brasil.” O Expresso procurou ouvir os todos os visados. A APH, que recebe da Octapharma dez vezes mais do que dos seus associados e o dobro dos restantes patrocinadores, disse que exceto Elsa Morgado, arguida no processo ‘Zero Negativo’ por suspeita de recetação de 300 mil euros por parte da Octapharma, mais ninguém conhecia Lalanda e Castro. As tentativas de contacto para Edetilde Pinheiro, diretora da Dez a Sete, uma empresa de consultoria e formação na área da saúde, não passaram da secretária. Luís Cunha Ribeiro nunca respondeu ao e-mail endereçado pelo jornal.

Já Manuel Campos, chefe de serviço de Hematologia Clínica no Hospital de Santo António, respondeu por correio eletrónico: “Tenho na realidade uma casa no Brasil que comprei com dinheiro fruto do meu trabalho e do trabalho da minha mulher. É absolutamente falso ter sido comprada através de qualquer empresa do Sr. Castro.” Dias antes, o mesmo médico tinha respondido assim ao pedido de opinião sobre Lalanda e Castro: “A minha primeira impressão sobre ele foi muito positiva: pessoa muito bem educada, simpático, inteligente e com um perfil altamente profissional”, escreveu. “O Sr. Paulo Castro tinha uma boa reputação entre os especialistas de imuno-hemoterapia hospitalar e administradores hospitalares e era algumas vezes invejado pelos seus concorrentes.”

O concorrente da Octapharma afirma que, no final dos anos 90, chegou a ter de recorrer a um guarda-costas por receio de represálias na delação de uma alegada fraude cometida no escritório de Lalanda e Castro. Em causa estava um certificado de comercialização falso, relativo a um medicamento para hemofílicos, apresentado em 1997 num concurso público no Irão. A falsidade do documento foi, à época, comprovada pelas autoridades alemãs ao semanário “O Independente”. Lalanda e Castro justificou o incidente com um lapso da sua secretária.

Por esta altura, o representante português da Octapharma já tinha um excelente nível de vida. Na garagem da empresa, alternava o Porsche com o Ferrari e o Aston Martin. “Como quase todos os funcionários tinham mota, decidiu-se a comprar uma. Mas durou pouco tempo. Não se habituou”, recorda um antigo colaborador da empresa. Mais tarde, quando a Octapharma se mudou para a Graça, deixava o Ferrari numa garagem para limpeza: “Gostava de ter tudo impecável, até o motor”, diz o Sr. Lima, proprietário do espaço. “Chegou a aparecer aqui com um Rolls-Royce que tinha pertencido à Sofia Loren.” Era um homem vaidoso: vestia fatos com riscas, gravatas com cores berrantes e usava cremes antienvelhecimento. “Se gostava de ostentar, fazia-o naturalmente. Não esticava o braço para mostrar o relógio novo nem se gabava de ter comprado determinados sapatos ou de ter jantado num restaurante especial. Podia ser extravagante, mas não era exibicionista”, comenta o mesmo funcionário, que trabalhou com ele quase dez anos.

Nunca olhou a poupanças à hora das refeições. Além do Alain Ducasse, em Paris, é cliente habitual do Gambrinus, em Lisboa, e do Céleste, do hotel Lanesborough Club&Spa, em Kensington, Londres, também frequentado por personalidades como José Mourinho e Roman Abramovich. Só come em restaurantes caros, de preferência premiados com estrelas Michelin, pede impreterivelmente uma garrafa de Barca Velha e faz questão de pagar a conta. “Costumo dizer-lhe na brincadeira que só é forreta com os charutos, porque eu gosto muito e ele só costuma levar um para o jantar”, diz Eduardo Barroso. “Numa festa de anos dele, havia uma senhora a distribuir charutos, daqueles bons, cubanos, e fiquei-lhe com uns 20 ou 30.” O cirurgião recorda um episódio em Zurique para exemplificar a obsessão de Lalanda e Castro pelos restaurantes de topo: “Fui com o meu filho ver o Zurique-Sporting e ele perguntou-me se podia assistir ao jogo connosco, apesar de ser benfiquista. Depois da partida, apetecia-me algo simples, um schnitzel com esparguete, mas o Paulo levou-nos a comer a um dos melhores e mais caros restaurantes do mundo. A seguir, fomos a um pub especial onde estavam umas mulheres deslumbrantes. Não há hipótese, o Paulo é assim.” Os amigos do gestor dizem que já o viram com muitas mulheres, todas arrasadoras. “Um homem é um homem e a sua circunstância”, costuma dizer-lhes. Lalanda e Castro foi casado duas vezes, tendo dois filhos, uma menina e um menino, da segunda união. “Tem uma excelente relação com os miúdos, apesar de não passar com eles o tempo que desejaria”, diz fonte próxima, que adianta ainda que foi a eles que Lalanda e Castro teve maior urgência em explicar os recentes escândalos jurídicos. “Pediu-lhes para não o julgarem até serem apurados os veredictos finais.”

Passou os últimos anos de aeroporto em aeroporto: com prazer, pois adora viajar. Costuma convidar os amigos para o acompanharem ao Carnaval do Rio, a que comparece sempre que possível. Muitas das pessoas da sua esfera privada são estrangeiras. Fala cinco idiomas e já visitou 160 países, a maioria dos quais em trabalho, não rejeitando situações de risco. “Teve sempre grandes discussões com as companhias de seguros por estas quererem limitar a sua mobilidade em países problemáticos. É destemido e nunca deixou de ir a lugares com conflitos e revoluções, como o Irão após a Revolução Islâmica”, diz um antigo colega.

No virar do milénio, a Octapharma arrebatou os primeiros concursos públicos do sector: o primeiro, em 1999, para a inativação do plasma, teve um valor base de 2 milhões de euros, enquanto o segundo, em 2000, para a compra de produtos hemoderivados, implicou 60 milhões. Segundo o regulamento, a validade da adjudicação do concurso dos derivados duraria até ao lançamento do concurso seguinte. Passaram-se 12 anos. Nesse período de tempo, os resultados de dois concursos internacionais organizados pelo Estado, em 2005 e 2008, que retiravam o monopólio à Octapharma, nunca chegaram a ser adjudicados pelos secretários de Estado responsáveis. De 2000 a 2012, a Octapharma continuou a vender ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) os seus produtos ao abrigo do concurso nº 2000/9. Algumas multinacionais concorrentes chegaram mesmo a atirar a toalha ao chão e a abandonar a luta por uma fatia de mercado em Portugal.

Mais exposto pelo envolvimento na Operação Marquês, Lalanda e Castro passou a ser alvo de um escrutínio rigoroso. Em 2015, uma investigação da TVI lançou suspeitas fundamentadas sobre eventuais favorecimentos à Octapharma que originaram a abertura de inquérito por parte do Ministério Público. Já antes, em 2013, a bastonária dos enfermeiros, Ana Rita Cavaco, tinha denunciado ao DIAP que Cunha Ribeiro, então dirigente da ARS de Lisboa, vivia num apartamento no Edifício Heron Castilho (onde José Sócrates também residira), propriedade da empresa Convida, de Lalanda e Castro. Tendo a ARS responsabilidades nos concursos de aquisição de medicamentos, a bastonária considerava incompatível que o seu dirigente máximo vivesse numa casa ligada a uma farmacêutica. O Expresso soube que a denúncia teve consequências complicadas na vida da bastonária: “Apanharam uma escuta entre seguranças da noite portuense em que um dos homens dizia que ela tinha de desaparecer do mapa. Teve de andar com muita precaução nas duas semanas seguintes, altura em que a PJ intercetou esse grupo de criminosos”, diz fonte próxima de Ana Rita Cavaco.

Estes acontecimentos chamaram a atenção das autoridades para as ligações entre os velhos amigos Cunha Ribeiro e Lalanda e Castro. Ao contrário dos debates universitários, não estão agora em diferentes lados da barricada mas na mesma trincheira de suspeitos. O foco centra-se no concurso de 2000, em que Cunha Ribeiro era um dos 14 membros do júri. As autoridades têm indícios de que o médico terá intercedido a favor da Octapharma em troca de privilégios concedidos por Lalanda e Castro, como a cedência do apartamento em Lisboa e a venda abaixo do preço de mercado de duas casas no Porto. “O júri era de 13 pessoas e o Cunha Ribeiro era o membro mais novo. Além disso, ele abandonou a relação com os hemoderivados no início da década de 2000. A minha amizade com ele não teve qualquer peso no resultado do concurso”, afirma Lalanda e Castro, através do seu representante legal. Tenha ou não a razão do seu lado, as acusações sucessivas já deixaram uma profunda ferida na vida do homem que controlou o negócio do sangue em Portugal.

Hemorragia difícil de estancar

Quando aceitou o convite de Marguerre para se mudar de Lisboa para Zurique, com o propósito de passar a chefiar o marketing da casa-mãe do grupo Octapharma, Lalanda e Castro passou do grupo dos muito ricos para o dos milionários: “Ele disse-me que tinha dinheiro para três ou quatro gerações”, diz um dos seus amigos íntimos. As teorias sobre a remuneração do empresário portuense diferem: há quem diga que chegou a acordo para ficar com 1% dos lucros globais da empresa e quem testemunhe que Marguerre lhe prometera um bónus milionário findos cinco anos de funções. Lalanda afirma que a sua remuneração assentava num regime de bonificações semelhante ao de outros quadros da administração da companhia.

De qualquer das formas, o dinheiro não é tudo, e a sua reputação sofreu duros golpes nos últimos anos. Meses depois de ter sido arrastado com Sócrates para o inquérito da Operação Marquês, foi constituído arguido na Operação Labirinto, que investiga esquemas de fraude relacionados com os vistos gold. Neste caso, em julgamento, foi mesmo acusado pelo Ministério Público e pronunciado pelo juiz Carlos Alexandre por dois crimes de tráfico de influência num episódio de facilitação de vistos para o tratamento de doentes líbios, feridos na guerra civil, em Portugal e por tentativa de evasão ao pagamento de IVA no mesmo negócio. Lalanda e Castro é suspeito de ter usado o seu amigo e sócio Jaime Gomes para exercer influência sobre o então ministro Miguel Macedo para o favorecimento das suas empresas.

Mas o pior estava para vir. Em dezembro de 2016, foi alvo de um mandado de captura internacional que o apanhou em plena reunião de administração da Octapharma, em Heidelberg, cidade natal de Marguerre e berço da empresa. Chamado a intervir em situação de emergência por o seu cliente se encontrar desprovido de advogado (Farinha Alves tinha sido também decretado arguido no processo dos ‘Zero Negativo”), Ricardo Sá Fernandes, seu representante exclusivo para o caso de Sócrates, viajou rapidamente para a Alemanha, onde Lalanda estava preso. “Encontrei-o bastante afetado psicologicamente por se encontrar naquela situação”, conta o advogado. “Porém, através de uma ação concertada com os advogados dele na Alemanha e na Suíça, conseguimos uma coisa raríssima, que foi anular o mandado de detenção e pôr o Paulo Castro em liberdade.” Sá Fernandes testemunha que, embora em dificuldades, Lalanda e Castro continua a ser merecedor de um enorme respeito e admiração por parte dos dirigentes da empresa e do meio em que está inserido, no cantão alemão da Suíça, “uma sociedade altamente competitiva, fechada e elitista”. Assim, mesmo já desvinculado da Octapharma, para quem trabalhou um quarto de século, chegou a Lisboa no dia 23 de dezembro num avião privado cedido por Wolfgang Marguerre, talvez como último tributo ao homem que ajudou a empresa a chegar aos píncaros do mercado mundial de plasma.

Após sair de prisão domiciliária, Lalanda e Castro voltou à Suíça, onde dedica o grosso do seu tempo a preparar a defesa nos três processos. Segundo um dos seus representantes legais, vai passar os próximos dez anos a lutar pela sua inocência: “Mas ele está motivado. É um combatente”, afirma. Está em Zurique, num apartamento que considera “modesto”, no bairro mais exclusivo da cidade, em que os seus carros desportivos estão proibidos de circular a mais de 30km/h. Os seus amigos de longa data tentaram telefonar-lhe, em vão. De Lalanda, nem sinal, por telefone ou por e-mail. “Gostava que me atendesse o telefone, mas calculo que não o faça por ter ordens para não falar com ninguém, para não implicar os amigos. Sou amigo do Paulo e preciso dele. Sempre foi um ótimo conselheiro”, diz Eduardo Barroso. Já Joaquim Barbosa diz nem querer saber das acusações que recaem sobre o amigo: “As amizades que acabam são as que nunca existiram.” Por outro lado, alguns dos diretores de farmacêuticas rivais congratulam-se pela ação das autoridades: “Por fim, temos esperança que alguma coisa mude neste sector e que todas as empresas estejam agora em pé de igualdade”, diz um deles. No entanto, a fidelização conquistada por Lalanda e Castro continua a dar dividendos à Octapharma. De acordo com o Infarmed, só entre 2009 e 2016, o SNS pagou à Octapharma mais de 250 milhões de euros. Em 2014, e apesar do aparecimento do Intercept, o plasma alternativo disponibilizado pelo Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), 81% das bolsas usadas no SNS ainda eram adquiridas à Octapharma.

Na opinião de uma experiente profissional do sector e membro do Colégio da Especialidade de Imuno-Hemoterapia, a investigação a Lalanda e Castro é apenas a ponta de um icebergue de corrupção que esmaga o SNS: “Lalanda e Castro tem gente acima dele que se vai encarregar de manter os negócios. Espero que depois disto investiguem os jogos de interesses por detrás do banco de células estaminais. Esta história está apenas no início.”