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Youtube: quando se morre literalmente pelas audiências

Pedro Ruiz III e Monalisa Perez eram namorados e estavam em busca de fama e dinheiro rápidos. Quase parece o início de uma música de John Mellencamp. Mas o “Jack” desta história não desafiou a “Diane” a fugir para a “cidade grande”. Não se deixaram atrair pelas luzes da cidade, mas foram encadeados pela luz do ecrã do computador e do telefone onde viviam os vídeos que faziam para o canal do Youtube que o jovem casal alimentava com a concretização de alguns desafios – comer pimenta, por exemplo. Para aumentar a popularidade do canal (e ganhar mais dinheiro inerente ao número de subscritores e de espetadores) decidiram arriscar. Como? Monalisa dava um tiro a Pedro que escudava a bala com um livro encostado ao peito. Algures na sua cabeça de jovens adultos (Pedro tinha 22 anos, Monalisa tem 19) isto só podia correr bem. Mas não correu. Pedro demorou “dias” (segundo o que foi declarado à polícia) a convencer Monalisa a disparar a arma. Ela acedeu. Ele foi baleado e morreu. Monalisa está agora acusada de homicídio involuntário e pode incorrer numa pena de 10 anos de prisão efetiva.

Estas são as vítimas mais recentes daquilo que se pode definir como uma “febre do viral”. Um fenómeno que tem atraído milhares para a Internet em busca de dinheiro e fama. Uma tarefa que é cada mais difícil.

Viral: essa ciência desconhecida

Em declarações à WDAY, a tia de Ruiz disse ter tentado demover o sobrinho da proeza, mas que este lhe respondeu: “Queremos mais visitantes, nós queremos ficar famosos.” Mesmo tirando o dramatismo próprio de uma reportagem de TV feita, em determinados locais e por alguns meios, nos Estados Unidos, é fácil perceber que o jovem casal queria concretizar este desafio com a intenção de que ele se tornasse viral. Aliás, em busca da total amplificação da proeza, Monalisa publicou no Twitter um teaser.

É verdade que no século XXI só é preciso ter acesso rápido à Internet e um smartphone no bolso para poder estar, potencialmente, em contacto com o mundo todo. Mas, aqui, o “potencialmente” é a palavra-chave. Não existe uma fórmula exata para produzir conteúdos “virais” - aqueles que têm a capacidade de atrair audiências e tirar da obscuridade digital um qualquer canal do Youtube, um blogue ou, por exemplo, uma página numa rede social.

Não existindo a tal “fórmula secreta”, os novatos nestas andanças seguem a estratégia mais evidente: imitam as estrelas do Youtube. Umas vezes as coisas correm bem. Noutras, NEM POR ISSO.

Com mais de 400 horas de vídeo a serem carregadas para o Youtube a cada minuto (os números são da empresa Statista e referem-se a 2015), é fácil perceber que Pedro Ruiz III não será a última vítima mortal destas imbecilidades feitas em busca da fama imediata.

Como realça o New York Times, os vídeos do canal de Youtube deste casal de namorados tinham apenas algumas centenas de visualizações (raros eram os que quebravam a barreira do milhar). Depois da morte de Perez, as audiências dispararam. O mais recente já tem quase 1,5 milhões de visualizações.

Sim, num “oceano digital” poluído de ruído, é cada vez mais difícil fazer-se notado. Ir a extremos parece ser a solução mais fácil. Mas o preço a pagar pode ser derradeiro e os autores não vão aproveitar os espólios do seu sucesso. E, mais triste, também este estrelato é efémero. Convido-o a voltar um pouco atrás neste texto e a ler os comentários que estão na publicação que Monalisa fez no Twitter. A turba exige o vídeo. Quer ver a morte em direto. Satisfeita a morbidez, vão avançar vorazes para o próximo vídeo. Em busca de algo que seja ainda mais dramático. Pelo meio, vão sorrir a ver gatos a entrar em caixas, bebés a rir e pessoas a engasgarem-se a tentar comer uma colher de canela.

Nada de especial, é só mais um dia de Youtube. Amanhã há outro. E já ninguém, a não ser os jornalistas, vai recordar-se do tipo que convenceu a namorada a dar-lhe um tiro porque uma enciclopédia colocada junto ao peito seria um excelente colete à prova de balas.