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Quando o jornalismo morre

foto CATARINA LARCHer

Como uma democracia da União Europeia está a eliminar a liberdade de imprensa e a converter as redações em máquinas de propaganda

micael pereira (texto) CATARINA LARCHER (fotos), em BUDAPESTE

Na última vez que tinha estado em Budapeste, em 2006, a Hungria fazia parte da União Europeia havia pouco tempo. Nevava sobre as colinas do lado oriental do Danúbio, a parte Buda da cidade, com os seus palácios e jardins, e os húngaros, apesar de terem acabado de entrar numa nova Europa, pareceram-me pessimistas, temperamentais e um pouco perdidos sobre o seu desígnio nacional. Entretanto, Viktor Orbán, que já tinha sido primeiro-ministro entre 1998 e 2002, voltou de vez ao poder, puxando pelo orgulho nacionalista dos eleitores, e Budapeste tornou-se um fervilhante mundo de contradições e crispações, onde os limites ideológicos da União Europeia passaram a estar em jogo, num laboratório político que tem vindo a testar o conceito do que pode ser ou não uma democracia. Com uma política explícita contra o acolhimento de refugiados vindos do Afeganistão e da Síria, a Hungria tem sido uma fonte de notícias polémicas. Mas foi só depois de conhecer András Petho, um jornalista húngaro dos seus 40 e poucos anos que esteve envolvido na investigação dos “Panama Papers”, e de ter encalhado numa longa reportagem escrita por ele que pensei em voltar lá. Era uma história sobre o maior jornal diário da Hungria.

András Petho não trabalha numa redação típica. Quando o fui visitar, num prédio de habitação perto da margem direita do Danúbio, na parte Peste da cidade, mais populosa e cosmopolita, só foi possível encontrar a porta do “Direkt36” com a ajuda de uma vizinha amável o suficiente para abandonar por um momento as suas crianças e os seus afazeres na cozinha. O escritório fica num canto de um primeiro piso labiríntico e não tem nenhuma placa junto à campainha. O meu amigo veio à porta com os seus grandes e meigos olhos azuis. A redação é um apartamento de duas assoalhadas quase despido de móveis. No centro da sala, onde várias secretárias formam um hexágono, dois jornalistas conversavam com os seus laptops iluminados, e András convidou-me a entrar num gabinete mais pequeno, onde trabalha debaixo de um poster do filme que conta a história da equipa de investigação do jornal “Boston Globe”, o “Spotlight”.

O “Direkt36” é uma versão húngara do “Spotlight”. Tem a mesma dimensão, seis jornalistas, e invariavelmente dedica-se a histórias muito difíceis sobre corrupção e desvio de dinheiros públicos. Mas, ao contrário dos colegas americanos, a equipa não faz parte de nenhum grande jornal. Há razões sérias para isso ser assim. Quando András Petho decidiu abandonar em 2013 o “Origo”, um dos maiores portais húngaros de notícias, onde era diretor-adjunto, para fundar o seu “Spotlight” com outros colegas da redação, o panorama da imprensa estava a meio de um processo de mudança. Uma mudança para pior.

Além da crise generalizada e transversal à indústria dos media no mundo inteiro, com a falência dos velhos modelos de negócio assentes na venda de publicidade e a fragmentação das audiências estimulada pela internet, o cenário tornou-se ainda mais complicado na Hungria a seguir à vitória de Viktor Órban nas eleições legislativas de 2010. Após oito anos afastado do poder, o seu partido, o conservador e nacionalista Fidesz, pareceu ter aprendido uma lição sobre a influência que os media têm na política e de como podem ajudar a perder ou a ganhar o voto popular. Logo nos primeiros meses de maioria no Parlamento, Orbán fez aprovar leis que levaram à criação de duas novas entidades, a Autoridade Nacional para os Media e as Infocomunicações e o Conselho de Media, com poderes reforçados de regulação sobre as empresas de comunicação social, incluindo um veto discricionário sobre fusões e aquisições, e com todos os seus membros nomeados pelo próprio Fidesz. As regras podiam ser resumidas numa frase: os amigos do partido são para proteger, os outros são para abater.

O motivo da saída de András Petho do “Origo” teve a ver com esse pano de fundo. “Comecei a fazer uma história sobre as despesas das viagens do chefe de gabinete do primeiro-ministro, e quando publicámos as primeiras peças sobre esse assunto a administração pediu para as tirar do site. Estavam a ser pressionados. O meu diretor acabou por ser afastado quando eu me encontrava de viagem a Bruxelas, e eu achei que não havia condições para continuar.”

Nessa altura, o maior jornal da Hungria, o “Népszabadság”, muito crítico do governo, estava a vender 46 mil exemplares por dia, numa espiral de quebras sucessivas, quando apenas dez anos antes vendia quatro vezes mais. Caíra numa posição de fragilidade. No início de 2014, a compra do título por um multimilionário austríaco, Heinrich Pecina, habituado a investir em negócios nos países da Europa Central e sem ligações anteriores à indústria de media, foi visto internamente como um acontecimento promissor dentro das circunstâncias e apesar das reticências iniciais com a nomeação para diretor de Marcell Murányi, que até aí tinha estado à frente do maior tabloide nacional, o “Blikk”. Ia haver dinheiro para investir e, talvez mais importante do que isso, o novo dono era alguém de fora, sem amarras ao poder político.

András indicou-me alguns nomes com quem eu devia falar para conhecer a história contada por alguém que a tinha vivido por dentro. Fui ter com Marton Gergely, um jornalista de 40 anos que foi nomeado diretor-adjunto do “Népszabadság” precisamente em 2014, com a entrada do multimilionário austríaco como dono do jornal. Marton mostrou-se disponível para se encontrar comigo na manhã seguinte na cafetaria da redação da newsmagazine onde trabalha agora como editor de política, a “HVG”. O refeitório do piso térreo, num edifício moderno numa rua recatada de Buda, estava vazio àquela hora.

Em frente a uma chávena de café, Marton contou-me como a direção do “Népszabadság” nomeada em 2014 se empenhou em compensar a queda nas vendas em papel com uma aposta forte na sua edição online, que até aí tinha sido bastante negligenciada. A subida a diretor-adjunto de Marton, até aí editor-executivo da edição online, tinha a ver com essa opção. “Foram contratados jornalistas com currículo e nome e reforçámos o nosso foco na investigação de casos de corrupção. Sentia-se que a redação tinha ganho um novo fôlego. Andávamos entusiasmados. No início de 2016 tínhamos alcançado uma média de 150 mil leitores online, e isso fez-nos acreditar que estávamos no bom caminho. Apesar dos prejuízos nos anos anteriores, em grande parte por causa de más opções de gestão e por sobrecarregarem as contas do jornal com investimentos relacionados com outros títulos do grupo, tínhamos começado a ter lucro de novo, ainda que modesto.”

Queda. Os jornais na Hungria têm vindo a sofrer grandes quebras de vendas, tornando-se vulneráveis a serem comprados por grupos que podem ter ligações obscuras ao governo. Foi o que aconteceu com o maior diário do país

Queda. Os jornais na Hungria têm vindo a sofrer grandes quebras de vendas, tornando-se vulneráveis a serem comprados por grupos que podem ter ligações obscuras ao governo. Foi o que aconteceu com o maior diário do país

CATARINA LARCHER 


O ímpeto do “Népszabadság” parecia imparável no verão do ano passado, com duas figuras próximas de Viktor Orbán cada vez mais debaixo de fogo. Em agosto, o jornal expunha o modo como o número três do governo, o ministro da Propaganda, Antal Rogán, mantinha aparentemente em segredo — através de um complicado esquema envolvendo uma dúzia de holdings no Chipre e em Malta — o controlo sobre uma empresa de auditoria, a Hunguard Kft., contratada pelo Estado para fiscalizar se as companhias prestadoras de serviços públicos, incluindo as de eletricidade e de água, estariam a cobrar corretamente esses serviços aos consumidores. O conflito de interesses era evidente.

Em setembro, o jornal tropeçava noutra história que inicialmente surgira apenas nos tabloides, sobre a amante de György Matolcsy, o governador do banco central da Hungria, o MNB. O “Népszabadság” descobrira que Zita Vajda, a mulher em causa, não só recebia um ordenado anormalmente alto para os padrões nacionais, de 5600 euros por mês (o salário mínimo era à época de 350 euros), como secretária do governador, como tinha sido nomeada administradora de duas fundações criadas pelo MNB, beneficiando de remunerações extra. Como se não bastasse, uma empresa da mãe dela fora contratada para fazer a contabilidade de todas as seis fundações do banco central. Depois da relação extramatrimonial ter começado a ser notícia na imprensa cor de rosa, a amante do governador fora dispensada do seu emprego de secretária, mas passara a desempenhar mais dois novos cargos em entidades da esfera do banco central, acumulando 7400 euros por mês em salários. Uma das suas novas funções era de investigadora num instituto, o PAGEO, quando, de acordo com o jornal, a única formação de Zita Vajda era como professora de ioga, adquirida numa viagem de dois meses à Índia.

A cobertura sobre o caso do governador foi tão intensa que chegou a incluir uma análise à forma como Matolcsy estava obcecado por crenças budistas e de como se teria deixado influenciar, na gestão do banco central, pela superstição de que os efeitos de decisões tomadas em determinados dias do ano podiam ser multiplicados por dez milhões.

A 7 de outubro, novas revelações sobre o enredo da amante e do governador, bem como sobre o ministro da Propaganda e o facto de ele ter usado um helicóptero para ir a um casamento com a mulher e a família, precipitaram um acontecimento inesperado. Na manhã seguinte, um sábado, quando Marton Gergely e os colegas chegaram ao edifício da Mediaworks, o grupo proprietário do jornal, para mais um dia de trabalho, não os deixaram entrar. O “Népszabadság” tinha sido encerrado de surpresa durante a noite, sem qualquer pré-aviso à redação — ou sequer ao seu diretor. Além de os jornalistas terem sido barrados de entrarem nas instalações, o site foi bloqueado, passando a impedir o acesso dos leitores ao arquivo de todos os artigos publicados.

“Havia rumores nos últimos meses sobre uma possível venda do jornal, mas não estávamos à espera desse desfecho abrupto”, disse-me Marton durante o nosso café. “Era o maior ativo do grupo, uma marca âncora, tinha influência e havia investidores interessados em comprar o jornal. Claro que, olhando para trás, percebemos que as coisas estavam já a ser planeadas há algum tempo e que as histórias sobre a amante do governador e do helicóptero foram apenas um último empurrão para terem decidido: ‘Vamos fechá-lo.”

O encerramento intempestivo do “Népszabadság”, um título que pode ser traduzido à letra como “o jornal das pessoas livres” e que, após ter sido lançado em 1956 pelo Partido Comunista Húngaro, foi ganhando um estatuto de independência ao longo dos anos 90, provocou uma onda de reações dentro e fora de fronteiras. Na internet, os alvos não eram só o governo de Viktor Orbán. Numa nota do Facebook, uma especialista húngara em media, Mária Vásárhely, agradecia à União Europeia pelo seu contributo. “Sem vocês, a Hungria não estava onde está agora. Não interessa o quão doloroso é ter de dizer isto, mas a destruição do ‘Népszabadság’, um dos últimos bastiões da liberdade de imprensa, foi comprada com o volume imenso de dinheiro que vocês canalizaram para o país e que é usado por oligarcas criminosos de um Estado criminoso.”

Na longa reportagem publicada por András Petho no “Direkt36” sobre o jornal, e para a qual foram entrevistadas mais de 30 pessoas, uma complexa intriga montada nos bastidores acabou por ser exposta. Afinal, o multimilionário austríaco que adquirira o “Népszabadság” não era assim tão imune aos jogos políticos locais. Heinrich Pecina comprara o grupo detentor do jornal à Ringier, um grupo suíço de media, quando este se fundiu com o grupo Alex Springer e foi obrigado a vender parte dos seus títulos na Hungria com o argumento oficial dado pela Autoridade Nacional para os Media de que se estaria a evitar a concentração excessiva de órgãos de comunicação social detidos pelos mesmos acionistas. Esse argumento, no entanto, não foi usado quando no verão de 2016 a Mediaworks conseguiu autorização para comprar quatro jornais locais, juntando-os ao portefólio de imprensa regional que já detinha. Com o negócio, o grupo passou a ter 12 dos 18 jornais regionais na Hungria, com 250 mil exemplares vendidos diariamente, mais do que todos os jornais nacionais juntos.

Havia outros sinais. Alguns jornalistas da redação andavam a receber instruções do diretor para terem cuidado quando escrevessem sobre János Lázár, o chefe de gabinete do primeiro-ministro. Lázár era amigo de Zoltán Spéder, CEO da Mediaworks e antigo parceiro de negócios do dono do grupo, Heinrich Pecina, num banco, o FHB, com ligações ao Estado. A dada altura, em 2015, uma consultora que foi contratada por Pecina para acompanhar a gestão do “Népszabadság” também começou a interferir nas questões relacionadas com o conteúdo, sem dar ordens explícitas mas fazendo sugestões e levantando dúvidas sobre as investigações mais complicadas. “Mas porque é que vocês têm sempre de fazer histórias destas?”

Mudança. De um dia para o outro, o encerramento compulsivo do “Népszabadság” fez com que o “Magyar Nemzet”, um órgão de comunicação social conectado com o governo de Viktor Orbán, passasse a ser o diário nacional mais vendido da Hungria

Mudança. De um dia para o outro, o encerramento compulsivo do “Népszabadság” fez com que o “Magyar Nemzet”, um órgão de comunicação social conectado com o governo de Viktor Orbán, passasse a ser o diário nacional mais vendido da Hungria

catarina larcher

Quinze depois de o “Népszabadság” ter sido fechado, Pecina vendeu o grupo Mediaworks a uma empresa chamada Opimus. Sem que seja oficialmente conhecido o verdadeiro dono desta companhia, vários artigos publicados nos meses seguintes descreveram-na como sendo controlada indiretamente por Lőrinc Mészáros, um amigo de longa data de Viktor Orbán.

As leis aprovadas em 2010 com critérios tão rígidos para determinados aspetos da indústria de media deixaram de fora, ironicamente, a exigência sobre o conhecimento dos beneficiários últimos das empresas de comunicação social. Formalmente, e de acordo com o “Hungarian Spectrum”, um blogue de análise criado por Eva S. Balogh, antiga professora de História na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, 40% do capital social da Opimus era detido no final de 2015 por uma offshore nas ilhas Caimão e por uma empresa de consultoria com sede na Nigéria. Sendo que aquele que será o seu verdadeiro dono, Lőrinc Mészáros, é descrito como um testa de ferro do próprio Orbán.

A questão de quem é dono de quê não é um pormenor. A 31 de dezembro de 2016, Adam Szeidl, um investigador da Central European University (CEU), a mais prestigiada das universidades de Budapeste, fundada pelo multimilionário e filantropo George Soros, publicava a meias com Ferenc Szucs, um colega da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, um estudo sobre como os media húngaros foram “capturados” pelo poder político do Fidesz. Com base num cruzamento de números de vendas, volumes de receitas de publicidade e estatísticas de artigos sobre corrupção produzidos pelos dois principais jornais nacionais, o “Népszabadság” (mais de esquerda) e o “Magyar Nemzet” (mais de direita), os dois investigadores recorreram a um modelo matemático para concluir que o que aconteceu entre 1998 e 2015 não deixa margem para dúvidas: o “Magyar Nemzet” foi sendo beneficiado de forma notória pelo governo de Orbán, com receitas de publicidade vindas diretamente do Estado ou de empresas controladas pelo Estado — sendo que, em contrapartida, o número de artigos sobre corrupção publicados pelo jornal nesse período foi manifestamente menor.

Num dos edifícios históricos ocupados pela CEU no centro de Budapeste, fui recebido por Eva Bognar, uma jovem investigadora do Center for Media, Data and Society (CMDS). Sem querer assumir posições que pudessem vincular a própria CEU, Eva admitiu aquilo que é público, chamando-me a atenção para o índice sobre a perceção da liberdade de imprensa que é atualizado anualmente pela Freedom House, um organização não governamental sediada nos Estados Unidos: a Hungria teve em 2017 a pior performance em toda a Europa — ainda pior do que a Rússia —, com uma quebra de 17%. Em grande parte por causa do encerramento compulsivo do “Népszabadság”. Um das investigações académicas em curso na CMDS tem a ver com os últimos beneficiários dos grupos de media no país e a evolução de quem controla o mercado desde que as empresas de comunicação social começaram a ser privatizadas em 1997. “A Comissão Europeia chegou a pedir algumas alterações às leis que foram introduzidas em 2010, mas, embora algumas coisas tenham sido mudadas, não mudou o fundamental”, explicou Eva. “As entidades regulatórias não têm independência e faltam organizações que defendam os jornalistas.”

Para os repórteres que não se queiram render à situação, tem sido difícil encontrar vias alternativas de fazerem o seu trabalho. Projetos como o “Direkt36”, capazes de contornar esse cerco, são uma raridade absoluta. András Petho contou-me que, na verdade, há apenas mais uma redação a fazer o que ele e o seus colegas fazem. Para saber até que ponto as experiências são parecidas, fui ter com Tamás Bodoky, o fundador do “Atlaszo”, uma organização sem fins lucrativos que se assumiu como a primeira redação do género no país a dedicar-se em exclusivo ao jornalismo de investigação.

Noutro bairro da cidade, nas traseiras da Raday, uma rua de bares e restaurantes bastante procurada por turistas, o escritório do “Atlaszo” foi quase tão difícil de encontrar como o apartamento onde András Petho trabalha. Está ao fundo de um corredor no quarto piso do City Corner Building, um bloco ocupado por microempresas.

Não há nada mais monótono do que ver jornalistas a trabalhar sentados nas suas cadeiras. Tamás Bodoky é um homem moreno, de ar mediterrânico e bem-disposto. À volta de uma espécie de sala de reuniões, com uma mesa grande ao meio, estavam três colegas de redação agarrados aos seus computadores, em silêncio. Antes de ter fundado em 2011 o “Atlaszo” — a palavra húngara para transparência —, Tamás, hoje com 45 anos, foi um jornalista de ciência e tecnologia no primeiro portal de notícias do país, o “Interneto.hu”, que se tornou entretanto no “Index.hu”, o atual líder do mercado online. Nunca chegou a trabalhar em papel. Em 2006 deu os primeiros passos no jornalismo de investigação e quatro anos depois lançou-se como freelancer. “Comecei como um one man show. Disseram-me que não era possível”, riu-se, sentado em frente ao seu laptop.

Tamás criou um blogue sozinho, e então houve um episódio que veio alterar o curso da sua carreira. Um hacker que tinha roubado ficheiros de uma instituição financeira de investimento passou-lhe parte desse material para demonstrar como a falha de segurança informática da instituição tinha sido silenciada. A história foi publicada já depois das novas leis impostas aos media por Orbán — e que incluíam a obrigação de um jornalista revelar as suas fontes à polícia, sob pena de ir preso. Tamás recusou-se, e o caso foi até ao Tribunal Constitucional. Quando os juízes lhe deram razão, tornou-se uma estrela. O “Atlaszo” surgiu logo a seguir, e a popularidade facilitou-lhe a vida, ao ponto de poder contratar seis jornalistas a tempo inteiro. O site publica três a cinco features por semana. “Tem corrido bem do ponto de vista das audiências. Em média, temos entre 300 mil e 400 mil leitores. E as nossas peças têm 200 a 300 referências por mês noutros media.”

Tamás está preocupado não só com a situação dos jornais mas com a forma como o Fidesz tomou conta dos media públicos, depois de, com a legislação aprovada em 2010, ter fundido as redações da rádio, da televisão e da agência nacional de notícias debaixo de uma estrutura que responde perante o Conselho de Media, controlado pelo partido de Orbán. “Durante o período mais agudo da crise dos refugiados, houve instruções internas para que nenhum media do Estado mostrasse imagens de crianças ou mulheres. Essas instruções internas foram divulgadas numa fuga de informação por um site de notícias. O que nós vimos nesses media e nos media de direita controlados pelo governo foram apenas histórias más, sobre violações de mulheres e sobre suspeitas de os refugiados poderem ser terroristas.”

O dilema de iniciativas como as de Tamás e András é saber até que ponto o trabalho que fazem tem um impacto na sociedade capaz de inverter o ciclo da própria perda de liberdade de imprensa e, por outro lado, como é que irão sobreviver financeiramente no longo prazo. Um dos mais importantes doadores de ambos os projetos é o fundador da CEU, George Soros, através das Open Society Foundations, uma das estruturas que mais tem doado dinheiro a jornalistas em todo o mundo. “Foi o nosso primeiro financiador”, reconheceu Tamás durante a nossa conversa. Desde o final do ano passado que Soros tem vindo a ser um alvo preferencial de críticas do círculo próximo de Viktor Orbán. “Nós aproveitámos para fazer algum dinheiro com a venda de canecas e t-shirts onde se pode ler Soros Army”, contou-me o diretor do “Atlatszo”. “Venderam bem.”

Mas Orbán, cujo gabinete não se mostrou disponível para um encontro ou uma entrevista comigo, parece saber bem o que faz. Em poucos meses, os rumores sobre a sua estratégia contra Soros foram ultrapassados pela realidade.

Em abril, o governo do Fidesz apontou a um novo alvo inesperado: a universidade fundada pelo húngaro-americano, usando como pretexto para o seu eventual encerramento o facto de a CEU estar a fazer batota por oferecer aos seus alunos diplomas não só húngaros como também americanos. Enquanto está em curso um longo processo negocial entre a universidade e o governo, há duas semanas foi aprovada uma nova lei no Parlamento que traz regras apertadas — e muito mais burocracia — a todas as organização não governamentais que recebam apoios financeiros de qualquer entidade estrangeira. O primeiro-ministro argumentou que se trata apenas de aumentar o nível de transparência, chegando a dizer aos microfones de uma rádio que “existe um elemento importante na vida pública na Hungria que não é transparente nem aberto — esse elemento é a rede de Soros, com os seus agentes e a sua operação de estilo mafioso.”

Entre outros sectores da sociedade civil húngara que poderão ser seriamente afetados, como a defesa dos direitos humanos e das minorias, a guerra em curso será mais um teste à capacidade de resiliência de pessoas como András e Tamás. E de outros que, como eles, forem capazes de provar que, quando o jornalismo dá sinais de estar a morrer, haverá sempre jornalistas que renascem.