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Capulana, meu amor

Da tradição para o design. Nos motivos impressos nos panos africanos conta-se a história de um continente

Ana Soromenho

Ana Soromenho

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Jornalista

FOTO MÁRIO JOÃO

Pegamos numa revista de moda e vemos Anna Wintour, a célebre diretora da “Vogue” norte-americana, com o seu eterno corte de cabelo carré (com franja e corte direito a meio do pescoço) e os óculos escuros da praxe, enfiada numa gabardina com desenhos africanos... Anna Wintour vestida com um corte de capulana? A imagem causa impacto suficiente para seguirmos as pistas ditadas pelas inúmeras tendências de moda e constatarmos que nos últimos anos as inspirações captadas no movimento Black Power continuam. Ciclicamente, o african style ganha fôlego e rompe. E, de repente, os padrões dos panos africanos, inconfundíveis e exuberantes, são apropriados pelos estilistas e surgem impressos nos vestidos dos desfiles internacionais, brilhando sumptuosos nos corpos das manequins.

A Preta é uma loja com porta aberta ao público exclusivamente dedicada à venda de panos africanos

A Preta é uma loja com porta aberta ao público exclusivamente dedicada à venda de panos africanos

FOTO MÁRIO JOÃO

Mas, antes de ser cortado e transformado em peça de vestuário ou em acessório cosmopolita, o pano africano tem uma personalidade forte e inequívoca. Na Tanzânia e no Quénia chamam-lhe ankara ou kanga; em Angola, pano do Congo; na Nigéria, lapa; em Moçambique, capulana. Capulana é também o termo genericamente conhecido em toda a África subsariana para designar este pano transversal e multiúsos, estampado em toda a sua superfície, de corte retangular e impresso nos dois lados. Tradicionalmente, capulana é mapa e território. E na imensa diversidade dos seus padrões de cores vibrantes e desenhos irrepetíveis está traçado um mosaico de heranças identitárias.

No ATELIÊ de Sofia

“É o objeto africano que melhor traduz o feminino. Uma capulana é oferecida como presente de casamento e pode passar de mãe para filha quando esta se casa. É uma herança cultural e íntima e um bem valioso. Antigamente, era o equivalente do ouro. Em sociedades poligâmicas, as mulheres eram trocadas por capulanas. Hoje, nas sociedades mais tradicionais, ainda continua a ser a maior riqueza de uma mulher”, explica-nos Sofia Vilarinho, designer de moda, responsável pelo Atelier Alfaiates Africanos (AAA), um projeto com sustentabilidade, feito em parceria com o Instituto de Moda Modatex, que integra imigrantes africanos no ofício da alfaiataria. O AAA foi criado em 2011 e desde então já formou 17 alfaiates. Alguns estão agora a trabalhar por conta própria, outros voltaram a emigrar, formando uma rede de contactos dentro do métier. “É sobretudo um trabalho de revitalização social, com o objetivo de afirmar uma marca que se destina principalmente à aprendizagem do design e do corte destes panos, que têm as suas técnicas próprias e as suas especificidades. Quem nos procura são clientes direcionados para este tipo de vestuário, mas também podemos fazer roupas ocidentais”, sublinha a mentora do projeto.

Modelos num desfile do Atelier Alfaiates Africanos no Moda África, em 2015

Modelos num desfile do Atelier Alfaiates Africanos no Moda África, em 2015

foto Alípio Padilha

A história de Sofia com o universo da manufatura das capulanas tem já alguns anos e começou com uma curiosidade: “Quando me formei, em 2005, tentei perceber como funcionava a moda africana. Percebi que tanto os estilistas africanos como o panorama histórico e cultural estão totalmente fora do sistema. Como se não existissem.” E no entanto existem, como concluiu a designer, depois de uma longa conversa com Joaquim Pais de Brito, então diretor do Museu Nacional de Etnologia. Foi a partir daí que se inteirou da história dos têxteis em África e que partiu para um trabalho de investigação que a levou a fazer várias viagens a Moçambique e terminou com a sua tese de doutoramento em moda sustentável intitulado “Mozambique Capulana in a D4S Design Perspective: Identity, Tradition and Fashion-able Challenges in the XXI Century”. Foi neste trânsito que surgiu a marca AAA, que hoje tem loja e ateliê em Lisboa, no Alto de Santo Amaro, e também a Associação Moda Africana (AMA), que representa várias marcas com o objetivo de criar sinergias criativas entre Portugal e países africanos.

Apropriação e grafismo

Uma capulana é confecionada com um tecido 100% de algodão, e os estampados são feitos através do tradicional processo de batik ou wax print. No sua forma original, usa-se o pano sem ser cortado, transformado em vestuário quando é drapeado com mestria e conhecimento. Dos vestidos e das saias aos turbantes e às blusas, uma capulana é enrolada no corpo e usada de múltiplas formas. Como objeto de uso quotidiano, também ganhou uma versatilidade incomparável, pois pode servir como saco para transportar bens e alimentos, esteira para proteger o corpo ou, principalmente, cobertor para enrolar o bebé e colocá-lo às costas da mãe, que o carrega o dia inteiro. E neste gesto secular está impresso todo o movimento e a melodia de um continente.

Este têxtil complexo está intrinsecamente ligado aos africanos desde meados do século XIX. Foram os holandeses, inspirados nos panos das suas colónias na Indonésia, que se apropriaram das técnicas e de alguns desenhos feitos em processo artesanal por várias comunidades do mar de Java e começaram a produzi-los na Holanda, de onde os exportavam para África. A primeira fábrica a industrializar os panos foi a holandesa Vlisco, inaugurada em 1846, que ainda hoje continua a ser uma das marcas mais importantes do sector. Ao longo do tempo, a Vlisco evoluiu e tirou partido do seu legado, trabalhando em colaboração com designers africanos. Esta visão de cowork esteve sempre na origem do sucesso que as capulanas tiveram em África e foi praticada pelos holandeses quase desde o início. A história das capulanas começa em plena Revolução Industrial e coincide com os movimentos de abolição da escravatura. Este é um marco muito importante, porque, ao iniciarem logo uma produção massiva, os holandeses conseguiram dar uma resposta em grande escala relativamente ao negócio dos tecidos manufaturados que chegavam ao Norte de Moçambique pela Índia e ao Sul através dos árabes, no trajeto do Atlântico. Tudo isto irá definir traços, desenhos, cores, geometrias, histórias.

“Começa por ser um negócio local, mas já com potencialidades industriais. O que os holandeses fizeram de melhor foi, logo de início, usar artistas tradicionais e locais para estamparem nos desenhos os ritmos e símbolos de África. É esta apropriação, que coincide com a abolição da escravatura, que os torna em panos africanos. Os escravos só podiam usar panos brancos, e o grande boom acontece com a possibilidade de usarem tecidos estampados, porque isto significa uma inclusão social. Este é o inicio da apropriação. O pano torna-se uma mensagem, porque o escravo era silenciado. Torna-se a voz do povo. Tudo o que se passa a nível das histórias e dos acontecimentos públicos e privados pode ler-se numa capulana, que, graficamente, estampa a atualidade. Neste sentido, quase podemos dizer que é um pano literário. Quando existe um novo pano ou um novo design no mercado, ele é batizado localmente e começa logo a ter significado. Estes ciclos de moda fazem parte de um sistema de moda africano. Existem modas africanas, com os seus revivalismos e os seus estampados de época”, explica Sofia Vilarinho.

Mulheres da Ilha de Moçambique, numa fotografia cedida a Sofia Vilarinho por Jorge Almeida

Mulheres da Ilha de Moçambique, numa fotografia cedida a Sofia Vilarinho por Jorge Almeida

O início da transformação da capulana em símbolo de identidade oficial de Moçambique é feito por Samora Machel. Seguiram-se todos os líderes africanos, que, após a descolonização, imprimiram o seu rosto nos panos como bandeira de poder e orgulho africano. A partir de então, a capulana voltou a ser de uso obrigatório em todos os acontecimentos de Estado.

Na loja Preta...

Em Lisboa, um dos locais de venda com porta aberta ao público (existem vários online) chama-se Preta e foi inaugurado no início deste ano na Lx Factory. Aqui podem-se encontrar-se panos vindos de várias geografias de África, que se espelham numa variedade espetacular de padrões. Só se vendem tecidos sem ser cortados. Os donos — um casal, ele português, ela moçambicana — vieram de Moçambique para Lisboa, e a ideia de abrir uma loja de venda de capulanas em Portugal surgiu com a constatação de, apesar de haver uma grande comunidade africana a viver no nosso país, praticamente não existirem lojas onde se pudesse adquirir capulanas. O negócio foi pensado como um projeto afetivo, após o nascimento do primeiro filho, uma espécie de batismo simbólico e de ligação ao território materno.

Na Preta, as capulanas, segundo a tradição, são muitas vezes procuradas para ofertas em datas especiais. São embrulhadas dentro de uma caixa sofisticada, feita em madeira, com desenhos pintados evocativos. Em todas elas está estampada uma andorinha, o mesmo pássaro que sobrevoa Lisboa depois de iniciar o seu trajeto de migração em Moçambique. Neste desenho do voo da andorinha podemos intuir o gesto simbólico de imprimir nas capulanas o sinal de travessia e transmutação.

...E no Porto com Orlanda

Orlanda tinha 14 anos quando deixou o Zambeze para viver no Porto. Já lá vão quase quatro décadas, mas os cheiros e as cores ficaram-lhe tatuados no corpo, para sempre envolvido na tradicional capulana. Na Baixa da Invicta, ganhou fama pela cozinha de memórias que chega às mesas, vestidas com os tradicionais panos moçambicanos de cores garridas, do restaurante Tia Orlanda, nome que se estende ainda à loja, ao lado, onde impera o artesanato da terra natal e as típicas capulanas, no original ou cortadas em vestidos, calças e túnicas, trajes prontos a envergar ou feitos à medida por encomenda.

A marca Tia Orlanda, graças a uma parceria com uma fábrica de São João da Madeira, figura ainda em sapatilhas, sapatos e carteiras, que misturam o cabedal com os seus tecidos de sempre, importados do mercado de origem. Num espaço sem fronteiras, a novidade deste verão é a bijutaria étnica da vizinha África do Sul.

*Com Isabel Paulo, no Porto