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Inspetores, peritos, militares: o relato doloroso dos primeiros a entrar na EN236-1 após a tragédia (exclusivo Expresso)

O Expresso revela o que viram e sentiram os primeiros a entrar na N236-1 depois da tragédia em Pedrógão. Inspetores da PJ, peritos de medicina legal e militares da GNR. Passadas três semanas, ainda não falaram com ninguém porque não devem falar. Estavam a trabalhar, representam instituições, há uma investigação em curso. Mas precisam tanto de falar. Dos corpos que ainda encontraram a arder, um, dois… 47. Do alcatrão que derretia sob os pés. Do silêncio ensurdecedor. Ali sozinhos, só eles e a tragédia. Este é o seu relato, um exorcismo de tristeza sem nomes. Nem deles nem das vítimas. Por respeito

Excerto da reportagem da jornalista Raquel Moleiro

Mesmo na penumbra, cada vítima contou-lhes uma história pela posição em que morreu, como uma pompeia apanhada pelo vulcão, em que o fogo fez a vez de cinza. O casal abraçado, resignado. As crianças protegidas debaixo do tablier. O homem escondido sob o carro numa derradeira tentativa de sobrevivência. As fugas pela estrada travadas pelo calor. Um corpo que alguém tentou apagar com um extintor, deixando-lhe o perfil desenhado a branco no asfalto.

Numa investigação criminal, num homicídio, os mortos servem um fim. Ajudam a chegar a quem os matou. A atenção foca-se na obtenção de pistas, o corpo que não é mais um corpo que teve uma vida mas um campo de análise, mesmo nos mais bárbaros crimes. Mas ali não havia culpados para procurar, ali um cadáver era uma pessoa real que era preciso identificar, atentar nos detalhes pessoais, olhar fixamente quando se quer é virar a cara.

E de tanto olhar as imagens ficaram gravadas, e ativam-se sem aviso todos os dias. Uma criança da idade daquela criança. Uma família igual àquela família. Dias terríveis, noites piores em que a mente viaja repetidamente até à estrada, àquela estrada, com aquelas pessoas que só se queriam salvar, por os filhos a salvo, em que se sente o que se pensa que sentiram, em que se deixa que entrem na nossa vida, e sejam nossos também, próximos, e que soframos por eles. E isso moi. Traumatiza.

PARA LER ESTE SÁBADO NA EDIÇÃO SEMANAL DO EXPRESSO