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Demissão na União das Misericórdias: sai o vice-presidente

Carlos Andrade abandonou em junho a vice-presidência da União das Misericórdias, cargo para o qual tinha sido eleito em dezembro do ano passado

DR

O mandato só terminada em 2019, mas Carlos Andrade resolveu demitir-se antes. As razões, disse na carta de demissão e ao Expresso, são “questões pessoais”, nada têm que ver com a possível entrada da União das Misericórdias Portuguesas no Montepio nem com a condenação por plágio de uma tese de mestrado para um estudo que lhe fora encomendado para as Forças Armadas. A vice-presidência deixada vaga não será preenchida

O vice-presidente da União das Misericórdias Portuguesas demitiu-se. Ao fim de dez anos de envolvimento, Carlos Andrade sai da instituição liderada por Manuel de Lemos, alegando questões pessoais. “Somos todos amigos da mesma maneira”, disse ao Expresso, adiantando tratar-se de uma vontade de “fazer outras coisas”.

“Não conseguia ir a todo o lado. A atividade das misericórdias é um trabalho muito absorvente e que mata os fins de semana… foram assim os últimos dez anos da minha vida. Pus-me a pensar, tenho 60 anos, até aos 70 vive-se bem: tenho mais dez verões à minha frente”, esclareceu Carlos Alberto Correia Andrade sem querer, no entanto, desvendar o futuro que “talvez” reserve para se dedicar à área privada. Eleito em dezembro de 2016, só acabava o mandato em 2019.

O presidente da União das Misericórdias Portuguesas decidiu “eliminar” o lugar deixado vago a 8 de junho, segundo a assessora de imprensa disse ao Expresso, por este seu “amigo de há 30 anos” – estas últimas, palavras de Carlos de Andrade que dias antes da demissão ainda dava a cara pela UMP num vídeo virado para o futuro, enunciando “os principais desafios para os quais as misericórdias se devem preparar” e no qual prometia que estas iam garantir “afeto e amor”.

Volta assim a ser notícia, a União das Misericórdias Portuguesas, uma associação formada em 1976, por todas as misericórdias do país, com o “objetivo de orientar, coordenar, dinamizar e representar as Santas Casas”, ultimamente “na boca do mundo” por duas razões, uma prende-se com a possível entrada no capital do Montepio, outra, mais recente, é o facto de ser a entidade a quem foi entregue o milhão e cento e cinquenta e três mil euros angariados pelas televisões com o espetáculo de solidariedade a favor das vítimas do incêndio de Pedrogão Grande.

O cheque no valor de mais de um milhão de euros foi entregue à União das Misericórdias no final do espetáculo de solidariedade "Todos Juntos" promovido pelas televisões

O cheque no valor de mais de um milhão de euros foi entregue à União das Misericórdias no final do espetáculo de solidariedade "Todos Juntos" promovido pelas televisões

TIAGO PETINGA

Carlos Andrade admitiu ao Expresso ter participado em algumas conversas sobre o Montepio, mas frisou não ter este assunto nada que ver com a sua saída. E não quis pronunciar-se sobre a eventual entrada no capital do banco da Associação Mutualista Montepio Geral por parte da UMP, possível uma vez que a Misericórdia de Lisboa já terá decidido nesse sentido e o seu provedor Santana Lopes tinha afirmado que a sua instituição só daria esse passo se a União também alinhasse.

“Não posso comentar essa circunstância. Seria uma deselegância opinar sobre um assunto. A minha saída é uma opção de projeto, de ir fazer outras coisas”, reafirmou Carlos Andrade que manterá as presidências do conselho fiscal da Santa Casa da Misericórdia de Mafra e da assembleia geral da de Faro, assim como as três vice-presidências que detém nos conselhos de administração de três fundações (AFID, Augusto Gil e Vítor Reis Morais) e a presidência do conselho executivo da fundação António Silva Leal.

Condenado por plágio em novembro de 2016

A razão da sua saída da UMP também não está ligada ao facto de Carlos Andrade ter sido condenado em novembro 2016 (transitou em julgado no passado mês de janeiro) por um crime de contrafação. Este é o termo correto, mas trata-se de um plágio de uma tese de mestrado para completar um estudo para as Forças Armadas.

Carlos Andrade foi condenado pelo Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa a quatro meses de cadeia e uma multa de 3400 euros, mas, atendendo a que a pena não ultrapassava o ano de prisão, foi substituída por uma multa de mais dois mil euros. Além destes 5400 euros, teve ainda de pagar uma indemnização de 1500 euros, com juros (estava em causa um pedido de 9500 euros), a Margarida Maria de Carvalho Almeida, autora da tese de mestrado “Dos Serviços Sociais das Forças Armadas ao Instituto de Ação Social das Forças Armadas, I.P.: transformações e desafios” apresentada em 2013 à Universidade Católica.

“Fiz um documento 'pro bono' e às vezes o 'pro bono' complica a vida. Pedi a dois técnicos que me ajudassem e aquele que fez a parte histórica copiou... e foi a tribunal dizer que tinha sido ele a fazê-lo, mas a assinatura era a minha, por isso fui condenado a uma multa. Eu não fiz plágio. Não tive o devido cuidado e assinei… ao longo da minha vida já assinei milhares de documentos…”, disse ao Expresso Carlos Andrade.

O “documento” era um estudo encomendado em março de 2014, pela secretária de Estado Adjunta e da Defesa Nacional Berta Cabral, para a “formulação do Plano de Reestruturação do apoio social aos militares das Forças Armadas, com vista à sua implementação até finais do ano de 2015”. Neste, que, ao saber-se da acusação por parte da autora da tese acabou rejeitado, deveriam ficar definidas “as medidas de apoio social, hierarquizadas para cada uma das áreas e valências selecionadas, bem como a entidade responsável”.

No âmbito do estudo, Carlos Andrade definiria ainda a estratégia para a concretização do plano, proporia parcerias, identificaria os universos-alvo, estabeleceria o calendário e o espaço virtual de discussão pública, “de modo a assegurar a participação plena dos destinatários do apoio social no desenho das medidas” e o “cronograma de implementação, bem como uma estrutura de acompanhamento e de avaliação”. No despacho publicado no “Diário da República”, não se encontra previsto pagamento pelo trabalho, apenas pelas deslocações que se mostrassem necessária efetuar.

“Neste caso, era minha a supervisão… o problema foi ter assinado de cruz um documento que não produzi mas também não tive o devido cuidados… a autora estava citada, mas mal citada…

É um problema chato, mas só a mim me diz respeito. Fui condenado a uma multa, paguei-a. Juridicamente o assunto está pago” – disse o ex-vice-presidente da União das Misericórdias Portuguesas.