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Ministro do Ambiente em “road show” por uma economia mais sustentável

MANUEL DE ALMEIDA / Lusa

Transformar resíduos em obras de arte, produzir legumes em casa com controlo remoto, construir casas que se podem encolher ou esticar consoante as necessidades, ou criar uma plataforma que permite vender e comprar manuais escolares usados são quatro dos projetos nacionais que incorporam o conceito de economia circular. O ministro do Ambiente visitou-os num 'roadshow', esta quarta-feira, e lembrou que estão abertas as candidaturas ao programa de apoio à transição para modelos de negócio semelhantes

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Faltam 28 dias para começarmos a consumir recursos que só deveríamos utilizar no início do próximo ano. A consciência de que a nossa pegada ecológica é demasiado grande para o Planeta em que vivemos tem sido lembrada por ambientalistas e pelo ministro do Ambiente, João Matos Fernandes. O “Global Overshoot Day” é marcado simbolicamente já a 2 de Agosto, uma semana mais cedo que no ano passado.

E porque não temos um planeta B, é necessário sermos mais eficientes no consumo dos recursos e é preciso apostar numa economia circular. Esta foi a mensagem que Matos Fernandes levou esta quarta-feira num périplo por projetos que seguem este caminho.

“Vejo que cada vez há mais atividades económicas que percebem a relevância de associar o seu negócio aos princípios da economia circular, mas ainda estamos longe de poder dizer que seguimos um modelo de economia que cria riqueza, bem estar e emprego que não seja baseado no consumo excessivo de matérias primas”, afirmou o ministro ao Expresso, sublinhando a importância dos projetos que vão surgindo.

Da reutilização de lixo à eficiência de recursos

O 'roadshow' começou pelas 10h00 da manhã no atelier do artista plástico Artur Bordalo (aka Bordalo II), em Xabregas. O artista, de 30 anos, transforma resíduos encontrados no espaço público em obras de arte de grande dimensão, chamando a atenção para o consumismo desenfreado e a possibilidade de reutilização de “desperdícios” da sociedade de consumo. “O lixo de uns é o tesouro de outros”, escreve Bordalo no seu site, criticando “a geração consumista, materialista e gananciosa” a que pertence e chamando a atenção para uma maior consciência ecológica e ambiental.

A paragem seguinte foi a Jular (Casas Modulares), na Azambuja. A empresa foi pioneira em arquitetura modular em madeira com certificação florestal. As suas “TreeHouse”, usam componentes a partir de materiais reciclados e podem ser expandidas ou reduzidas de acordo com as necessidades e são concebidas de forma a minimizar impactes ambientais e a garantir eficiência energética.

Na Zona Industrial de Casal das Mós, em Torres Novas, Matos Fernandes descobriu o “CoolFarm”. O projeto partiu de uma experiência de um grupo de amigos que queria produzir vegetais em casa de forma eficiente e, em três anos, evoluiu para um investimento de €2 milhões que permite através de tecnologia de ponta controlar a rega e os nutrientes para a produção de hortículas ou plantas nos centros urbanos, permitindo menores custos de transportes e emissões de CO2 e maior eficiência no uso de recursos.

A última paragem deste 'roadshow' foi em Coimbra, onde a comitiva visitou o projeto “Book in Loop”. Esta plataforma digital criada em 2016 — e já distinguida com os prémios Indústrias Criativas e Navegantes XXI — permite a compra e venda de manuais escolares de forma a estender a vida dos materiais e a reduzir os gastos das famílias. Com a desmaterialização na cadeia de valor e a reutilização dos materiais poupam-se matérias primas e reduzem-se as emissões de gases de efeito de estufa como o CO2.

€1 milhão para novos projetos

Estes projetos nacionais “que se destacam por adotar um modelo económico regenerativo e restaurador, que rentabiliza os recursos pelo maior período possível” servem de exemplo para que novos apareçam, salienta Matos Fernandes.

O Fundo Ambiental disponibiliza um milhão de euros para um máximo de 20 projetos que se candidatem ao Programa Apoiar a Transição para uma Economia Circular. As candidaturas já estão abertas e em curso está também, até ao final de julho, a consulta pública do Plano de Ação Nacional para a Economia Circular. Para o ministro, “a expressão eficiência de materiais tem de chegar ao mesmo patamar a que já chegou a expressão eficiência energética”.

Segundo Matos Fernandes, “o modelo de desenvolvimento económico, tal como hoje o conhecemos, está a falhar porque os princípios que, precisamente, fazem o mercado prosperar são os mesmos que, eventualmente, ditarão o seu fim”. Por isso, defende, que “temos de descarbonizar a economia: com mais energias renováveis e tecnologias de armazenamento, com mais mobilidade elétrica, com mais eficiência energética, trabalhando a floresta e o uso do solo”. Mas que esse percurso tem de ser complementado com uma “alteração do nosso modelo económico, pois cerca de metade das emissões de GEE ocorrem por via da extração e do processamento de materiais”. E aqui surge “uma economia assente em modelos de negócio mais eficientes e produtivos no uso de recursos, que regenere e preserve capital natural, ao invés de o esgotar e erodir”.