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Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

“Estás a escrever um livro com o Medina? És maluco?”: Medina Carreira por Ricardo Costa

Por razões familiares, conhecia o Henrique Medina Carreira desde criança. Era um dos melhores e mais presentes amigos do meu tio João e a sua presença era muito familiar. As suas ideias, estilo, modo de argumentar, desassombro e coragem - que a esmagadora maioria dos portugueses conheceu na política, em artigos de jornais ou, muito mais tarde, na televisão - sempre foram, para mim a coisa mais natural do mundo. O Henrique era assim desde sempre, ponto. E ainda bem que era assim

Foi exatamente por nos conhecermos que acabámos a coeditar um livro em 2007, "O Dever da Verdade". Na verdade, o livro era do Henrique, com as ideias do Henrique e, sobretudo, com as críticas e os avisos que o haviam de tornar, justamente, famoso junto do grande público. O meu papel era apenas o de perguntar, contraditar e, numa fase final, organizar e editar o texto por capítulos e dar-lhe a forma final. Penso que me convidou para o ajudar no livro exatamente porque me conhecia muito bem desde muito novo.

Encontrámo-nos algumas manhãs no seu escritório da Columbano e gravámos umas conversas. Algumas respostas eram muito longas e precisavam de ser entrecortadas por perguntas posteriores para que o texto pudesse ser publicado e compreendido. Mas o mais importante não eram esses pequenos pormenores, eram os gráficos. Os gráficos do Henrique - ou "os gráficos do Medina Carreira" - eram a sua marca, a par do estilo assertivo, abrasivo e desassombrado. Na sua cabeça, nada era melhor que um gráfico para sublinhar a sua posição ou, ainda melhor, destruir a de outrem. Era muito habitual que a meio de uma conversa, sessão de perguntas ou respostas a e-mails, surgissem vários gráficos, uns já feitos, outros criados para responder aquela necessidade.

A sua influência cresceu brutalmente no período pré-resgate e da troika. Foi justamente considerado um dos que mais tinha avisado para a situação que o país teve que atravessar

Foi o seu desassombro e independência, a par de uma argumentação clara e de muitos gráficos, que levaram a sua voz a uma posição única na comunicação social portuguesa, primeiro na SIC Notícias e mais tarde na TVI24. Esse destaque e sucesso foi bastante inabitual, porque surgiu de forma estrutural quando o Henrique já tinha à volta de 75 anos, idade em que já poucos têm vontade, energia ou paciência para se baterem por ideias ou discutirem o futuro do país.

A sua influência cresceu brutalmente no período pré-resgate e da troika. Foi justamente considerado um dos que mais tinha avisado para a situação que o país teve que atravessar. Não o fez de forma oportunista nem politicamente motivada. O Henrique trabalhava e pensava muito, chegava às sua conclusões e não abdicava delas. Dizia coisas erradas, sobretudo sobre o sistema político, mas defendia-as em qualquer palco, sem medos nem alvos prioritários.

Quando comecei a ajudá-lo na feitura do livro, no início do ano de 2007, lembro-me bem de uma outra conversa com colegas jornalistas e também com políticos em que aparecia uma expressão recorrente: "Estás a escrever um livro com o Medina? És maluco?". No fundo, muitos achavam que co-editar um livro com uma Cassandra moderna era condenar o país à ausência de esperança, sublinhar tudo o que tínhamos de mau e esconder todas as coisas boas que o país tinha.

Nessa altura, o Henrique era tóxico para muita gente, um Velho do Restelo que nos impedia de descobrir novas rotas. O governo da altura não gostava dele, como os anteriores também não. Muita gente afastava-se do seu escritório por precaução.

O Henrique era advogado e o seu escritório ressentia-se muito das suas posições públicas. Sei do que falo, porque me deu vários exemplos disso, uns caricatos, outros nem por isso. Vivia bem com isso e sempre de consciência tranquila. A coragem pública e desinteressada é um bem escasso na sociedade portuguesa, mas no Henrique sobrava.

A última vez que falámos foi no início do ano, no dia a seguir a ter entrevistado Marcelo Rebelo de Sousa no Jornal da Noite da SIC. Ligou-me para o telemóvel e perguntou, sem grandes rodeios: "Ricardo, acha mesmo que o Marcelo acredita naquilo que disse sobre a divida?". Eu respondi que sim, que me parecia que Marcelo obviamente acreditava no que tinha dito. A conclusão do Henrique foi simples: "Então, ainda é pior do que eu pensava...".

Ontem, quando a minha tia me ligou a dizer que o Henrique tinha morrido, lembrei-me deste telefonema e das primeiras imagens que tenho dele, penso que de alguns fins de semana em Cascais nos anos 70 e, sobretudo, da certeza de que sempre o ouvi a dizer as mesmas coisas e a pensar da mesma forma desassombrada, corajosa e lúcida ao longo de tanto tempo, como só ele sabia e podia.