Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“É um agravamento histórico”: o maior aumento de mortos em 20 anos nas estradas portuguesas

Estradas portuguesas: número de mortos acelerou em 2017

Foto Rui Duarte Silva

Números dos primeiros seis meses do ano são alarmantes: mais 23% de vítimas mortais face a 2016

Os acidentes nas estradas portuguesas provocaram a morte de 237 pessoas no primeiro semestre do ano, uma subida de 22,8% face aos óbitos registados em igual período do ano passado (193), segundo os dados disponibilizados pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR).

Este aumento de vítimas mortais (contadas no local do acidente ou com o ferido a caminho do hospital) é o maior desde 1998, ano mais remoto em que é possível obter uma estatística semestral com os dados constantes do sítio da ANSR na internet.

Com exceção de 2015 (subida de 11,5%), os anteriores aumentos ficaram todos na casa de um dígito (5,5% em 2002) e até com acréscimos residuais (0,8% em 2005 e 1,6% em 2007).

José Miguel Trigoso, desde há décadas o rosto da prevenção rodoviária em Portugal, não tem dúvidas em considerar o aumento de 23% registado em 2017 como “um agravamento histórico”.

Numa primeira análise aos dados agora conhecidos, Trigoso salienta que, não tendo havido uma subida significativa do número de sinistros (registou-se até uma ligeira descida no número total), “o que aumentou grandemente foi a gravidade dos acidentes”.

Estatísticas em branco

Quanto ao resto, o responsável da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP) alega que não pode dizer “mais nada”, pois “há um desconhecimento das características dos acidentes”.

Com efeito, em relação a 2017, a ANSR ainda não disponibilizou qualquer relatório mensal, documento em que, para lá do número de acidentes, mortos e feridos, é feita uma “análise mais fina” dos sinistros, indicando o sítio do acidente (estrada ou localidade), hora ou os envolvidos, etc...

As causas do aumento dos mortos em 2017 ainda estão por decifrar

As causas do aumento dos mortos em 2017 ainda estão por decifrar

Foto Lucília Monteiro

“Nesta altura do ano, já deviam conhecer-se os relatórios mensais pelo menos em relação aos três ou quatro primeiros meses”, afirma José Miguel Trigoso.

Um fenómeno com múltiplas causas

Mais conclusivo na análise dos números divulgados pela ANSR, que recolhe os dados da PSP e da GNR, é Fernando Nunes da Silva, professor catedrático do Instituto Superior Técnico, de Lisboa, e especialista em Mobilidade e Transportes.

Numa primeira leitura, Nunes da Silva apresenta diversas causas para os dados agora conhecidos. “Houve recentemente um enorme aumento de aquisição de automóveis por parte de população jovem que tem pouca experiência de condução e, com a diminuição da fiscalização, afoita-se a conduzir de modo menos cuidado e respeitador das regras”, afirma o docente e investigador.

“Por outro lado, com o envelhecimento da população, há cada vez mais condutores idosos na estrada, os quais muitas vezes não têm já os reflexos e a agilidade exigidas para conduzir em condições de tráfego mais complicadas“, acrescenta.

Mas para lá de causas que radicarão em comportamentos de jovens e de idosos, Fernando Nunes da Silva aponta o dedo à gestão que é feita nas áreas urbanas, em particular na capital (realidade que o especialista em transportes conhece bem, pois foi vereador entre 2007 e 2011). “A incipiente e antiquada gestão do tráfego nas nossas grandes cidades (em particular em Lisboa) tem conduzido ao aumento dos congestionamentos e a uma situação de completa desorganização e eficiência do sistema de semaforização, o que reduz a segurança e aumenta o stress dos condutores, ficando estes assim menos atentos às condições de tráfego e menos respeitosos quanto às regras de condução”, afirma Nunes da Silva.

Dos engarrafamentos em Lisboa às portagens nas SCUT

“Os cruzamentos permanentemente bloqueados, as obras com sinalização insuficiente e em cima da própria obra, os radares avariados, o mau desenho de algumas das intervenções realizadas no espaço público e o abandono do programa das zonas 30 em Lisboa, são fatores que, no caso específico de Lisboa, têm contribuído para o aumento da sinistralidade na cidade”, diz o especialista em Mobilidade e Transportes.

As portagens em SCUT diminuíram o trânsito nestas vias e sobrecarregaram as estradas nacionais

As portagens em SCUT diminuíram o trânsito nestas vias e sobrecarregaram as estradas nacionais

Foto Luis Efigénio

Outra das causas apontada por Fernando Nunes da Silva é menos recente. “A introdução de pagamento de portagens nas antigas SCUT levou a que muito do tráfego que as utilizava passasse para as antigas estradas nacionais que servem as mesmas áreas, as quais se caracterizam, na maioria das vezes, por uma ocupação urbana marginal intensa, inúmeros cruzamentos, pisos em mau estado e tráfego local intenso. Todos estes aspetos contribuem, e muito, para o aumento das condições propícias para uma subida da sinistralidade. Os casos da Estrada Nacional 125 no Algarve e da Estrada Nacional 1 no centro do país, são disso exemplos elucidativos”, afirma.

Derrapagens na euforia?

O especialista em Mobilidade e Transportes tem uma derradeira explicação: “Por último, face às restrições orçamentais que todos conhecemos, as campanhas de sensibilização têm sofrido cortes substanciais e praticamente desapareceram dos meios de comunicação, em particular da televisão. Com o espírito de ‘euforia’ que se vive no país, este é mais um fator a acrescentar aos anteriores para que os condutores sejam mais descuidados, afoitos e menos respeitadores das regras do Código da Estrada”, diz Nunes da Silva.

Uma leitura que tem igualmente eco na apreciação de José Miguel Trigoso. “Quando a sociedade apresenta algum sintoma de euforia (talvez seja uma palavra exagerada), quando há alguma expansão económica, os estudos mostram que a sinistralidade aumenta para um mesmo volume de tráfego”, diz.

Quatro distritos marcados a negro

No primeiro semestre deste ano, segundo a ANSR, foram registados 60.904 acidentes, menos 681 do que em período homólogo de 2016. Estes números reportam a todo o tipo de acidentes, e não apenas àqueles em que houve danos corporais, os verdadeiramente relevantes para estudar a sinistralidade rodoviária.

No período em causa, houve 974 feridos graves, mais 5% do que no primeiro semestre de 2016 (quando se registaram 926 casos). Já nos feridos leves a subida foi ínfima (de 18.219 no ano passado passou-se para 18.313 neste ano).

Em todo o país há quatro distritos em que o número de mortos disparou no primeiro semestre deste ano face a 2016: Porto, de 15 para 35; Setúbal, de 15 para 33; Santarém, de 13 para 23; e Faro, de 11 para 19.

Os dados da ANSR dizem respeito às vítimas cujo óbito foi declarado no local do acidente ou a caminho do hospital.

  • Face à subida de 23% de vítimas mortais no primeiro semestre deste ano (o maior aumento em 20 anos), o Governo acelerou a entrada em funcionamento da rede de radares rotativos (o SINCRO), reforçou também por outras vias a fiscalização ao excesso de velocidade e vai lançar ações de sensibilização