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Armas de Tancos no jogo de sombras do tráfico internacional

O roubo em Tancos não é único na Europa, embora seja um dos mais graves. Autoridades estão atentas aos desenvolvimentos do caso

Foto Ana Baião

Ndrangheta, Cosa Nostra, máfia eslovaca, gangues britânicos, neonazis alemães e terroristas do Estado Islâmico. São estes os players do mercado negro de armas na Europa. Alguns são suspeitos de estar por trás de roubos semelhantes ao de Tancos realizados em bases militares alemãs, francesas, inglesas e suíças

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

O mercado negro do armamento de guerra na Europa faz-se na penumbra, num jogo de forças disputado entre as maiores potências do crime organizado. Os investigadores da Unidade Nacional Contraterrorismo (UNCT) da PJ e da Polícia Judiciária Militar e os procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) têm isso em mente e tentam perceber que grupos poderão ter encomendado o roubo nos dois paióis de Tancos, na última semana. As autoridades suspeitam de crimes de associação criminosa, tráfico de armas e terrorismo internacional. E as pistas seguem em diversas direções.

A Cosa Nostra (máfia siciliana), há alguns meses na mira dos serviços de informações britânicos, tem exportado armas de guerra para países do norte de África como o Egito, que depois as encaminham para extremistas do autodenominado Estado Islâmico (Daesh) em França e para gangues violentos do Reino Unido. Um negócio que conta com a aliança da Ndrangheta (máfia calabresa).

Uma reportagem do jornal inglês “The Guardian”, de julho do ano passado, revela que estas máfias pagaram quase 40 mil euros por 160 AK-47 desativadas na Eslováquia, e que as transformaram em poucas horas em armas de guerra, vendendo-as por preços exorbitantes. Dois meses após a apreensão dessas AK-47 num porto da Sicília, a polícia britânica apanhou 22 Kalashnikov e metralhadoras de guerra Skorpion nas mãos de um gangue violento em Kent. Tinham obtido as armas ao mesmo importador da Eslováquia, ainda no ativo.

Também o “The BlackSea”, consórcio de jornalistas da Europa de Leste, revela as ligações intrincadas e pouco transparentes entre vendedores de armas da Eslováquia, a maior parte delas desativadas, com traficantes dos Balcãs, neonazis alemães e radicais do Daesh. A reportagem mostra casos concretos de roubo de arsenal em bases militares na Bulgária, Sérvia, Albânia ou Roménia que depois entraram neste circuito ilegal por toda a Europa.

Bases de países da NATO roubadas

Tancos não é caso único na Europa, embora seja um dos mais graves e esteja debaixo de atenção das autoridades europeias. O Expresso revelou esta segunda-feira três casos semelhantes de assaltos em bases militares e civis — França (Lyon e Marselha) mas também na Alemanha (Estugarda), onde dezenas de armas de guerra foram furtadas.
Mas há mais. Nos últimos meses, outros países da NATO foram alvo do mesmo tipo de roubos, alguns deles com uma gravidade semelhante à de Tancos.

Durante o ano passado, as forças armadas inglesas e o ministro da Defesa foram crucificados pelos media, após o furto de 400 itens (de jipes Land Rover, milhares de balas, espadas a motosserras), que valeriam cerca de 300 mil euros. A imprensa, citando fontes governamentais, garantia que uma parte desse material teria sido vendido a operacionais do Daesh. Foi o que aconteceu com 87 mil balas roubadas num campo de treino britânico no médio oriente.

Na Suíça, 70 armas do Exército foram dadas como desaparecidas, também em 2016. Só uma pequena parte delas (18) foi encontrada pelas autoridades. Um pouco mais a norte, na Holanda, e já em janeiro deste ano, um homem de 21 anos roubou um camião militar da base de Oirschot, em Eindhoven. Foi preso poucas horas mais tarde.

Nos Estados Unidos, os casos deste género multiplicam-se. Um dos últimos teve lugar em Ohio há quatro meses quando a tropa resgatou um veículo Humvee, dias depois de alguém ter cortado a cerca de um armeiro da Guarda Nacional.