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Polícia suspeita que assalto em Tancos foi encomendado e que armas já estão fora do país

Assaltantes de Tancos deverão ter saído do país logo após o roubo do armamento

Ana BaiÃo

Autoridades não têm dúvidas de que houve ajuda do interior da base militar. Assalto estará ligado ao crime organizado. Investigação tenta perceber se há ligação a um assalto num campo de tiro no sul de França, feito vinte e quatro horas depois do incidente de Tancos, e a outros dois casos ocorridos em bases militares em Lyon e Estugarda

Os investigadores da Unidade de Contraterrorismo e Crime Organizado (UNCT) da PJ e da Polícia Judiciária Militar (PJM) continuam a ouvir os militares com ligações aos Paióis Nacionais de Tancos, onde na última quarta-feira foi roubado material de guerra, incluindo 44 granadas foguete anticarro, 50 quilos de plástico PE4A, 150 granadas de mão ofensivas e 18 granadas de gás lacrimogéneo. Para já, não foram identificados suspeitos do crime, mas várias fontes próximas da investigação ouvidas pelo Expresso não têm dúvidas de que “houve ajuda do interior” da base militar.

As autoridades suspeitam que se tratou “de uma encomenda” proveniente do submundo do crime organizado.

Ao Expresso, fontes ligada à investigação avançam que “muito possivelmente” o material roubado já não estará em território nacional. O mais certo, segundo os mesmos responsáveis, é que esteja em Espanha ou em Marrocos.

Numa reunião realizada esta segunda-feira em Sevilha, no histórico edifício do Archivo de Indias, a ministra portuguesa da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, pediu a colaboração dos homólogos de Espanha, França e Marrocos num caso que já saltou fronteiras.

Também a Europol está envolvida neste processo, que já levou ao afastamento de cinco comandantes militares envolvidos na segurança dos paióis de Tancos, depois de um relatório do chefe do Estado-Maior do Exército apontar para a suspeita de “colaboração interna” no roubo. É provável que os assaltantes já soubessem da falta de videovigilância bem como do horário das rondas de vigilância.

Roubos de armas em França e na Alemanha

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já pediu que seja investigada a possibilidade de haver ligações entre este furto em Tancos e outros dois casos que ocorreram nos últimos dois anos em países membros da NATO, “um deles há poucos meses”.

Um dos assaltos mais recentes, e que está na mira das autoridades, ocorreu há menos de uma semana na região de Lyon (França), apenas vinte e quatro horas após o incidente de Tancos. Segundo a imprensa francesa, quatro homens munidos com metralhadoras Kalashnikov assaltaram um campo de tiro em Saint-Chef, levando 75 armas. O assalto deu-se na noite de 29 de junho e até esta segunda-feira nada se sabia sobre o paradeiro do grupo de assaltantes.

A Unidade de Contraterrorismo e Crime Organizado da PJ e da Polícia Judiciária Militar está também atenta a um outro assalto, realizado há precisamente um ano numa base militar americana da NATO em Estugarda, na Alemanha. Nessa altura, foram as próprias forças armadas dos Estados Unidos a liderar uma investigação ao roubo de várias armas, entre elas pistolas semiautomáticas, uma espingarda automática e uma shotgun, embora a lista não tenha sido totalmente revelada. Os ladrões cortaram a rede de segurança para poderem entrar nas instalações da NATO.

Sob suspeita está ainda a ligação a um roubo em larga escala ocorrido em julho de 2015 perto de Marselha, em França: 40 granadas, 180 detonadores e vários explosivos desapareceram da base militar de Miramas. Os assaltantes cortaram em dois locais diferentes a rede de proteção da base logística de 250 hectares — onde circulavam diariamente cerca de 200 militares e civis — , levando material suficiente para “explodir um banco ou cometer um ataque terrorista”, de acordo com as autoridades francesas. O Ministério da Defesa francês abriu um inquérito ao caso, numa altura em que o país se encontrava em alerta máximo, após o atentado em Paris de janeiro desse ano.

Há seis anos foram roubadas dez armas do quartel da Carregueira

O assalto ao quartel da Carregueira (Sintra) ocorrido entre o Natal e a passagem de ano de 2010 continua envolto em mistério. Um grupo de homens roubou pelo menos dez armas de guerra, entre espingardas e pistolas, de uma arrecadação que necessitava de um código secreto para ser aberta. Cinco anos depois do crime, só foi encontrada uma das HK de 9 milímetros, e nem sobre esta arma o Exército revela pormenores: não se sabe quando, onde e como foi recuperada.

O caso, investigado pela Polícia Judiciária Militar, acabou por ser arquivado pelo Ministério Público algum tempo após o assalto. “A razão é simples: não foi possível identificar os suspeitos do ilícito”, confidenciou uma fonte ligada à investigação.

Ou seja, em seis anos ninguém chegou a ser preso. Mas o arquivamento não será irreversível.

Logo após o roubo, as suspeitas recaíram sobre um oficial de baixa patente com acesso ao local onde se encontrava o armamento, estando referenciado por eventuais ligações a outros episódios de compra e venda de armas. Só que os interrogatórios foram inconclusivos. Os restantes militares do quartel foram também alvo de uma investigação exaustiva, sem qualquer resultado digno de registo.