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Com as mãos no futuro

Vivem-se dias de mudança na forma como nos deslocamos, nos ritmos e nas rotinas de transporte. O automóvel faz parte do quotidiano de milhões de pessoas. Os fabricantes procuram soluções num mercado obrigado a mudar. A contagem decrescente começou e há vários caminhos possíveis. O centenário da BMW levou a marca de Munique a olhar para os próximos 100 anos. O Expresso esteve na sede do grupo, onde falou em eclusivo, com o diretor executivo, Harald Krueger

Rui Pedro Reis/SIC em Munique/Alemanha

Para quem ainda pensa que a condução autónoma é cenário de ficção científica, a realidade é que a tecnologia está pronta a ser implementada e só falta criar legislação que permita comercializar automóveis que dispensam a intervenção do condutor. Além disso, falta preparar as cidades e fazer uma revolução social, que permita a convivência nas estradas de carros autónomos com automóveis convencionais. O futuro não assusta Harald Krueger. O CEO da BMW tem os minutos contados, porque diz que não há tempo a perder. E assegura que a BMW não vai fazer automóveis que não possam ser conduzidos. Ou seja, mesmo um automóvel de condução autónoma vai dar sempre ao condutor a opção de assumir o comando. Krueger diz que o prazer de condução faz parte do ADN da marca e que isso vai continuar a ser assim no futuro. “Desde sempre que os nossos automóveis têm uma assinatura. E têm um comportamento em estrada que se distingue. E esse é sempre o nosso desafio. Que qualquer automóvel que saia das nossas linhas de produção se comporte como um BMW. No i3 e no i5 (os dois primeiros modelos da gama elétrica da marca) essa foi a maior dificuldade. Criar um automóvel com uma arquitectura e engenharia totalmente distintas que dessem ao condutor a sensação de um BMW.” Harald Krueger fala de forma entusiasmada e com a confiança de quem pode não saber como vai ser o futuro mas já decidiu o caminho a seguir. O diesel, já se sabe, tem os dias contados. Como outros construtores, a eletrificação de todo o portfólio já começou e vai acelerar. Os próximos três anos vão ser determinantes. Sem revelar demasiados planos, Harald Krueger admite que em 2020 vai chegar o X3 elétrico, um ano depois do primeiro Mini elétrico, com lançamento previsto para 2019. A coincidir com as exigentes metas europeias de redução de emissões de CO2, em 2021, a marca bávara vai revelar o iNext, o automóvel que promete mostrar como vai ser o futuro da mobilidade e da condução autónoma. O iNext vai trazer também um novo propulsor elétrico.

Parcerias de futuro

Numa era em que a eletrónica toma cada vez mais conta dos automóveis, o CEO da BMW não se assusta com as incursões que chegam de Silicon Valley, nem as considera uma ameaça. “Cada vez mais as parcerias vão ser importantes. É por isso que já estamos a trabalhar com a Delphi e a Intel, por exemplo. Além da partilha de tecnologias e investimentos entre fabricantes de automóveis,” assume Harald Krueger. A convicção surge em resposta a uma questão sobre o “casamento” entre BMW, Mercedes e Audi na criação da próxima geração de mapas. Os custos elevados e uma maior rapidez de desenvolvimento estão na base do entendimento entre as três marcas premiam alemãs. Mas nem tudo depende dos construtores: “Ainda não vemos Bruxelas a reagir à velocidade que gostávamos. Para evoluir precisamos de carros elétricos, uma rede de carregadores rápidos por toda a Europa e rede 5G para suportar os mapas digitais e a troca de dados que implica a autonomia.

Precisamos, todos, que as redes 5G cheguem rapidamente. Estamos a ver essa questão com os operadores e até a nível governamental. Sem rede 5G não podemos avançar para a condução autónoma nem para várias soluções de colectividade que queremos implementar. Mas acredito que em 2021 vamos ter a infraestrutura de que precisamos. Não nos queremos precipitar, até porque temos de ter garantias de funcionamento e de total segurança a nível informático.”

Montra tecnológica e pouco mais

O futuro até pode estar ao virar da esquina, mas até parece que vem longe. Enquanto fala com o Expresso e com um grupo restrito de jornalistas internacionais, Krueger mostra três exemplos do que pode ser o futuro: um BMW Vision Next, de condução autónoma, um outro protótipo da Mini, de mobilidade partilhada, uma proposta excêntrica do que pode ser um Rolls Royce dentro de umas décadas, e o que poder ser a evolução das motos. Esta última, com um oscilómetro sofisticado que evita quedas e corrige trajectórias automaticamente. Quatro exemplos, todos elétricos. Mas a realidade atual é bem diferente. Em 2016, apenas 3% das vendas da BMW são de modelos elétricos. A marca acredita que em 2025 a percentagem vai aumentar para entre 15% a 25%. O caminho faz-se também com a diversificação da oferta. Esta ano fica marcado pela maior ofensiva de produto da história do construtor. Harald Krueger diz que faz parte da estratégia e que mesmo nos dias de hoje os automóveis já são máquinas de comunicação, ligados à internet. “O BMW Série 5 recebeu o prémio de Best Connected Car of The Year na Alemanha e mostra como os sistemas de conectividade e segurança ajudam o condutor, sem o substituir por completo. É um exemplo prático do que andamos a fazer. Mas por enquanto a produção de sistemas de propulsão elétrica ainda é muito mais cara do que de motorizações a gasolina e gasóleo. Por isso, o fim dos motores diesel não será para já e ainda não vemos o eléctrico a tornar-se dominante. Queremos vender 100 000 veículos elétricos já este ano. Para conseguir uma produção eficaz e financeiramente viável, temos de criar fábricas com linhas de montagem integradas, de onde saiam veículos com motor de combustão, híbridos e elétricos. Uma coisa é certa, temos de ser mais eficiente em todas as soluções, mesmo nos motores a combustão.”

As surpresas de hoje e as de amanhã

Harald Krueger assume que lídera companhia num momento de mudança e a resposta do mercado surpreende mesmo quem traça cenários estratégicos. “Entre a nossa gama de híbridos o X5 Plug-in Hybrid é o mais bem sucedido. Não esperávamos que tivesse tanto sucesso. É a prova de que não conseguimos prever tudo. A nível tecnológico e industrial, por outro lado, o hidrogénio pode ser outra solução mas não está a evoluir mais depressa porque depende de uma infraestrutura de abastecimento que não existe na maioria dos países.” Durante toda a conversa, o CEO da BMW deixou sempre margem para surpresas e para o desconhecido, como se a história do automóvel se estivesse a redesenhar numa revolução tão significativa como a criação do próprio automóvel. Tal como hoje, o futuro vai ter várias soluções para outros tantos perfis de utilizador. E não se assuste o leitor, que o automóvel das próximas décadas vai continuar a ter rodas e volante. Mas tudo o resto faz parte de um admirável mundo novo no capítulo da mobilidade.