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O iPhone faz 10 anos esta semana e está a ser vítima do próprio sucesso

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No dia 29 de junho de 2007, a Apple colocou no mercado o iPhone, o dispositivo que marcou a entrada da empresa no mercado dos smartphones. Jobs profetizou, na apresentação oficial do smartphone, que aquele era um dia especial. “Estou à espera deste dia há dois anos e meio… Ocasionalmente, chega um produto ao mercado que muda tudo (…) e a Apple tem tido o privilégio de apresentar uns quantos destes produtos.”

É assim que começa a apresentação do iPhone. E o fundador da Apple não poderia estar mais certo: o iPhone representa um momento fraturante na história da tecnologia. Não porque tenha sido o primeiro smartphone do mercado, mas porque é o primeiro em que o ecossistema está pensado de raiz. Ou quase. Porque o momento que contribui definitivamente para a tal revolução só se dá no ano seguinte, em 2008, quando a empresa apresenta a Appstore – a loja de aplicações.

É esta combinação, iPhone+Appstore, que faz explodir a utilização do smartphone e que transforma totalmente a forma como, todos, consumimos informação e interagimos com os mais diversos conteúdos. Claro que a Apple não tem o mérito todo. Sem o advento da Internet Móvel criado pelos operadores de telecomunicações o iPhone teria morrido na praia. Afinal, de nada vale ter um Ferrari sem estradas decentes para andar, certo?

Uma desgraça prevista... mas não consumada

A mesma analogia se aplica ao iPhone. Sem um acesso à Internet móvel com largura de banda generosa o streaming não seria uma realidade. O que matava qualquer intenção de ter acesso, fora de casa e em movimento, a vídeos, música ou à utilização de grande parte das aplicações.

Olhando para trás, recordo-me de ter vaticinado a desgraça do iPhone quando vi a apresentação feita há 10 anos. Não fazia sentido nenhum, para mim, a Apple (um outsider no segmento) lançar um smartphone e conseguir vingar num mercado que era dominado pela poderosa Nokia e pela mão férrea dos operadores. Não acreditei que a Apple conseguisse impor o iPhone ao mercado.

Como seria possível, vindo do zero na área dos terminais móveis, conseguir convencer o mundo que seria muito mais interessante usar o iPhone do que o fantástico Nokia E62? Afinal, o primeiro iPhone era muito caro, tinha pouco desempenho e, as incompreensíveis ausências de 3G e de uma câmara. Como era possível, pensava eu, que um telefone lançado em 2007 não tivesse uma câmara que gravasse vídeo? Afinal, a Nokia já as tinha desde 2002!

Um dispositivo que deixava muito a desejar

E, confesso, era fácil não gostar da atitude arrogante de Steve Jobs que prometia mundos e fundos num dispositivo que estava, claramente em termos de hardware, atrás do que já existia no mercado. Não percebi na altura a importância da interface de toque múltiplo – grande fator diferenciador do primeiro iPhone – que viria a inspirar toda a indústria de dispositivos móveis.

E é importante relembrar que essa versão embrionária do telefone da Apple não foi aclamada. Nem pela crítica, nem pelos utilizadores. Foi preciso esperar um ano pela versão 3G do iPhone (a primeira a chegar a Portugal) e pelo lançamento da Appstore, para aí, sim, entender que a Apple tinha em mãos um produto único. Com um telefone, a empresa americana ia mudar para sempre o modelo de distribuição de software. Até aí, quem fizesse uma aplicação tinha como modelo de negócio a venda de licenças em pacotes físicos que respeitavam os circuitos comerciais definidos – quem é que tem aí por casa caixas do Photoshop?

Um “monstro” consumidor de dados

Com a Appstore, qualquer pessoa no mais recôndito canto do planeta pode desenvolver uma aplicação, submetê-la à loja e usufruir de uma partilha de receitas de 70%/30% em que fica com a parte de leão. O modelo ainda era o licenciamento, mas a Apple estava a contribuir para o fim da venda física de software. Hoje, com a proliferação de lojas deste tipo, o modelo de distribuição mudou novamente. A subscrição impera (paga-se uma quantia determinada pela utilização ao longo de tempo determinado) e as compras dentro das aplicações também (in-app purchase). Esta transformação não teria acontecido sem a Apple.

E com ela vem outra que contribui para o sucesso comercial do iPhone. Quando a Apple cria uma loja de apps e faz do iPhone o seu veículo para a utilização das mesmas, criou um verdadeiro “monstro” consumidor de dados. Ora quem é que ganha a vida a vender o tráfego de dados? Exato, os operadores. A Apple ganhava, assim, grande interesse juntos dos operadores de telecomunicações, que sabiam que um utilizador do iPhone gastava, e gasta, muitos mais dados do que os que usam outro tipo de dispositivo. Ainda hoje a situação ocorre.

Depois do Olimpo, a falta de capacidade de inovação

Estava conquistado um dos mais importantes pilares para que o iPhone chegasse aos utilizadores: os operadores eram parte interessada na massificação do smartphone da Apple e subsidiaram-no, tornando-o acessível a milhares de utilizadores que nunca teriam dinheiro para o comprar a pronto.

E não podemos esquecer, nunca, o design e a qualidade de construção que a Apple sempre colocou em tudo o que faz. O iPhone foi, desde o primeiro momento, um dispositivo diferente. O generoso ecrã tátil, os materiais utilizados, a atenção nos pormenores. Durante muitas gerações, foi a referência nestes parâmetros. Hoje, já não é assim. É reconhecida a falta de capacidade de inovação que a empresa tem tido nos mais recentes iPhone. Afinal, desde o iPhone 6, em 2014, que o smartphone da Apple não muda assim tanto. Entretanto, a Samsung com os seus ecrãs curvos, assumiu-se como mais inovadora e a Huawei também espreita uma oportunidade com as suas câmaras duplas feitas em colaboração com a marca alemã Leica.

É preciso tirar um coelho da cartola

E a Apple acaba por ser vítima do seu sucesso. O iPhone é responsável por 63% dos resultados da empresa. Um negócio que está a perder vitalidade. A desaceleração de vendas no mercado chinês e a estagnação na Europa e nos EUA colocam alguma pressão sobre a empresa, que continua a ser uma das mais valiosas do planeta. Por isso é tão importante ver o que a Apple vai apresentar em setembro, quando mostrar ao mundo o novo iPhone. Tim Cook, o atual CEO, tem de conseguir tirar um qualquer coelho da cartola para que o mundo se mantenha interessado no iPhone – e que isso seja um convite à substituição. O ser “mais fino” e mais “rápido” já não excita ninguém.

E, admito, depois de ver as últimas apresentações da Apple, acho que a empresa perdeu a capacidade de surpreender. Não há nada, mesmo nada, de particularmente disruptivo que tenha saído da mente dos engenheiros da empresa nos últimos anos. A Apple deixou de ser proativa, para ser reativa. É isso que explica o seguidismo do Apple Watch ou da coluna de som inteligente apresentada recentemente. No entanto, se já não é capaz de ter o fator “Uau!”, a Apple não deixou de ter o “Toque de Midas”. Mesmo quando chega mais tarde a um mercado, acaba por liderá-lo. Como aconteceu no mercado dos smartwatches com o já referido Apple Watch.

Sim, a Apple faz, quase sempre, melhor do que a concorrência. Mas tenho muitas saudades de ver uma conferência de imprensa da Apple que me encha as medidas. Daquelas “à Steve Jobs” ou mesmo aquela de Cook que terminou com um concerto surpresa dos U2 – aquando do anúncio do Apple Music e do iPhone 6. E nunca mais chega setembro…