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Polícia Judiciária faz levantamento 3D da ‘estrada da morte’

Lucília Monteiro

Investigadores contam com tecnologia de ponta para entender melhor o que realmente se passou na EN236-1, onde morreram 47 pessoas a tentar fugir do fogo de Pedrógão Grande

Na passada quinta-feira, durante todo o dia, um drone da Polícia Judiciária (PJ) sobrevoou a Estrada Nacional 236-1, onde morreram 47 pessoas, e também o local de início do fogo, em Escalos Fundeiros. O objetivo: fazer a medição fotográfica tridimensional dos dois locais onde está centrada a investigação ao incêndio de Pedrógão Grande. As imagens agora recolhidas vão permitir criar modelos 3D onde é possível assinalar a localização exata das 64 mortes, assim como a deslocação geográfica e temporal das vítimas e do próprio incêndio.

O Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Leiria, que tutela o inquérito (em segredo de Justiça), quer esclarecer todas as causas do fogo para apurar se houve, ou não, crime de homicídio por negligência. A hipótese de o Estado indemnizar as vítimas está em aberto.

O drone, apetrechado com várias lentes que permitem fotografar e gravar em todas as direções e ângulos, varreu e mapeou as áreas identificadas pela brigada de homicídios de Coimbra. Em terra, elementos do laboratório científico, vestidos com coletes sinalizadores, marcavam os pontos fulcrais. As imagens aéreas realizadas permitem, por exemplo, identificar a direção do fogo ou se os terrenos que ladeiam a estrada estavam limpos dez metros até à berma, como obriga a lei. Os registos recolhidos vão agora ser manipulados através de um programa computacional para reproduzir em 3D os ‘cenários do crime’. Os resultados deverão estar prontos já nos próximos dias.

A investigação com recolha tridimensional dos locais de crime já é possível em Portugal desde 2014, mas até hoje só tinha sido usada pela PJ “meia dúzia de vezes”, revelou ao Expresso fonte da investigação. A última vez foi há cerca de seis meses, durante uma operação que envolveu várias perseguições e tiroteios. “É especialmente útil em casos mais complexos, em que os crimes têm plurilocalizações, isto é, várias ocorrências e em vários locais”, explica. “E o incêndio mortal de Pedrógão Grande é um caso de exceção por excelência, cuja investigação pode beneficiar muito com esta metodologia”, explica a mesma fonte.

A aquisição desta tecnologia seguiu o exemplo de forças policiais congéneres de Espanha, França e Alemanha, países pioneiros na sua utilização em cenários de investigação criminal. Entre as ofertas de ajuda que Portugal recebeu nas últimas semanas chegou também uma de apoio de meios tecnológicos forenses, mas foi recusada por não ser necessária.