Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Morrer para contar

marcos borga

Duas semanas depois do dia mais negro, sete repórteres do Expresso, quatro fotojornalistas e três jornalistas, olham de novo para a tragédia de Pedrógão. Imagens e palavras sobre o fogo, as vidas que ele mudou e as cinzas que ficaram no fim

O fogo...

As pessoas da terra chamam-lhe o lume do diabo porque as chamas giravam sobre si próprias, numa dança macabra, como se fizessem pouco dos que temiam pela vida. Num minuto, o fogo entrava galopante num pinhal, queimando as árvores como se fossem fósforos. No outro, subia encostas, galgava estradas, entranhava-se pelos fios elétricos, derrubava postes, derretia paragens de autocarro e vidrões. “As chamas faziam ângulos estranhos de 90 graus e mudavam rapidamente de direção, subindo e descendo como um ioiô.” O primeiro relato sobre o comportamento do fogo que matou mais de 60 pessoas em Pedrógão Grande no último fim de semana parecia inventado. Era demasiado inverosímil para ser verdade. Mas as testemunhas seguintes iam contando mais e mais histórias rocambolescas, de olhar esgazeado, de quem viu algo impossível de acreditar. “Havia como que uma parede invisível que não deixou o fogo chegar à nossa casa”, garantia uma jovem empregada de café de Figueiró, que desde aquele sábado toma medicação para a ansiedade. Em Várzeas, povoação que perdeu três famílias para o fogo, um morador falava em destino. “Fechámo-nos em casa e chegámos a entrar no carro para sair. Mas à última decidimos ficar, não sei porquê. Tinha que ser assim. Estava escrito.” Foram adiando a saída até o crepitar ir baixando de intensidade. Cá fora, os animais estavam mortos. A casa da frente derrubada e enegrecida. Mas eles estavam vivos.

rui duarte silva

Aquelas horas intermináveis mostraram às gentes da região “a face mais maléfica da natureza”, acredita Aida, uma mulher da cidade que passa as férias de verão na casa da família. A natureza que tanta alegria lhes deu no passado quis agora “magoar, matar e fazer chorar”, como se se estivesse a vingar. O fogo avolumou-se, juntou-se aos pequenos tornados, ganhou energia com o calor seco e transformou tudo o que tocou em cinzas e fumo denso e tóxico. Uma neblina cerrada fez cair uma estranha neve de cinzas sob um sol vermelho incandescente. As árvores derrubadas, queimadas ou dobradas sobre si próprias pareciam fazer vénias a esta faceta da natureza madrasta.

lucília monteiro

Mas o fogo que matou tanta gente em tão poucas horas está longe de ser um elemento surpresa para os que aqui moram. São milhares de povoações envelhecidas na zona centro, muitas delas carregadas de isolamento. E os moradores são reféns de si próprios mal começam, acidental ou propositadamente, os incêndios no verão. É difícil não encontrar alguém com um drama para contar, deste ou de outros anos. “Escapei por pouco.” “Ficou tudo negro à minha volta.” “Apaguei as chamas com as minhas mãos.” “Fugi só com a roupa no corpo.” Mas as histórias destes pequenos heróis repetem-se como num disco riscado, apenas com pequenas nuances. As pessoas que fazem estas terras não acreditam que algo mude quando o verão terminar. Ou quando o próximo chegar ao fim, ou o seguinte. Os fogos, para quem mais sofre com eles, vão continuar a lavrar, serão algo com que terão de lidar para o resto da vida. Da sua vida. Da dos filhos, dos sobrinhos, dos netos. 

Texto de Hugo Franco

Rui Duarte Silva

...a vida...

As cidades, vilas e aldeias são feitas de pessoas. Quando não há vozes, sussurros, risos e choros, diz-se que as terras estão desertas. Que são terras-fantasmas. Não interessa se têm edifícios, casas, automóveis. Estão nos mapas, mas não passam de rabiscos num desenho abstrato. O problema é quando as localidades estão lá, as estruturas estão lá, algumas pessoas estão lá, mas faltam outras. Quando casa sim, casa sim, as ausências enchem de espaços vazios o que antes estava cheio de vida. Aquela vida pequenina, anónima, irrelevante e que, de repente, ganha espaço, enche o país de uma falta que não se sabe como preencher. Faltam pessoas, aquelas pessoas que antes ninguém dava por elas. Foi assim com o fogo de Pedrógão Grande.

Nodeirinho, Vila Facaia, Pobrais, a estrada nacional 236, a praia fluvial de Rocas. Os carros dos visitantes, antes desatentos e desinteressados, atravessam as ruas, amassam as cinzas, pisam troncos retorcidos. Invade-se a privacidade de terras que choram em busca de detalhes de vidas que já não há. Por trás das janelas, encostados aos muros, de olhar vazio e mãos pintadas de preto, há pessoas que espreitam. Aguardam o regresso de outras que já não voltam. Os nomes tornam-se absolutamente irrelevantes perante as histórias.

rui duarte silva

Como as primas a quem os pais não se importaram de chamar da mesma forma. Duas Anabelas de Pobrais: já não voltam. Ou a família de Aurora, da mesma aldeia: definitivamente ausentes. Ou Vítor Manuel Passos Rosa, de 56 anos, com problemas de saúde, um dos últimos corpos a ser encontrado, em cima da cama, por baixo do teto de casa, visível pelo crânio e pelo externo, as suas últimas sombras de humanidade. Ou a família de quatro pessoas, que no início da semana não se sabia quem os iria enterrar. “Já não tinham ninguém, deve ser a Santa Casa da Misericórdia”, conta Georgina Carvalho, 77 anos, que viu tudo por trás dos vidros aferrolhados. Só ali foram 11 as partidas. Algumas saíram apressadas, em carros que não serviram para levar ninguém a lado nenhum, outras imóveis, de quem se deixou ficar deitado no próprio quarto. Não serviu de nada fugir, também de nada serviu ficar.

Está Adelaide, a mulher que salvou sete, cuja força fundamental vem de contar a chaga aberta da vizinha, já viúva, que lhe bateu à porta. Uma idosa que viu o marido morrer queimado no cimo da rua, no carro calcinado da fuga e que se conseguiu arrastar, “de joelhos, de gatas”, desfeita em chagas do fogo que lhe bateu à porta à meia-noite. A mulher que há décadas vivia em França e que voltava a Nodeirinho para descansar. Adelaide, a vizinha mais próxima da casa de Gina, a mãe de Bianca, a menina que ficou morta com a avó, na mesma curva que o idoso, marido da queimada acolhida por Adelaide. Os três ficaram lá, expostos, por quase 24 horas. Uma morte sem companhia, sob o pesar e olhar distante do país. Ainda dali não tinham sido retirados, em sacos azuis, e já se lhes conhecia as histórias. São as pessoas que dão sentido aos lugares. E talvez tenha sido por isso que Adelaide se transformou em testemunha. Ficou para contar, fazer-se ouvir.

nuno botelho

O peso das pessoas ausentes é tão insustentável que passados apenas dois dias do grande incêndio da zona de Pedrógão, romarias de turistas do mórbido começaram a dirigir-se para as localidades identificadas pelas notícias como aquelas onde faltavam mais habitantes. De calções e chinelos, com as mãos limpas de fumo, dentro de carros com janelas fechadas e ar condicionado ligado, chegam às aldeias para conhecer os locais da morte. “São daqui, tinham familiares no local?” “Não, viemos só ver”, respondem entre o constrangido e o inegável. Perguntam aos moradores mais detalhes que possam ter faltado nos jornais.

Pessoas. Os vivos, que falam, perguntam, investigam, olham, choram. Pessoas, os mortos, que falam pela forma como foram calados. Aldeias, ditas desertificadas por terem partido os jovens, deixando para trás aqueles que ninguém quer lembrar. Locais que ganham fama por se terem esvaziado de um terço dos seus habitantes. O caminho da fantasmagoria, traçado pela irrelevância da interioridade. Confrontando o país com a falta que fazem as pessoas que partem, levadas pela tragédia de um fogo, a quem se empurram as culpas para uma natureza incomodada pelo descaso de outras pessoas, aquelas que de notórias se fazem tão discretas, que dizem não ser a hora de delas falar. A luta entre os nomes conhecidos, que pedem para perder notoriedade, e os anónimos, que ganham força por já cá não estarem.
Texto de Christiana Martins

lucília monteiro

...e as cinzas

As cinzas chegam quando as chamas desaparecem. Quando os gritos deixam de se ouvir, quando a madeira para de estalar. Nesse instante, em que até o vento descansa, fica a cinza. A meio caminho entre Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera, não muito longe da estrada de que todos falam, há um caminho a que ninguém liga e que avança pelo meio das árvores para desaparecer atrás de uma elevação. É impossível ver-lhe o fim, saber se há uma curva logo a seguir. Nesse caminho não há ninguém a caminhar, não há árvores verdes nem sombras frescas, não há miúdos de bicicleta nem coelhos escondidos com medo deles. Depois de o fogo passar, é assim. Não há nada, ainda que esse nada tenha cor. É cinzento, branco, negro, por vezes castanho, mas acima de tudo é escuro. Cinza é apenas uma forma negra de dizer nada.

marcos borga

Na cinza haverá sempre um ponto de interrogação. Irremediável. Como era antes? Como foi naquele instante? Como foi possível? Há carros reduzidos a chapa no meio da estrada, meia dúzia deles, naqueles metros que foram os piores. Porquê? Antes havia uma carrinha queimada à beira da estrada, e antes ainda, sempre de Figueiró para Castanheira, havia dois carros destruídos na berma. E a seguir veio um parque cheio de camiões reduzidos a nada, e um armazém todo preto sem telhado, e um poste de eletricidade partido e caído no meio da estrada — e era igual ao tronco partido e caído no meio da estrada. E coisas que já foram árvores são agora estacas negras assentes num solo castanho que se desfaz debaixo dos pés como se fosse neve. Mas não é neve? É quente. É só cinza.

Os homens sujos e sem rosto, escondidos atrás de máscaras, passam com máquinas que a empurram para fora da estrada sem carros e ela, a cinza, levanta-se do chão e fica ali a pairar, a misturar-se com o fumo que ainda sobe da floresta que ardeu e que, durante dias, mudou a vida de todos. E depois cai outra vez. Também há fogo, uma chama que resiste num toco. O sol não chega aqui, o céu não se vê daqui. A única coisa que há aqui é o que houve. Uma presença. A rádio diz que morreram pessoas ali em cima, as pessoas aqui em baixo, à porta das casas, dizem que morreram pessoas ali em cima, na estrada dos carros ardidos. Mas ali em cima só há escuridão. Não há rostos.

rui duarte silva

Daqui a uma semana, talvez duas, quando o sol entrar outra vez nas bermas desta estrada onde andaram as chamas, onde se ouviram os gritos, onde a madeira estalou e o vento empurrou o fogo de um lado para o outro, nesse mesmo local vai aparecer um pequeno rebento verde. Depois outro e mais um e ao fim de um mês ou dois haverá outra vez pequenas plantas espalhadas por todo o lado, e o chão vai ficar um pouco menos negro, branco, cinzento e castanho. As encostas voltarão a estar verdes e as pessoas, mesmo nunca esquecendo a tragédia que lhes passou à porta, já não conseguirão lembrar-se deste “maldito” cheiro a queimado. Mais uns anos e talvez se sentem a conversar à sombra das árvores novas sobre aquele dia que levou as velhas árvores. E depois, como acontece sempre, vão esquecer-se. Porque é isso que o tempo faz.

A cinza é o meio caminho entre a morte e a vida. E isso é bom. Mas é também um problema.
Texto de Ricardo Marques

rui duarte silva