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Bicicletas: Unidos pela corrente de pedalar

Vamos na frente 
do pelotão a produzir bicicletas. E com 
mais de 1700 km para percorrer em duas rodas, há quem 
faça do pedalar 
um estilo de vida

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Um cantor, um empresário, um viajante e dois livreiros encontram-se numa reportagem. O que têm todos eles em comum? Aparentemente, nada. Mas agarre-se, porque vamos pedalar para encontrar as respostas e olear uma corrente que move pessoas tão diferentes. Trim-trim. Apresentamos-lhe quatro histórias protagonizadas por bicicletas, essas companheiras de duas rodas com 200 anos de idade. Tradicionais ou elétricas, nas cidades ou nas serras, sozinho ou com amigos, são muitas as formas de as utilizar. “Ama como a estrada começa”, escreveu Mário Cesariny, e o Expresso lançou-se por distintos caminhos, cruzados pelo apaixonante e intemporal fascínio das naves a pedal.

Rui Reininho, o emblemático e desconcertante vocalista dos GNR, sai todos os dias de casa montado na bicicleta para se deslocar para o estúdio, ou para “pegar ao trabalho”, como prefere dizer. Por sua vez, o trabalho de Paulo Rodrigues, um dos administradores da Órbita, consiste em gerir a histórica empresa, fundada em Águeda em 1971, exportadora de bicicletas para todo o mundo. Pelo mundo viajou o Pedro Moreira, quando saiu de Vale de Cambra e chegou até ao Cabo da Boa Esperança a pedalar, tendo cruzado 22 países e superado adamastores inacreditáveis, para no final publicar o livro “Daqui Ali — De Portugal à África do Sul de Bicicleta”. E de literatura percebem Arnaldo Vila Pouca e Cátia Monteiro, dois arrojados livreiros que usam a Flanerie — a “bicicleta mais intelectual” do Porto, como lhe chamam — para levar os livros ao encontro das pessoas. Tudo está ligado e na marcha certa para algo que é mais do que um hóbi. É um modo de estar. De quem nunca fica parado ou em descanso.

Dados divulgados pelo Eurostat conferem a Portugal o estatuto de “camisola amarela” europeu na exportação de bicicletas, no exato mês em que este meio de transporte atinge dois séculos de existência. Em 2016, os países da União Europeia exportaram um total de 11 milhões de bicicletas, sendo Portugal responsável por 15% desse número, seguido no pódio pela Itália (14%) e pela Holanda (13%).

Se queremos falar de bicicletas portuguesas, há uma marca incontornável. Chama-se Órbita e gravita a memória de muitos portugueses. Para muitos foi o nome da primeira bicicleta. A empresa foi fundada por Aurélio Ferreira, em 1971, em Águeda, conhecida em tempos como a capital velocipédica, pelas dezenas de companhias dedicadas ao fabrico de componentes para bicicletas e motociclos. “Foram poucas as marcas tradicionais que sobreviveram e a esta foi uma das que conseguiram, mantendo a identidade”, explica Paulo Rodrigues, um dos três sócios que, em 2015, adquiriam o grupo Órbita-Miralago, que emprega hoje cerca de 140 pessoas.

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Com uma capacidade diária de produção estimada entre 250 a 300 bicicletas, a empresa consegue produzir até 40 mil veículos anualmente. As exportações representam 80% do volume de negócio e as naves a pedal da Órbita são enviadas, sobretudo, para Espanha, França, Reino Unido e Norte de África. À produção de bicicletas tradicionais juntou-se também a necessidade de investir em novas soluções, como as bicicletas elétricas. É aí que está o futuro, acredita Paulo Rodrigues. “Pode atrair clientes que normalmente não andam de bicicleta, porque vai permitir a pessoas que não tenham uma capacidade física muito elevada fazer distâncias interessantes”, sustenta o responsável.

Algo que veio impulsionar o negócio e também alterar a própria mobilidade urbana é o sistema de bike sharing, as redes de bicicletas partilhadas já implementadas em cidades como Paris, Viena, Liubliana, Bilbau ou Málaga. Em todas elas há bicicletas da Órbita, tal como acontece em Portugal nos municípios de Vila do Conde, Vila Moura e Oliveira da Azeméis. A esta lista de clientes da empresa junta-se Lisboa que, desde esta quarta-feira, já tem a funcionar em fase-piloto uma rede de bicicletas, gerida pela EMEL, composta por 1410 bicicletas, sendo dois terços da frota veículos elétricos.

O uso deste meio de transporte é, defende Paulo Rodrigues, “uma alternativa altamente válida”, desde que “o território esteja minimamente adaptado”. De acordo com os números do portal eletrónico “Ciclovia”, existem no nosso país 299 ciclovias, ecovias, ecopistas e percursos cicloturísticos, o que perfaz um número total de quilómetros superior a 1700. Razões não faltam para se deixar converter à paixão das duas rodas, pese embora o dirigente da Órbita admitir, entre risos, ser “mais evangelizador do que praticante”.

Quem está a pensar fazer uma “peregrinação velocipédica” a Santiago de Compostela é Rui Reininho, um entusiasta deste meio de transporte e alguém que, praticamente, não retira o carro da garagem. Um depósito de “gasosa” é o bastante para o mês todo. “Adotei a bicicleta porque estou farto do automóvel e do que representa. É uma posição poética e filosófica, digamos assim. E a revolução, primeiro, faz-se em casa”, explica o artista ao Expresso.

Ter a primeira bicicleta foi a concretização de um sonho e lembra que foi montado no selim que descobriu novos horizontes, até mesmo criativos, como quando fazia passeios desde o Porto até à praia do Mindelo, em Vila do Conde, onde as dunas adornam a paisagem. Reininho não entra em competições. Muito menos com a vizinhança, onde se encontra, por exemplo, o treinador de futebol Jaime Pacheco. “Esses, sim, são ciclistas a sério. Eu sou apenas um amador. Gosto de puxar pelas pernas”, conta o músico de 63 anos.

Leça da Palmeira, onde vive, é a sua Holanda, país onde o uso da bicicleta tem um enorme peso na mobilidade urbana. O vocalista dos GNR, habituado a dar a volta a Portugal com a banda em concertos, usa a bicicleta, maioritariamente, para as viagens de casa para o estúdio em Matosinhos, num percurso de cinco quilómetros “feito num instante” e que serve também para dar umas “passeatas” pela marginal. “É um meio de transporte muito simpático, porque vê-se muita gente. O contacto humano é muito importante”, frisa o cantor, adepto de pedalar sozinho, por lhe permitir transitar livremente pelos seus “percursos mentais” e desfrutar de momentos zen.

Embalados pela pedalada dos livros

Já muitos de nós, na infância, dissemos: “Mãe, pai, vou ali e já venho.” Isso foi o que o António Pedro Moreira, já em idade adulta, também fez. Até aqui nada de especial. Só que para ele ir “daqui ali” pode significar ir à boleia de Portugal até Singapura ou, como fez em 2014, viajar de bicicleta de Vale de Cambra até à África do Sul. Alguma dose de loucura? Coragem? Nada disso. Pedro, um cidadão do mundo, garante ser apenas “um man de carne e osso”.

Largou o emprego como psicólogo e o salário confortável que auferia em Londres para se tornar viajante. E escritor. “Daqui Ali — De Portugal à África do Sul de Bicicleta” é o título do livro em que relata todo o percurso e as inúmeras peripécias de uma viagem em que atravessou 22 países. Mas acham que o fez sem qualquer tipo de treino? Claro que não. Antes de dar início à sua jornada, fez um percurso de 24 km só para experimentar e desenferrujar. “O meu pai dizia-me que eu não tinha preparação nenhuma e eu respondia que a preparação ia fazendo à medida que fosse andando”, recorda. E não é que o Pedro tinha razão? Após mil horas a pedalar, um encontro na floresta com um gorila ou várias detenções por parte da polícia, chegou ao seu destino. Porque “sempre chegamos ao sítio onde nos esperam”, escreveu José Saramago. “Foi nascendo um certo amor pela bicicleta como modo de viagem”, conta o escritor-viajante de 32 anos, alguém de bem com a vida e para quem a “Boa Esperança” nunca tem furos. Durante estas férias vai andar pelas praias algarvias a vender os seus livros aos veraneantes, usando sempre a bicicleta como meio de transporte.

Pedalar e lançar-se à estrada para perseguir o amor pela literatura: foi assim que tudo começou para Arnaldo Vila Pouca, de 40 anos, e Cátia Monteiro, de 28, os proprietários da aconchegante livraria Flâneur, no Porto (rua Ribeiro de Sousa 225-229). Antes de arranjarem um espaço físico, a primeira etapa teve início há dois anos e meio através de um website e das redes sociais, onde vendiam os seus próprios livros e os levavam de bicicleta até casa dos clientes. Quem diz até casa, diz até ao local de trabalho. Ou ao café. Ou à universidade. Ou mesmo na rua, como forma de surpreender e presentear alguém no seu dia de aniversário, tal como já aconteceu.

Quem pedala por gosto em nome da literatura não cobra, “embora as pessoas ainda não se tenham habituado a usar um serviço que não seja pago”, nota Arnaldo. “Sentem que lhes estamos a fazer um favor, mas não estamos. Nós fazemos as entregas com todo o gosto”, acrescenta Cátia. Porto, Vila Nova de Gaia e Matosinhos são as cidades por onde se passeia habitualmente a bicicleta Flanerie, uma bicicleta intelectual e com especial gosto pela poesia, que agora tem uma irmã mais nova, já elétrica, com quem divide as deslocações. Na Flanêur, as baterias estão sempre carregadas em nome da literatura. “A melhor forma de conseguirmos alguma coisa é sempre quando nos fazemos à estrada e não deixamos que as circunstâncias mudem o rumo que queremos ter para as nossas vidas”, conclui Arnaldo.