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Phono Sapiens: como o iPhone fez nascer uma nova espécie

"Let's take a selfie!" Estaremos transformados em documentaristas do nosso quotidiano?

Há dez anos, Steve Jobs prometeu revolucionar as nossas vidas com o iPhone, que colocou à venda no dia 29 de junho de 2007. Houve quem o recebesse com ceticismo, mas já ninguém ignora o impacto que os smartphones têm nos nossos dias: mais de um quarto da população do planeta liga-se à Internet através de um telemóvel. Consegue imaginar um mundo sem eles?

À primeira vista, esta podia ser uma guesthouse como tantas outras na costa vicentina: uma casa com paredes caiadas a branco, janelas emolduradas a azul e uma piscina para refrescar o corpo a qualquer hora do dia. O cenário idílico da praia da Arrifana está a apenas poucos passos de distância, mas também não é isso que faz deste um lugar especial.

Nem sequer as aulas de surf e de ioga, os serões de música ou dança, as festas, as caminhadas ou os passeios. Na verdade, talvez seja um pouco disso tudo, mas sobretudo o facto da Offline House ser um espaço de "detox digital": mal fazem o check-in, os hóspedes são convidados a deixar os seus gadgets em cacifos e só os usarem fora da casa. Aqui, o tempo é para parar, respirar e desligar... o telemóvel.

Não é um gesto fácil sobretudo desde que, há 10 anos, Steve Jobs apresentou o iPhone, prometendo com ele revolucionar o mundo. Hoje, mais de um quarto da população do planeta liga-se à Internet através de um telemóvel. Muitos vivem quase permanentemente nesse mundo digital, incapazes de se desligarem. Foi por terem consciência desta crescente dependência, em que a vida "virtual" quase substitui a "real", que Bárbara Miranda, arquiteta, e Rita Gomes, psicóloga, decidiram criar o projeto Offline Portugal. "O que pretendemos é prevenir comportamentos obsessivos e dependentes, e que voltemos à fase em que o controlo está do nosso lado, em vez de sermos controlados por essas ferramentas", explica Gomes, que está a realizar um estudo com os hóspedes que passam pela casa. Segundo dados preliminares, 90% relatam "uma perceção de diminuição dos níveis de stress após 24 horas de estarem privados do telefone".

Bárbara Miranda e Rita Gomes querem ajudar as pessoas a libertar-se do seu telemóvel.

Bárbara Miranda e Rita Gomes querem ajudar as pessoas a libertar-se do seu telemóvel.

d.r.

Um refúgio sem telemóveis parece uma realidade distópica numa era em que o telemóvel domina quase todos os momentos das nossas vidas. Pense no último gesto que faz quando se deita. E no primeiro quando acorda. Depois de olhar para o ecrã do smartphone para confirmar que está na hora de se levantar, talvez consulte o email e leia os destaques do Expresso Curto. De seguida, é muito provável que vá ao Facebook, passe os olhos pelas fotos do Instagram ou confirme se recebeu alguma mensagem no Whatsapp. Quando finalmente avançar para o duche, é possível que deixe o telemóvel por perto para lhe dar música.

Repetimos esse gesto simples de pegar no telemóvel, em média, 85 vezes por dia. Em alguns casos, centenas de vezes. Para mandar mensagens. Chamar um Uber. Atualizar as stories do Instagram com imagens. Ouvir música no Spotify. Ver as quedas mais hilariantes ou os animais mais fofinhos no YouTube. Fazer uns engates no Tinder ou no Happn. Trocar umas fotos ousadas por Snapchat. Tirar uma selfie ou fotografar aquele prato irresistível. E, imagine-se, até para fazer chamadas. Ou, quem sabe, ler um artigo sobre a forma como os smartphones mudaram as nossas vidas.

Viciados na dispersão

Levamos o telemóvel para todo o lado, mesmo para os sítios onde nunca deveria ir. Vai connosco para a praia, onde o reflexo do sol pouco nos deixa ver. Vai connosco quando corremos, porque Deus nos livre dos nossos amigos no Facebook não ficarem a saber quantos quilómetros fizemos. Vai para o ginásio, #nopainnogain. Para o carro, mesmo quando os olhos deviam estar na estrada. E também para os concertos, para desgraça dos que ficam com a visão obstruída pelos braços no ar. Ainda se lembra da última vez que foi a um espetáculo sem sentir necessidade de tirar uma foto ou fazer um vídeo? Da última vez que jantou fora com amigos sem olhar para o telemóvel? Tornámo-nos viciados na dispersão. Esqueça o Homo sapiens; esta é a era do Phono Sapiens.

Toda esta obsessão não é inócua. Está a dar-nos cabo dos olhos, da coluna (já ouviu falar do "pescoço de SMS"?), das mãos - a revista médica "The Lancet" descreve o caso de uma mulher diagnosticada com 'whatsappite', um problema semelhante à tendinite provocado pelo uso excessivo desta app de mensagens. Está a minar a nossa capacidade de atenção e de orientação (usamos tanto o Google Maps e aplicações semelhantes que já não sabemos orientar-nos sem elas). Está a prejudicar o ciclo natural do nosso sono. A afetar-nos a memória. Segundo um estudo de Linda Helnkel, professora de psicologia cognitiva da Universidade de Fairfield, nos Estados Unidos, as pessoas que estão constantemente a tirar fotografias com o telemóvel têm maior dificuldade em recordar o que aconteceu. "Quando confiam na tecnologia para registar as suas recordações, isso pode ter um impacto negativo na capacidade de recordar as suas experiências". Estamos tão obcecados em documentar o nosso quotidiano que, tantas vezes, nos esquecemos simplesmente de viver o momento.

De tanto fotografar, esquecemo-nos de viver o momento

De tanto fotografar, esquecemo-nos de viver o momento

Foto Theo Wargo/Getty Images

Ainda que a comunidade médica hesite em classificar a obsessão com o telemóvel como uma dependência, a verdade é que já não conseguimos viver sem ele. Ficamos ansiosos quando a bateria começa a esgotar-se e não temos forma de a recarregar. Ressacamos sem ele por perto. E há até quem o sinta vibrar no bolso das calças, mesmo que esteja a segurá-lo na mão. O smartphone tornou-se o cigarro do século XXI, concebido usando a mesma psicologia que torna as slot machines viciantes, lembra Nir Eyal, autor de "Hooked" (Viciado).

Uma companhia inseparável

O fenómeno não é novo. Da imprensa à televisão, cada nova tecnologia foi recebida como algo que iria revolucionar os hábitos das pessoas e nem sempre com efeitos positivos. Há mais de dois milénios, Sócrates, o filósofo ateniense, considerava a escrita um hábito nefasto, porque enfraquecia a memória e o pensamento. Mas nunca ao longo da história estivemos tão dependente de um objeto: 90% das pessoas não se afasta do seu telemóvel mais de um metro durante o dia. Desbloquear o smartphone tornou-se o tique da nossa era.

E ainda que a tecnologia tenha permitido que estejamos mais próximos do que nunca (qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, está à distância de uma chamada ou de uma mensagem), vivemos um tempo paradoxal: ela está, ao mesmo tempo, a prejudicar as relações pessoais – vezes sem conta, quando estamos na companhia da família ou dos amigos, acabamos por não lhes dar a atenção devida, desviando-a para um ecrã. Ao tratarmos os telemóveis quase como se fossem pessoas, acabamos a tratá-las quase como se fossem máquinas. Não nos faria mal uns dias na costa vicentina, a aprender a servir-nos da tecnologia e a não deixarmos que ela se sirva de nós.