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Um milhão, uma protagonista inesperada (e outras histórias que marcaram a noite)

TIAGO PETINGA / Lusa

Esta terça-feira, o espetáculo Juntos por Todos angariou mais de um milhão de euros para as vítimas dos incêndios no centro do país, mas a noite foi além disso. O Expresso fez o resumo dos acontecimentos e desta vez aconteceu algo inédito: quem ouve também esteve atento à Língua Gestual Portuguesa

Nada seria possível sem as mais de 800 pessoas que trabalharam durante uma semana para montar o espetáculo. Ou sem as 14 mil pessoas que lotaram a maior sala do país — o MEO Arena, em Lisboa — na última noite. Mas a verdade é que há uma soma que se destaca de todas as outras. Até pode ser injusto destacar apenas um número do espetáculo Juntos por Todos, mas assumimos aqui um ponto: é necessário estabelecer uma hierarquia.

Numa noite que conseguiu juntar os três canais generalistas e grande parte das rádios nacionais para a produção e a transmissão, vale a pena falar começar pelo que realmente importa: foram recolhidos 1,153 milhões de euros para as vítimas dos incêndios que assolaram o centro do país na passada semana e a soma foi entregue à União das Misericórdias no final do espetáculo de beneficiência. Agora, que o mais importante foi feito — numa coligação que juntou artistas, profissionais de comunicação, personalidades diversas, um público entusiasta e uma vasta audiência para um programa de televisão — podemos então seguir para algumas histórias que marcaram o evento.

Sandra Bragança foi a estrela tímida da noite (e talvez até preferisse ter passado despercebida), mas acabou por tornar-se viral. Quem lhe deu a novidade da fama foi Sandra Faria, colega com quem trabalhou no decorrer do espetáculo Juntos por Todos e que descobriu os populares vídeos da intérprete na internet. Ao Expresso, é Sandra Faria quem fala e explica como decorreu a noite especial.

Longe da confusão do Meo Arena, foi a partir dos estúdios de RTP que a equipa de intérpretes mostrou à comunidade surda o que estava a acontecer. “Este serviço é essencial para a comunidade surda, que também tinha o direito de sentir o mesmo que os outros portugueses numa noite como a de ontem”, defende. “A comunidade surda também é solidária e também sofre como os demais. Decerto que também há pessoas surdas a sofrer com estes incêndios no centro do país.”

Intérprete profissional há sete anos, Sandra Faria explicou também o que mudou na última noite para o grupo de cinco intérpretes em funções. “O que aconteceu ontem é completamente fora da rotina, não costuma acontecer”, explica, lembrando que uma equipa como a que ontem deu voz aos que não ouvem “só é usada em programas mais extensos”. Normalmente o trabalho de intérprete de Língua Gestual Portugal (LGP) é “muito solitário, de frente para uma câmara a traduzir o que é dito”, mas as quase quatro horas de música obrigaram a alguns ajustes.

No espetáculo Juntos por Todos, a solidariedade e a entreajuda alastraram-se às instalações da RTP, com as colegas a darem dicas entre si. “Enquanto uma estava em frente à câmara, as outras estavam por trás a dar indicações”, a ajudar como podiam. A pressão era grande e o trabalho tinha de ser feito em coordenação com os técnicos para que tudo corresse pelo melhor. “Tínhamos de ter o tempo certinho para cada uma, para que não acusássemos o cansaço.”

Questões técnicas à parte, o que mais prendeu os telespectadores — que rapidamente reproduziram o que viram em vários vídeos disponíveis na internet — foi a performance de Sandra Bragança. A intérprete, descrita dentro da equipa como tímida, é mais expressiva à frente da câmara, mas esta não foi a primeira vez que isso aconteceu.

TIAGO PETINGA/ Lusa

“Nós já temos feito isso noutras ocasiões e começou a acontecer com mais frequência quando a RTP passou a disponibilizar o serviço de intérprete nos programas de entretenimento da manhã e da tarde”, conta, explicando o porquê da decisão. As intérpretes de LGP não podem cingir-se “a passar a mensagem apenas com recurso ao texto” e é preciso dar alguma vida ao que é transmitido à comunidade surda. “A nossa interpretação nunca é literal. É preciso compreender a mensagem e transformá-la no que for mais perceptível, dando ênfase”, não só através do corpo como também “da expressão facial ou dos movimentos”.

Sandra Bragança pode ter tomado a internet, mas o espetáculo Juntos por Todos contou com vários momentos fortes, que reproduzimos abaixo.

Uma piada mal-cheirosa

“Sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que acontece.” Salvador Sobral foi a última das vozes nacionais a subir ao palco do MEO Arena, mas as suas palavras rapidamente ganharam eco nas redes sociais (e não foi pelos melhores motivos) Depois de uma onda de indignação assinalável, o vencedor da Eurovisão acabou por reagir à polémica no Facebook, desculpando-se.

“Sempre falei duas vezes antes de pensar. Esta minha característica tem a sua parte boa e também a parte má”, começou por explicar Salvador, que prosseguiu com o pedido de desculpas público na rede social. “Ontem, infelizmente, reconheço que fui bastante inoportuno. Espero que esta triste intervenção não nos faça esquecer o passo que demos juntos, desde os músicos até vocês que contribuíram para ajudar aqueles que estão em sofrimento neste momento, que são o mais importante no meio de tudo isto”, escreveu reafirmando que pedia desculpa e que não era sua intenção ofender ninguém.

Marcelo e o poder da união

TIAGO PETINGA/ Lusa

Num espetáculo em que atuaram mais de 20 artistas — Agir, Amor Electro, Ana Moura, Aurea, Carlos do Carmo com Camané, Carminho, DAMA, David Fonseca, Diogo Piçarra, Gisela João, Helder Moutinho, João Gil com Luís Represas, Jorge Palma com Sérgio Godinho, Luísa Sobral, Matias Damásio, Miguel Araújo, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Raquel Tavares, Rita Redshoes, Rui Veloso e Salvador Sobral —, o Presidente da República também marcou presença e o chefe de Estado aproveitou para deixar uma mensagem aos portugueses.

Elogiando a forte manifestação de solidariedade do povo português, o Presidente da República lembrou que Portugal é “uma nação muito unida e antiga”, com nove séculos de história, e que os seus habitantes são dotados de grande capacidade de resistência. “Os portugueses merecem tudo, são excecionais”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa. Em declarações à SIC, Marcelo defendeu que os portugueses são, enquanto nação, capazes de “dar a volta” às contrariedades, numa mensagem de esperança para o futuro.

O lado político de Palma

No espetáculo de solidariedade Juntos por Todos, Jorge Palma e Sérgio Godinho optaram por interpretar ‘Portugal, Portugal’ e ‘Primeiro Dia’, mas a mensagem do duo — o terceiro a actuar na Meo Arena, depois de Carlos do Carmo e Camané e de João Gil e Luís Represas — não se cingiu à música.

TIAGO PETINGA/ Lusa

Na entrevista que se seguiu à atuação, Jorge Palma pediu para que as autoridades apostassem na prevenção, defendendo que é nisso que “se deve gastar todo o dinheiro que for preciso”. Com estas palavras, o músico português fez uma das intervenções mais dirigidas politicamente, mas não foi a única.

Sapatos vermelhos e voz ativa

Foi depois de subir ao palco para cantar que Rita Redshoes aproveitou para se assumir como uma voz ativa na defesa da verdade. Na sequência da tragédia de Pedrógão Grande, a intérprete considera necessário “apurar responsabilidades políticas e individuais”, pois “só isso devolve o respeito pela memória dos que não ficaram cá para viver o resto das suas vidas”.

Lembrando que muitas famílias ficaram “destroçadas” depois dos incêndios da última semana, a cantora e compositora disse ainda que “como cidadãos, temos de exigir justiça por essas pessoas”. Rita Redshoes aproveitou ainda a palavra para elogiar “o amor e a generosidade” de todos os que ajudaram a montar espetáculo em tão pouco tempo, assim como “a bondade” de todos os cidadãos que têm prestado a sua solidariedade para com as vítimas.