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Suspeitos de tráfico de pessoas na Segurança Social cobravam €10 mil por imigrante

marcos borga

Grupo de funcionários da Segurança Social é suspeito de lucrar há pelo menos dois anos com a criação de números de beneficiários fictícios para imigrantes em situação ilegal. Judiciária fez 12 detenções

O esquema montado por um grupo de seis funcionários do Núcleo de Gestão do Cliente do Instituto da Segurança Social durou mais de dois anos e parecia ser quase perfeito. Em poucos minutos criavam um número de beneficiário fictício aos seus clientes, quase todos imigrantes em situação ilegal provenientes do sudoeste asiático que nunca haviam trabalhado em Portugal.

O registo na base de dados da Segurança Social era alterado, como se os imigrantes já trabalhassem no país há alguns anos com um contrato legal, sendo depois o processo de autorização de residência em Portugal selado sem levantar qualquer suspeita. Ou como explica a Polícia Judiciária em comunicado, “o modus operandi consistia na manipulação do sistema informático da Segurança Social, por meio da criação e alteração de registos na base de dados, atribuindo números de identificação da segurança social fraudulentos a cidadãos estrangeiros”.

Em contrapartida, os imigrantes que entravam neste esquema, mal arranjavam um emprego — quase sempre na restauração mas também em herdades de culturas intensivas —, passavam a ser obrigados a dar uma parte elevada do salário para pagar os serviços ilegais. Os corruptores portugueses, ajudados por redes de tráfico de pessoas espalhadas por países como a Índia, o Paquistão, o Nepal e o Bangladesh, cobravam perto de dez mil euros por cada imigrante que ajudavam a colocar no mercado de trabalho. Terão sido perto de 500 as pessoas que alinharam no esquema.

marcos borga

Tudo terminou há poucas horas, quando a Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da Polícia Judiciária deteve seis portugueses e ainda seis estrangeiros (oriundos daqueles países do sudoeste asiático) por eventuais “crimes de corrupção passiva e ativa para ato ilícito, abuso de poder, falsidade informática e falsificação de documentos”. A denúncia partiu do próprio Instituto da Segurança Social.

Nesta “Operação Social Number”, que levou à realização de 26 buscas domiciliárias e 22 não domiciliárias, entre elas em várias empresas e no Centro Distrital da Segurança Social de Lisboa, a PJ detetou perto de um milhão de euros em contas bancárias dos suspeitos. “Estamos a falar de traficantes de pessoas e de redes de associação criminosa transnacional de apoio à imigração clandestina com vários intermediários”, sublinha uma fonte da Polícia Judiciária.

A investigação da UNCC ainda não está fechada e segue o rasto do dinheiro. Só nas buscas foram encontrados 50 mil euros em dinheiro. Os suspeitos vão ser presentes a tribunal para serem determinadas as medidas de coação.