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Relatório do SIRESP fez copy paste de recomendações

Nuno Botelho

Reduzir o número de grupos de conversação, evitar fazer chamadas privadas, usar comunicações curtas e objetivas: estas são algumas medidas repetidas três vezes consecutivas ipsis verbis em relatórios do SIRESP como a receita para vários problemas

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

O SIRESP repetiu, pela terceira vez consecutiva, o mesmo texto com as recomendações para que a rede funcione melhor para a próxima vez. Apesar dos alertas da Autoridade Nacional da Proteção Civil sobre falhas graves na rede, o SIRESP admitiu apenas saturação. E, perante esse diagnóstico, as soluções apontadas são as mesmas do passado que, como se verificou, não tiveram qualquer efeito.

As recomendações foram feitas num relatório sobre as falhas do sistema nos incêndios do Sardoal do ano passado, segundo documento datado de 24 de outubro de 2016. O mesmo texto foi repetido no relatório de 1 de março de 2017, noticiado na semana passada pelo Expresso. E aparece de novo no relatório sobre o que aconteceu nos incêndios do Sardoal, divulgado esta terça-feira pelo Governo.

rui duarte silva

Em todos os relatórios, os parágrafos são os mesmos e remetem para quatro medidas: “sendo necessário evitar que o crescimento do número de utilizadores se traduza em degradação da qualidade de serviço, são apresentadas diversas recomendações no sentido de melhorar os procedimentos de comunicação e para as quais é necessário sensibilizar as entidades utilizadoras:

- Em situações de emergência, com grande concentração de utilizadores, é indispensável reduzir o número de grupos de conversação em operação;

- Utilizar algumas das funcionalidades características da rede TETRA para otimização dos seus recursos (atribuição de prioridades, definição de grupos de conversação críticos, uso de listas de scanning, storm plans, etc);

- Evitar efetuar chamadas privadas em situações de emergência;

- Assegurar a disciplina nas comunicações, destacando-se a utilização de chamadas curtas e objetivas e a utilização da rede apenas em caso justificado”.

Nuno Botelho

Isto mostra que, incêndio após incêndio, a receita mantém-se. Mas será suficiente? E, afinal, o que se passou em Pedrógão Grande foi apenas um problema de saturação de rede? Esta quarta-feira, no Parlamento, o primeiro-ministro reconheceu que há divergências inexplicáveis nas várias versões sobre as falhas do sistema de comunicações de emergência SIRESP, dadas pelo operador e pela ANPC. E a líder do BE, Catarina Martins, pressionou precisamente o Governo para que sejam rapidamente retiradas lições para que não volte a haver descoordenações.

Na verdade, as falhas no SIRESP não são de agora. Já em 2014, o presidente do Conselho Português de Proteção Civil (CPPC), João Paulo Saraiva, tinha alertado que se não tivesse havido falhas no sistema de comunicações de emergência podia ter-se evitado a morte de dois bombeiros em Carregal do Sal. “Se o sistema funcionasse, os gritos de um dos intervenientes para tentar alertar aquela equipa não seriam gritos, seriam comunicações via rádio. E os meios aéreos também não tinham contacto, não tinham forma de alertar aquela equipa”, disse. “O sistema de comunicações não acautela a segurança dos que diariamente trabalham em proteção civil nem das populações em geral”, alertou o CPPC em comunicado.