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Como nasceu a ideia do Concerto Solidário desta terça-feira à noite

Salvador Sobral é um dos artistas que irá atuar no MEO Arena

d.r.

Vasco Sacramento deitou-se no sábado dos incêndios impressionado com o que vira nas televisões e acordou no domingo com mensagens de pânico no telemóvel. Era-lhe impossível ficar quieto e assim nascia o movimento que desemboca no esgotadíssimo concerto desta terça-feira, que todas as televisões e rádios vão transmitir

O primeiro sinal exterior de que algo poderia estar para acontecer deu-o o próprio Vasco Sacramento, 39 anos, promotor de concertos, responsável pela Sons em Trânsito, quando, às 20h47 de domingo, 18 de junho, escrevia na sua página de Facebook o que lhe ia na alma.

Impressionado, Vasco começava por dizer que na manhã daquele domingo não conseguira “ficar parado com as notícias e as imagens que chegavam de Pedrógão Grande”. “Arregacei as mangas e desafiei a MEO Arena, algumas empresas parceiras e muitos dos principais artistas nacionais. Não tive uma única resposta negativa, para além daqueles que, infelizmente, não dispunham de agenda. Dia 27, teremos um concerto com mais de 20 artistas e transmitido em direto pela RTP, que também se associou imediatamente. Obviamente que ninguém vai ganhar um tostão com isto e todas as receitas obtidas reverterão para o apoio às vítimas e à reconstrução das áreas afetadas. Mais informações nas próximas horas. Agora é preciso encher a MEO Arena”.

d.r.

Era apenas o começo de uma empenhada e emocionante iniciativa. Logo na manhã do dia seguinte o Expresso chega à fala com Vasco, para que fosse contada a história de quanto se estava a acontecer. Ciente da delicadeza sempre contida numa iniciativa deste tipo, Sacramento opta naquele dia, como nos dias seguintes, por não falar. Não pretendia assumir qualquer espécie de protagonismo suscetível de ser mal interpretado. Interessava-lhe apenas assegurar a realização do concerto e nada fazer para colocar qualquer espécie de grão de areia na engrenagem.

Hoje é já com alívio que, por fim, se dispõe a contar como tudo aconteceu. Se no sábado do início da tragédia foi dormir já vivamente impressionado, no domingo apercebe-se da troca de mensagens entre pessoas que com ele trabalham habitualmente. “Começo a perceber que há amigos comuns desaparecidos, outros com as casas destruídas e sinto a necessidade de fazer algo”.

A primeira iniciativa é um telefonema para os responsáveis do MEO Arena. “Para saber se tinha ajuda e se estariam comigo. Disseram imediatamente que sim”, conta.

Começava então a colocar-se o problema da logística necessária a uma iniciativa desta dimensão. Hoje estarão a trabalhar na sala de concertos lisboeta mais de 800 pessoas. Todos solidários. Ninguém vai receber um cêntimo. E estarão lá técnicos de todo o tipo, profissionais de incontáveis áreas, porque, sublinha Vasco Sacramento, “há na verdade um imenso trabalho acrescido, resultante do facto de o concerto ser transmitido por todas as televisões”.

E esse é outro dos grandes motivos de satisfação deste neto de Mário Sacramento, um dos grandes nomes da história contemporânea de Aveiro, médico, resistente antifascista, várias vezes preso pelo regime de Salazar. Vasco, que naquele primeiro comentário no Facebook ainda só fala na RTP, tinha a grande ambição de reunir todas as televisões.

“Nunca imaginei que assumisse estas proporções. Achava quase impossível ter todos os canais de televisão a transmitir, mas fomos ainda mais longe ao conseguir reunir também as rádios, todos unidos neste esforço solidário”, acrescenta.

Depois, mas muito importante, havia a questão dos artistas. Vasco Sacramento representa alguns dos principais nomes nacionais, com Ana Moura à cabeça. Depressa percebeu que os Amor Electro estavam a tentar colocar de pé algo de parecido e logo estabelece contacto, para unir esforços.

É assim que na noite desta terça-feira será possível ouvir artistas tão diversos como Agir, Amor Electro, Ana Moura, Aurea, Camané, Carlos do Carmo, Carminho, D.A.M.A, David Fonseca, Diogo Piçarra, Gisela João, Hélder Moutinho, João Gil, Jorge Palma, Luísa Sobral, Luís Represas, Matias Damásio, Miguel Araújo, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Raquel Tavares, Rita Redshoes, Rui Veloso, Salvador Sobral e Sérgio Godinho.

O cartaz ficou concluído em apenas duas ou três horas. Uma das consequências desta rapidez foi a impossibilidade de integrar no alinhamento muitos outros artistas que entretanto se disponibilizaram. “Ficaram de fora centenas de artistas, porque seria inviável estar a pensar num espetáculo com muito mais do que os 25 que vão subir ao palco”. Ainda assim o espetáculo deverá durar umas três horas, pelo menos.

Com o nome “Juntos Por Todos”, a iniciativa é coproduzida pela Sons em Trânsito, Nação Valente, Meo Arena, Blueticket, RTP, SIC e TVI. Conta com a imprescindível generosidade e solidariedade de numerosas empresas e parceiros. O evento conta ainda com o contributo das editoras Sony Music Portugal, Universal Music Portugal, Valentim de Carvalho e Warner Music Portugal na sua divulgação artística e o Alto Comissariado da Fundação Calouste Gulbenkian.

As verbas arrecadadas serão entregues à União das Misericórdias de Portugal. Primeiro, explica Vasco, porque não se queria “beneficiar apenas um concelho ou uma situação específica”. Depois porque são as misericórdias quem está “no terreno a fazer o levantamento das necessidades, além de estarem a gerir o fundo de meio milhão de euros atribuído pela Fundação Gulbenkian”.

Ao comentar esta terça-feira tudo quanto se tem estado a passar nos últimos dias, Vasco Sacramento diz ser ainda cedo para se perceber até que ponto estes acontecimentos estão a transformá-lo. “Estou ainda tão anestesiado com tudo e com a montagem desta operação, que não dá para perceber de que forma é que isto nos afeta ou transforma”, disse ao Expresso.

Sabe, porém, que organizar espetáculos “é sempre algo de efémero”. “Aqui sabemos que estamos a contribuir para algo mais sólido, mais permanente. Os problemas são tão vastos, que se conseguirmos ajudar a que uma casa se erga, que um posto de trabalho se mantenha, já sentiremos que valeu a pena”, conclui.