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Sociedade

Investigador + clínico = Inovação

Um exame 
à investigação médica 
em Portugal permitiria perceber 
que se inova 
como nunca.
Para, no fim, ganhar 
o doente

Mehmed Zelkovic

Levar os médicos para os laboratórios, os laboratórios para dentro dos hospitais e a indústria a trabalhar com eles. A fórmula para a investigação

Translacional. Este é o conceito que se tem de perceber antes de se falar em Economia do Conhecimento em Saúde. O melhor é começar este texto pela explicação de investigação de translação. É a investigação que faz a ponte entre a investigação básica — a de laboratório, aquela que nos habituamos a conhecer — e a clínica. A ideia é transportar mais rapidamente para o doente os benefícios das descobertas que são feitas no laboratório. Resulta, portanto, numa aplicação prática que, em última análise, deverá melhorar a vida do doente.

É feita de pessoas para pessoas. Carmo Fonseca, presidente do Instituto Molecular de Lisboa, prende-se nesse aspeto: “Quando falamos em conhecimento e em economia do conhecimento temos que pensar que o conhecimento é produzido por pessoas.” Para a investigadora faltam investigadores, mas acima de tudo faltam médicos a fazer investigação. “Está demonstrado que médicos que tiveram uma formação científica são melhores médicos e têm melhores resultados no tratamento dos seus doentes com menos custos para o SNS (Serviço Nacional de Saúde). São médicos mais eficazes porque fazem uma avaliação crítica das novidades do conhecimento.” E este treino científico existe pouco na formação médica. Para colmatar esta falha bastava “incluir um complemento científico no internato médico. Os médicos que têm uma grande motivação de fazer investigação têm uma grande dificuldade em conciliar o número de horas que precisam de estar a fazer consultas ou cirurgias com o ter horas que possam dedicar à investigação”.

André Albergaria, investigador do i3S e coordenador de uma unidade de translação, concorda e acrescenta que “falta incorporar investigação clínica de uma forma sinérgica e positiva no SNS”. Alerta “que não quer dizer que o SNS esteja dependente da investigação clínica”. Apenas têm que se “criar condições para que as duas partes possam funcionar de forma eficiente.” Embora reconheça que há muitas mudanças organizacionais a fazer, defende que “a indústria precisa desta inovação junto da academia e de apostar em estruturas organizacionais que permitam aos clínicos fazer investigação sem que o serviço público seja afetado”.

Assim como os clínicos pensam no doente, também a investigação em saúde se faz sempre a pensar no doente. O seu bem-estar é o primeiro retorno. E, por isso, a investigação deve ser feita junto dele. Nem que seja apenas o processo da experimentação e dos ensaios clínicos, onde se vai perceber se aquela inovação é realmente relevante para os doentes. Mas, aí, já estão demasiado longe, em distância física, da primeira parte da investigação.

Todos os investigadores contactados pelo Expresso reconheceram que Portugal tem ótimos hospitais e centros de investigação. Mas nenhum a funcionar em total sinergia. Carmo Fonseca dá o exemplo da Fundação Champalimaud, privada, e diz que se deve juntar ao serviço público. Até porque, acrescenta, “os investigadores não médicos têm um enorme prazer em trabalhar com médicos que têm uma visão diferente e trazem problemas muito práticos. E os investigadores gostam de poder levar o seu conhecimento e a sua investigação à aplicação última. Que é, obviamente, melhorar a saúde das pessoas”.

Mas fazer investigação centrada no doente é mais do que saber das suas patologias. Segundo Helena Canhão, médica reumatologista que tem a coliderança do Patient Innovation, é também “dizer que ele tem voz e que participa no processo, quer partilhando as suas necessidades quer participando no processo de desenvolvimento, teste e melhoria das inovações desenvolvidas”. E é isto que o Patient Innovation faz: “inovação desenvolvida pelo utilizador”. Nasceu na Universidade Católica e já corre o mundo ultrapassando algumas barreiras.

Helena Canhão explica que “não é aceite ainda de forma geral que os doentes e os cuidadores não profissionais inovem e desenvolvam soluções para lidar com problemas relacionados com a sua saúde. Por outro lado, frequentemente os doentes inovam mas a solução fica em casa — como não têm a motivação de vender, não divulgam nem difundem”. E, por isso, a médica e o investigador Pedro Oliveira desenvolveram a plataforma Patient Innovation “para a partilha aberta de soluções que cumprem os termos e serviços e são sujeitas a um screening médico antes da publicação online”.

O conhecimento não se troca só nas salas de aulas ou dentro dos laboratórios. Pode ser — aliás, já é — um bem com um valor de mercado. Seja movida por novos conhecimentos, medicamentos, instrumentos, softwares ou práticas médicas. Mas quase sempre é o fruto do trabalho das equipas multidisciplinares. Os quatro investigadores contactados reconhecem que esta é a única forma de haver desenvolvimentos e de se ter uma posição competitiva no cenário mundial.

Jorge Lima, investigador do i3S, que faz parte da unidade dedicada à translação, lembra que agora na inovação e investigação valoriza-se cada vez mais colaborações com a indústria farmacêutica e biotecnológica. “Se se conseguir demonstrar que a investigação que se está a fazer tem um interesse e uma aplicação industrial isso também é muito bem-vindo. Ou seja, aposta-se numa investigação mais aplicada. Nomeadamente na avaliação da investigação que tem potencial de produto ou para a indústria.” Isto é, na já falada translação. Na sua unidade do i3S, a ligação clínica é possível porque há “muito boas relações com médicos do São João, IPO e do Santo António”. Depois naquela unidade vão tendo um contacto muito próximo com a indústria. Com isso conseguem “conjugar ciência, clínica e indústria tendo projetos que respondem à necessidade de todos”.

Jorge Lima resume, explicando o que ele e André Albergaria fazem: “O investigador consegue ter financiamento para uma área em que está interessado, o clínico tem uma pergunta concreta à qual se dá resposta, a indústria tem uma necessidade para a qual procura resposta.” E assim o doente ganha com acesso a mais inovação, a novas terapêuticas.

Armazém retalhista para o mundo do conhecimento

Marca Portugal confunde-se normalmente com calçado e vinhos. O paradigma está a mudar e começa-se a levar saúde

Na década em que as exportações em saúde crescem exponencialmente é preciso dar consistência à marca Portugal. Porque mais do que produtos é preciso exportar conhecimento. Joaquim Cunha, diretor-executivo do Health Cluster Portugal, simplifica e desmistifica, de forma perentória: “Este conhecimento é transacionável”.

E exemplifica: “Quando as nossas universidades celebram contratos com entidades externas, estão a exportar conhecimento. Quando há ensaios clínicos em Portugal, na sua maioria a pedido de empresas internacionais, estamos a exportar investigação e conhecimento”.

Um bom supermercado
E se o fenómeno é recente em Portugal, lá fora intensificou-se “a multidisciplinaridade que o assunto impõe” e fez com que os grandes, da indústria farmacêutica ou dos dispositivos médicos, começassem “a ir às compras”. “Vão às compras por todo o mundo. Vão às universidades, aos institutos de investigação, às startups e aos spin offs.” É um submercado e, segundo Joaquim Cunha, para o qual o país está cada vez mais preparado.

Mudando ritmos e infraestruturas “as universidades e os institutos de investigação passaram a cuidar deste assunto de forma profissional ou quase profissional. Criaram gabinetes cuja única função é olhar para fora.” Fazem-no como o departamento comercial de uma empresa o faz. Querem “colocar-se visíveis no radar de grandes companhias. Criar mais startups e spin offs que funcionam como veículos de promoção”. Estão interessados em vender este conhecimento que cresceu em Portugal e que voa lá fora.

É assim a indústria da saúde agora. Joaquim Cunha diz que na maioria das vezes apenas 30% de um medicamento novo é feito em laboratórios próprios, 70% são compras e Portugal é um bom supermercado, ainda com potencial de crescimento.

Opinião: As 1001 noites, a inovação e o paciente zero

DAVID MARÇAL
Bioquímico, 
Ciência Viva

Imaginemos companhias aéreas alternativas que prometiam transportar pessoas em tapetes voadores, numa “experiência das 1001 noites”. Ou companhias que, em alternativa aos aviões convencionais, ofereciam um voo individualizado, com asas feitas de penas e folhas de bananeira coladas com resina de pinheiro a canas de bambu. Se alguém perguntasse pela eficácia e segurança, respondiam com a antiguidade da prática e com depoimentos de amantes da natureza, acrescentando que os aviões convencionais também caem. Imaginemos que essas companhias conseguiam convencer os políticos a aprovar leis que aceitavam os brevês alternativos. E, mais ainda, conseguiam isentar de IVA as viagens em tapetes voadores ou no “modelo Ícaro”. Pois foi isto mesmo que sucedeu recentemente em Portugal com as terapias alternativas. Em Espanha, o Colégio de Médicos de Madrid acabou com os cursos de terapias alternativas, por falta de base científica. Já antes as universidades de Valência e Barcelona tinham fechado cursos de homeopatia. Entre nós, permitem-se cursos de fantasia e dão-se favores fiscais a tratamentos baseados em magia.

CARLOS MOEDAS
Engenheiro civil, 
Comissário europeu

0. Este número, matematicamente, representa um conjunto vazio; mas em Saúde Pública é uma das primeiras preocupações das autoridades: encontrar o paciente com que tudo começou — o paciente zero. Hoje em dia, outro significado se impõe nas políticas de desenvolvimento. Zero novas infeções. Zero discriminação. Zero mortes associadas. No âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, estas três ideias-chave são aplicadas ao combate da epidemia do VIH/SIDA. Contudo, esta ambição pode e deve ser incorporada na prevenção e tratamento de outras patologias. Estou a pensar nas doenças raras e tropicais negligenciadas, nas patologias derivadas da resistência antimicrobiana e nas doenças ligadas ao subdesenvolvimento. O programa Horizonte 2020 já contribuiu com mais de €2 mil milhões para investigação na Saúde — e deverá chegar aos €7,5 mil milhões até 2020. Quando o surto de ébola ou o vírus Zika proliferaram à escala global, percebemos que o mundo impele-nos a reagir. Esta proatividade e reatividade permitiram-nos disponibilizar €1,2 mil milhões no pico da epidemia do vírus ébola. Nos dias de hoje, impõem-se novas soluções. Alternativas que respondam a situações de emergência, mas também opções que se ajustem à realidade dos pacientes, aos seus estilos de vida, aos seus perfis genéticos.

AFONSO DUARTE
Investigador, 
Pres. Comissão da Economia do Conhecimento do HPP

A inovação é um motor de criação de conhecimento, riqueza e emprego. No sector da Saúde, ganha ainda mais relevância, com impacto na qualidade de vida dos cidadãos e bem-estar social. A comissão para a Economia do Conhecimento do Health Parliament Portugal foi desafiada para desenhar propostas que maximizem o impacto do conhecimento gerado na área da Saúde, na Economia e na Saúde Pública. Estamos certos de que a capacitação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) enquanto demonstrador de Inovação a diferentes níveis (por exemplo a nível tecnológico e organizacional) levará ao aumento de ganhos na saúde das populações, melhorando o acesso aos cuidados de saúde e alavancando o crescimento económico. Neste contexto, propomos o investimento político e financeiro na criação de um demonstrador de Inovação, no âmbito do SNS, que seja responsável pelo suporte ao teste e difusão de soluções inovadoras e o desenvolvimento de métricas que apoiem a definição das áreas prioritárias de investimento público.

30 de junho: O plenário das recomendações

É já na próxima sexta-feira 
o plenário final do Health Parliament Portugal (HPP). 
Este projeto ímpar reuniu, 
ao longo de quase seis meses, 
60 participantes que trabalharam exaustivamente em cada um dos temas a que se propuseram: Barreiras aos Cuidados de Saúde; Economia do Conhecimento; Ética em Saúde; O Doente no Centro da Decisão e Tecnologias de Informação em Saúde e Saúde Mental. No Palácio da Ajuda, na sala dos embaixadores, onde normalmente os governos tomam posse, serão apresentadas as recomendações para o futuro 
da saúde no país decorrentes 
desta reflexão intensa. 
A abertura do evento ficará 
a cargo do secretário de Estado 
dos Assuntos Parlamentares, 
Pedro Nuno Santos. As comissões do Parlamento da Saúde terão 
o seu momento para apresentar 
o fruto do seu trabalho, seguindo-se um período de comentários por parte do público presente — 200 personalidades do sector da saúde. É o remate de um projeto 
que nasceu em Bruxelas. Portugal foi o terceiro país 
do mundo a acolhê-lo.

Textos originalmente publicados no Expresso de 24 de junho de 2017