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20 anos de Harry Potter. Fugir para um mundo irreal onde a felicidade é magia

Correm com vassouras, confrontam-se em duelos mágicos e fazem poções. Esta segunda-feira, assinala-se o 20.º aniversário da publicação de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”

Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Texto

Jornalista

André de Atayde

André de Atayde

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Jornalista

Tiago Pereira Santos

Matilde chegou sem ninguém notar. Aproximou-se devagarinho e ficou a um canto, entre a sombra e o sol quente de uma tarde junto ao Tejo. É mais alta do que as outras meninas de 11 anos. Os óculos escondem o olhar curioso e vivo, ora fixado na calçada ora no jogo de quidditch ali mesmo à frente. A vontade imensa de se atirar para o jogo, voar nas vassouras e correr atrás da bola só é travada pela vergonha e timidez (mas isso há de passar rapidamente).

“Atira a bola, Marta.
Manda para ele.
Corre. Vai lá. Vai lá.
Não te deixes apanhar!
Atira agora.
Golooooooooooooooooo!”

No campo improvisado por baixo da pala do Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, em Lisboa, está instalada a confusão. Uns correm para a direita, outros para a esquerda. Há quem corra atrás das bolas azuis e quem queira apanhar o esférico castanho. Depois, ainda existem os guarda-redes (que defendem três arcos, não uma simples baliza) e os que tentam apanhar o lenço. O quidditch, o jogo mais popular do universo de Harry Potter, tem milhares de fãs muggles (seres não mágicos), e trazê-lo para a realidade de quem não sabe lançar um feitiço ou fazer uma poção não é nada fácil. É certo que as vassouras não voam nem as bolas pairam no ar. Mas no mesmo campo, com apenas duas equipas, mistura-se o andebol, o jogo do mata e o da barra do lenço.

Matilde Cristóvão está ali à beira. Vem com os pais. A saia de pregas a bater ligeiramente por cima do joelho, a camisa branca, a gravata amarelada e vermelha, a capa negra e a varinha em punho não deixam margem para dúvidas: quer mergulhar no mundo mágico de Harry Potter (dentro do possível e real, claro).

Os Estudantes de Hogwarts são um grupo de fãs do universo criado pela escritora J.K. Rowling. No Facebook, o grupo Harry Potter Portugal - Clube de Fãs tem 4216 membros. Foi assim que começaram a partilhar o interesse em comum. Das redes sociais para a muito real organização de eventos foi um instante. Hoje em dia, conseguem reunir-se a cada dois meses com atividades diferentes e secretas. O quidditch é uma delas.

“Parem. Esperem aí um bocadinho”, alerta um dos jogadores, quando se apercebe da presença de Matilde.

As pessoas nunca vêm só para ver”

O salão nobre da Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts é junto ao Pavilhão de Portugal. Não há velas nem mesas e bancos corridos como nos livros. E fantasmas também não. É ali que recebem os novos alunos (entenda-se, aqueles que participam pela primeira vez nos eventos). É feito um teste com 27 perguntas. No final, é atribuída uma equipa.

Gryffindor, Hufflepuff, Ravenclaw ou Slytherin. Qualquer um tem equipa e luta por ela. À semelhança do que acontece na saga do feiticeiro, em cada evento, ganha-se pontos e, no final do ano, há vencedores e vencidos. Quando os alunos chegam, pouco ou nada sabem do que os espera naquele dia – podem ser aulas, quidditch, duelos… Em média, participam nos encontros 50 a 60 pessoas. No evento de janeiro, estiveram mais de 100 pessoas a entrar no mundo mágico.

“As pessoas nunca vêm só para ver. Sentem-se bem e acabam sempre por voltar. Há um espírito de equipa muito forte”, considera Miguel Nunes, 24 anos. É o diretor da escola e quem começou com as atividades. “Os eventos, que acontecem a cada dois meses, terminam por volta das 17h ou 18h, mas temos sempre umas pessoas que ficam até às tantas da noite a fazer duelos”, acrescenta.

Há testes, apontamentos, matéria e tudo mais que uma escola têm. É preciso estudar um pouco até porque responder corretamente pode dar pontos à equipa. Ana Mateus, 25 anos, é professora de poções e adivinhação.

Ao pescoço exibe uma snitch dourada (a bola brilhante com asas que ao ser apanhada marca o fim do jogo de quidditch). O cabelo está amarrado com um laço verde-esmeralda, a cor da casa a que pertence, os Slytherin. O vestido escuro contrasta com a pele clara. Chegou como aluna, hoje é uma das responsáveis. Embora já não aproveite os eventos da mesma forma, é na preparação das aulas que está o gozo. Sendo cenógrafa de profissão, o jeito para criar e construir com as próprias mãos é-lhe quase inato.

“A mandrágora, por exemplo, foram 30 horas de trabalho. Na altura em que era aluna, sentia um bocadinho falta de que a aula fosse mais interativa, o professor estava ali a despejar matéria e eu a apontar. Quando passei a dar as aulas, quis mudar isso. Que graça é que tem explicar que a mandrágora se puxa pelos cabelos para transplantar? É muito mais giro fazer”, conta Ana. “Mesmo que seja tudo controlado, é importante que as pessoas possam fazer e mexer. Nós somos os verdadeiros mágicos, que fazemos com que na realidade tudo aconteça”, comenta.

Como são (na realidade) feitos todos estes ingredientes para poções, questionámos a professora Ana. “Isso não posso dizer, senão a magia perde-se”, responde logo. Assim, só podemos deixar uma pista: é preciso criatividade e longas horas de trabalho.

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O que é dado nas aulas não é inventado. Nada disso. As disciplinas fazem realmente parte do universo de Potter: defesa contra as artes das trevas, encantamentos e herbologia, por exemplo. A preparação é crucial e nenhum professor chega ali a despeja baboseiras. Além da pesquisa em sites especializados sobre a saga, leem histórias de outros fãs e ainda criam novos feitiços ou animais. A imaginação está sempre de mãos dadas com aquilo que já está escrito.

“O Rúben é ótimo nos apontamentos, prepara quase a parte teórica toda”, confidência Ana.

Sabe o que é um pixie? E um sem-forma? Ou então um dente-de-víbora peruano e um dragão norueguês? Provavelmente, não. Rúben Baptista, 23 anos, sabe bem o que são, o que fazem, onde se encontram e qual o nível de perigo de cada um deles. E quando lhe perguntam, responde quase sem hesitar. É ele que dá as aulas de herbologia e criaturas fantásticas.

“Todos já lemos os livros e vimos os filmes. A Ana já leu os livros várias vezes e eu já joguei os jogos todos. Há coisas que estão num lado e não estão no outro. Tentamos conciliar tudo. E depois, cada uma das pessoas do staff é especialista em alguma coisa: a Ana é excelente em poções, o Rúben é extremamente bom em herbologia, eu sou muito bom na parte dos duelos, feitiços e encantamentos. Usamos o melhor de tudo e passamos para a realidade”, explica Miguel.

Uma paixão que atravessa gerações

Há um ano, Matilde descobriu o Harry Potter. A história é bonita: foi ao Porto visitar a família e numa passagem pela livraria Lello, bem no centro da cidade, comprou a “Pedra Filosofal”. Já leu os primeiros cinco livros (2291 páginas, na edição portuguesa). Só lhe faltam os últimos dois, onde as grandes descobertas acontecem.

É nova. Demasiado nova para saber o que significa contar os dias para a publicação de um novo livro ou a estreia de um novo filme. Faz parte de uma nova geração de fãs. “A festa de anos dela foi toda sobre o Harry Potter, fizemos uma série de adereços e a capa que ela traz fui eu que fiz”, conta a mãe Anabela Franqueira, 47 anos.

Descobriu os eventos online. Sabia que iria acontecer e pediu mesmo muito aos pais para passar por lá. Mesmo que fossem só uns minutinhos. Matilde é Gryffindor. E, tal como os outros recém-chegados, tem direito a uma pequena cerimónia bem ao jeito dos filmes.

“Matilde Cristóvão…. Gryffindor!”, gritam.

Rosário Bonito, 52 anos, leva Matilde pelo braço até à nova equipa. Apresenta aos companheiros e descansa os pais da menina. “A vergonha já lhe passa. Num instante, já está a participar. É sempre assim”, assegura. Também ela é mãe e sabe como descansar aqueles que deixam ali os filhos por umas horas.

Matilde com a mãe, Anabela Franqueira, e o pai, Nuno Cristóvão

Matilde com a mãe, Anabela Franqueira, e o pai, Nuno Cristóvão

Também Rosário não faz parte daquela que é habitualmente a geração do jovem feiticeiro. É mais velha, mas também tem uma história bonita: quando surgiram os leitores de DVD, comprou um lá para casa com dois filmes, a “Branca de Neve” e “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (primeiro filme da saga, que estreou em 2001). A filha Ana, que agora é a professora de poções, era miudinha mas apaixonou-se. Rosário só viria a perceber esse amor mais tarde, quando a filha a desafiou a vir aos eventos.

“Já fazia parte da organização, quando num dos encontros faltou uma pessoa. Lembrei-me da minha mãe. Perguntei-lhe se queria vir e disse que sim. Gostou tanto do dia que se pôs a ver todos os filmes e ler os livros. Foi ficando”, recorda Ana.

Rosário anda sempre pelo Salão Nobre. Com a capa dourada sobre os ombros, anda de um lado para o outro a garantir que tudo funciona. Lá está, é um pouco a mãe de todos eles.

Cada vez é mais comum os pais também alinharem nos jogos. Vêm deixar os filhos e, curiosos, fazem o teste das equipas. Em vez de ficarem ali parados à espera, juntam-se e ajudam a ganhar pontos. Há uns anos, uma família vinha trazer apenas o mais velho para o evento. Há dois meses, já mãe, pai, mais velho e mais novo andavam a correr no campo de quidditch.

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Miguel Nunes, 24 anos
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Miguel Nunes, 24 anos

Ana Mateus, 25 anos
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Ana Mateus, 25 anos

Rúben Baptista, 24 anos
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Rúben Baptista, 24 anos

Rosário Bonito, 52 anos
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Rosário Bonito, 52 anos

“O objetivo é utilizar isto como escape ao dia a dia, que é uma selva onde tentamos sobreviver. Aqui, vimos viver. Quem vem, é porque gosta disto e acaba por ser um escape. Deixamos os problemas lá fora”, diz Rosário.

Ser mais velha entre os jovens não a incomoda nada. E o que acham os outros adultos? “Não estranham porque isto que se passa aqui faz parte de mim”, garante sorrindo.

Muito mais do que Miguel, Ana, Rosário e Rúben

Michael Pevensie é o diretor da escola portuguesa de magia e feitiçaria. Estudou em Hogwarts, sempre sonhou ser professor e proteger o mundo mágico do mal. “Quem vai sofrer mais com as artes do mal? Não vão ser os adultos, vãos ser os miúdos e por isso temos de os ensinar a protegerem-se”, defende. Pevensie é Miguel Nunes. Ou melhor, a personagem criada por Miguel Nunes. “Adoro, estamos a falar disto mesmo a sério”, comenta a vibrar quando, por milésimos de segundo, sai da personagem.

Nos eventos não existem personagens nem dos livros nem dos filmes. Ninguém é Harry Potter, Ron Weasley, Hermione Granger, Albus Dumbledore ou Minerva McGonagall. Cada um é alguém novo, com um passado e uma história cravada. Rosário é Zara Black, mãe de Anna Black (que é Ana). Já Rúben é Ben Hawthorne, um especialista em planas que viveu na Floresta Amazónia.

O mapa com a localização das várias salas de aulaao longo do Parque das Nações e a bandeira oficial da escola

O mapa com a localização das várias salas de aulaao longo do Parque das Nações e a bandeira oficial da escola

“Quando falo da série, vibro muito mais porque é uma ficção e gostava que fosse realidade. Nos eventos, como sei que é real, não é preciso andar para aqui todo eufórico”, comenta Miguel. “É um mundo que gostávamos que existisse e tentamos transportar para a realidade (embora nunca seja possível). Sei que qualquer pessoa aqui amava que fosse real e que vivê-lo”, acrescenta.

O cansaço da correria e das horas de conversa já se faz notar. O calor que sentem, também não ajuda. Os sorrisos estão em cada um dos rostos ali presentes.

Está na hora de desmontar tudo. Carregar para o carro. Voltar à realidade.

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