Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Como a tecnologia pode ajudar no combate aos incêndios florestais

Lucília Monteiro

Os retratos da tragédia de Pedrógão Grande contados pelo Ricardo Marques aqui no Expresso são arrebatadores. Não pelo empolamento da desgraça alheia, mas pela forma como o repórter no terreno consegue um afastamento emocional daquilo que está a ver a cada momento. Isto na escrita, por que NOS DIRETOS que fez para o Facebook o Ricardo não consegue disfarçar na voz, ou na expressão facial, a forma como o afeta o manto negro que cobre a estrada que ele cunhou de “a mais triste de Portugal”.

Durante o fim de semana, os portugueses queimaram nas redes sociais os políticos, a proteção civil, os militares… Afinal, em cada um de nós vive um especialista. Aliás, um “omniespecialista”. Daqueles que conseguem falar sobre qualquer assunto com autoridade. Dos comentários que li, muitos diziam que faltava tecnologia. Não consegui perceber qual seria essa “tecnologia”, mas as pessoas clamavam por ela. Como se a tecnologia conseguisse apagar aquele que é considerado um dos incêndios mais mortíferos em Portugal.

Não pode apagar este incêndio, mas a utilização da tecnologia na formação de uma inteligência coletiva para a prevenção dos fogos florestais não é novidade. Nos Estados Unidos, nomeadamente na Califórnia, os cientistas há muito recorrem à tecnologia para vigiar e, até, antecipar o comportamento dos incêndios. Em que direção sopra, e vai soprar, o vento? Quais os caminhos escolhidos pelas chamas? Identificar os relevos e as vegetações mais propensas à alimentação do fogo? Estas são algumas das questões abordadas pela Inteligência Artificial e pelo Big Data (extração de informação a partir de grandes repositórios de dados). Recolher dados e transformá-los em informação é vital para que se consigam descobrir padrões. Em Portugal, como escreve Henrique Pereira dos Santos no “Público”, as pessoas que lutam com o fogo não conhecem a sua “ecologia” – aconselho vivamente a leitura do ARTIGO EM QUESTÃO.

É esta falta de informação que me parece, estando de fora, ser um dos maiores obstáculos a uma prevenção e combate dos incêndios que seja de maior sucesso. E, reforço, a tecnologia pode ajudar. A “sensorização” da floresta é um bom exemplo. Aplicar a Internet das Coisas neste contexto é dar olhos e ouvidos às árvores. A “plantação” de sensores pela floresta pode dizer-nos como as temperaturas estão a mudar, em que direção sopram os ventos, qual a humidade do solo, a dimensão do mato a desflorestar… etc. Basta espalhá-los e esperar que comecem a recolher os dados. Depois, algures, os algoritmos fazem o resto. Agarram nesses 0s e 1s e transformam-nos em informação que será importante para poder estabelecer cenários. Além disso, a análise de dados meteorológicos, com milhares de variáveis, permite a criação de mapas detalhados onde vai ser possível saber, num breve vislumbre, quais as zonas de maior incidência de calor, de vento, de trovoadas… Claro que estamos a falar de meteorologia, e o grau de imprevisibilidade é grande. No entanto, modelos computacionais que consigam relacionar a meteorologia, os ventos e o relevo vão, tenho a certeza, ajudar na prevenção e no combate aos incêndios.

Nos Estados Unidos, toda essa inteligência recolhida no terreno está a ser colocada numa aplicação a que os bombeiros podem aceder nos seus telefones. A app faz milhões de cálculos tendo em conta as condicionantes onde está a ocorrer o incêndio. É assim que traça cenários que tentam antecipar qual será o comportamento das chamas. Pode saber mais AQUI e AQUI explica-se como, no Canadá, scanners de infravermelhos e modelos em computador estão a contribuir para que os rescaldos dos incêndios sejam muito mais eficientes. E só mais um exemplo de como a Inteligência Artificial vai ajudar nesta questão. Também nos EUA há quem esteja, com o apoio da NASA, a colocar no terreno uma aplicação que vai mostrar nos tablets usados pelos bombeiros no terreno todas as informações atualizadas sobre o incêndio que estão a combater e que direção vai tomar. A história é contada na TIME.

Os drones têm provocado muitas dores de cabeça aos aviões que aterram nos aeroportos, mas estes veículos podem, e devem, desempenhar um papel no combate aos incêndios. Drones equipados com câmaras térmicas podem ser os olhos dos bombeiros que vão poder combater os incêndios à noite sabendo que as suas rotas de fuga serão vistas, lá de cima, por estes veículos voadores não tripulados. Aliás, a vista aérea é privilegiada também na prevenção. Voar por cima das florestas registando em vídeo as condições do terreno vai permitir aos especialistas ver, por exemplo, quais as zonas onde há maior acumulação de mato.

E vamos ter, claro, os robôs que podem ir para cenários dantescos inacessíveis aos bombeiros ou os carros autónomos que, se já estivessem massificados, nunca teriam escolhido ir por aquele troço mortal da EN236.

Mas ainda falta muito para chegar a este último ponto. O que está mais ao nosso alcance é a recolha de dados e o tratamento da informação. Para isso, os cientistas têm de ter uma voz ativa na prevenção e combate aos incêndios em Portugal. Algo que, pelo artigo já partilhado de Henrique Pereira dos Santos, ainda não acontece. Para já, vamos continuar a mandar para as chamas os bravos bombeiros que têm na coragem a sua maior arma para tentar travar os incêndios. E, na maior parte das vezes, fazem-no quase às cegas.

Obrigado pela vossa entrega. No entanto, fiquem a saber que a ciência e a tecnologia podem ser grandes aliadas no terreno. Mesmo em situações, como a de Pedrógão Grande, onde houve uma conjugação de fatores propensos à tragédia que, provavelmente, nenhum modelo matemático conseguiria prever. Provavelmente…