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Clube “vintage”

Sónia Cardoso fotografada nas instalações da Wella

Tiago Miranda

O que faz gastar 100 euros num vestido usado ou 1800 em dois sofás Chesterfield de 1930? O gosto pelo vintage. Uma tendência que já contagiou uma grande minoria de pessoas nos meios urbanos. Seja por motivos estéticos, culturais, sentimentais ou para se afirmarem na sociedade, muitos preferem as relíquias aos objetos novos. Reproduzimos o artigo sobre apaixonados pelo “vintage” publicado na revista de 21 outubro de 2006

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Excêntrica. Coisa que não acontece com Amélia Antunes é correr o risco de passar despercebida sempre que sai de casa. Seja de manhã, quando vai ao supermercado do seu bairro, em Carnaxide, à tarde, quando passeia pela Baixa da cidade, ou à noite, quando serve bebidas atrás do balcão do Fluid, bar em Santos do qual é proprietária.

Amélia é exemplo de uma tendência urbana, visível sobretudo em grandes cidades: um grupo de pessoas revivalistas que, por uma questão estética, cultural, sentimental ou de afirmação na sociedade, a dado momento da sua vida começam a interessar-se mais pelas criações do passado do que pelas do presente. Vestem-se com roupas usadas pelas nossas avós, ouvem discos em vinil e perdem a cabeça por peças de mobiliário de outros tempos.

Durante as noites longas passadas no bar, a empresária tem habitualmente por companhia o Dr. Boris Vian e Heidi da Rosa Brava - os seus dois cães da raça britânica Parson Jack Russell, que leva para todo o lado. Mas o facto de facilmente se tornar o centro das atenções não se deve só à sua figura vistosa - cabelos compridos, corpo alto, bronzeado e elegante - ou aos seus simpáticos canitos. Tal é explicado pelo seu visual espampanante composto por coloridas "toilletes-vintage", quase todas originárias da década de 60.

Amélia, 35 anos, assume o estilo da geração "Flower Power", essencialmente por uma opção estética. "Atraem-me as cores, o design da roupa, os padrões, os tecidos e os cortes", resume.

Amélia Antunes posa com os seus cães e objetos vintage no bar do qual é proprietária

Amélia Antunes posa com os seus cães e objetos vintage no bar do qual é proprietária

TIAGO MIRANDA

O resultado é cinematográfico. Não é raro encontrá-la a usar grandes chapéus e capelines, superlativos óculos escuros para disfarçar as maleitas das madrugadas em claro, ou a interpretar a pose bamboleante que os seus exóticos vestidos, tendência de moda de outras épocas, lhe inspiram. O seu bar e a loja de calçado revivalista Happy Days, do qual é sócia, são a extensão desta sua preferência. Neles encontram-se paredes forradas a papel de parede com motivos entre o rosa e o verde-alface, bolas disco-sound, rádios, relógios e peças de mobiliário dos anos 50 e 60. "Adquiri-os numa loja da Figueira da Foz".

É nos acessórios que Amélia mais gosta de ousar. Malas, colares, anéis e pulseiras antigos que Amélia transforma com as suas próprias mãos para objectos "ultra-kitsch". "Gosto de lhes aplicar bonecas, bebés, brancas-de-neve, anões, Nossas Senhoras de Fátima, para as tornar mais divertidas", comenta. O "kitsch" é, aliás, a sua forma preferencial de interpretar o "vintage". "Faz-me sentir que não ando igual a toda a gente. Gosto de ter uma presença singular", explica. O seu próprio guarda-fatos remete-nos para uma espécie de baú da avó onde se encontram pendurados dezenas de vestidos, saias e casacos, na sua maioria, em segunda mão. O facto não a incomoda. "É muito raro encontrar no mercado uma peça vintage que não tenha sido usada", afirma.

Barato é bom

A comerciante confessa que é no estrangeiro que adquire a maioria das suas indumentárias. Mais particularmente em Londres, na feira de Camden Market e no bairro de Notting Hill, assim como nas lojas e feiras espalhadas pelo centro de Amesterdão. Nessa ronda, não gasta muito dinheiro. "Lá fora, os vestidos vintage são muito mais baratos e encontra-se uma maior variedade de modelos", explica. Experiente na matéria, sempre que parte de férias para um destes destinos, aproveita e leva uma mala vazia para se abastecer de novas roupas e adereços. Diz-se adepta das pechinchas, gosta de remexer nas bancas de rua, e garante que "raramente" gasta mais do que 100 euros num vestido. "Nunca falto aos 'stock-outs', espreito sempre as novidades. Gostaria, no entanto, que a tendência vintage se alargasse para surgirem mais lojas deste género", deixa o recado.

Amélia passou a vestir-se vintage desde que começou a frequentar o Bairro Alto, no início da década de 90. Foi por essa altura que apareceram em Lisboa as primeiras lojas com "stock" alternativo e revivalista (Ultra-violeta e Bazar Paraíso, que entretanto fecharam).

Actualmente, tornou-se uma espécie de hábito entre amigas e conhecidas telefonarem-lhe a pedir roupas emprestadas para irem a casamentos. "As roupas que eu uso no dia-a-dia são, para elas, os fatos ideais para comparecerem numa cerimónia do género", confessa divertida.

Homem 'noir'

«Homo-Acumulater". É com este neologismo que o designer gráfico Carlos Guerreiro se autodefine. "Tenho uma obsessão pelo conhecimento. Estou atento ao presente e ao passado, e esse é um processo acumulativo", afirma. Rejeita o epíteto de revivalista, apesar de tentar recriar através das suas roupas a estética do solteirão engatatão pós-guerra, eternizado nos filmes dos anos 40 e 50. Dean Martin, Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. são três das figuras masculinas americanas que mais o inspiram quando se aperalta frente ao espelho.

"Gosto do universo de sedução criado pelos galãs dos Dry Martini, a minha bebida de eleição", declara. É, aliás, pelo interesse que tem por música jazz - o bebop de Charlie Parker e Miles Davis, em particular - e o gosto que o move pelo cinema em geral, desde os tempos do mudo, a passar pelo estilizado cinema "noir" dos anos 40 e 50, até à actualidade, que chegou a esta opção visual. Por uma questão de atitude e de identificação. O irreverente cantor e compositor francês Serge Gainsbourg é outra das suas preferências musicais, de quem colecciona vários discos em vinil. L'Étonnant é um dos seus predilectos.

Carlos Guerreiro fotografado na sala da sua casa, trajado as suas habituais roupas estilo anos 50

Carlos Guerreiro fotografado na sala da sua casa, trajado as suas habituais roupas estilo anos 50

tiago miranda

Desde muito cedo preocupado com a sua imagem, começa aos 17 anos a pedir à mãe para lhe fazer roupa mais ao seu gosto. "Com o tal toque excêntrico dos anos 40 e 50". Na década de 80, a residir em casa dos pais, em Almada, fazia um longo percurso até à El Dorado, no Bairro Alto, a única loja vintage existente na época, para adquirir as camisas brancas anos 70, com colarinho de goma, que sempre apreciou. Anos depois, passa a cliente habitual da Rés-vés Campo de Ourique, no bairro de Campo de Ourique, entretanto extinta, especializada em roupa de segunda-mão.

Os seus amigos habituam-se às suas indumentárias teatrais. "Diziam-me que eu podia usar uma saia, que até isso eles achariam normal". Dito isto, garante a pés juntos que é tímido e que não gosta de dar nas vistas. Isto apesar dos chapéus, gravatas espampanantes, casacos brilhantes e sapatos de graxa, em bico, que usa no quotidiano.

Hoje em dia compra a maioria das roupas que veste através da Internet, mais especificamente no "site" de leilões da E-bay. "Adquiri há tempos umas calças clássicas, dos anos 60, ligadas ao universo do swing e do rock'n' roll. Têm pregas, vinco e são largas em baixo", recorda com precisão. Mas em matéria de moda, o que Carlos mais gosta de fazer é misturar peças vintage com roupas de estilistas actuais. "Compro muita roupa 'high- fashion'".

Patrícia Sobral serve chá no serviço de porcelana da avó. Ao fundo, o candeeiro Sputnik é o seu objeto mais elogiado

Patrícia Sobral serve chá no serviço de porcelana da avó. Ao fundo, o candeeiro Sputnik é o seu objeto mais elogiado

tiago miranda

Uma questão sentimental. É pela ligação à sua avó materna que a designer "free-lancer" Patrícia Sobral, 36 anos, passou a ter uma estreita ligação com o vintage. Em especial, com o mobiliário da década de 50. Pouco recorre à roupa de época. Serviços completos de loiça, candeeiros Sputnik, mesas em forma de rim, cómodas e outras tantas cadeiras de época são o espólio que herdou da avó, há dez anos, e que hoje conjuga em sua casa com diversas peças contemporâneas. Algumas bastante pop. Uma torre de lego na sala pintada a verde pistacho, um dragão chinês no tecto do corredor, e muitos super-heróis japoneses no topo da lareira com azulejos século XVIII. Ganho o vício pelo vintage, de vez em quando faz a ronda às lojas de velharias da Praça do Chile, zona onde vive, em busca de relíquias baratas. "Não sou coleccionadora e tenho que ser selectiva para não atafulhar a minha casa. Que não é grande", esclarece.

Sinal de requinte

Elegante. Uma espécie de procura de apuro no vestir é a forma com que a arquitecta Sónia Cardoso assume o vintage no seu quotidiano. Começou a interessar-se por peças de vestuário de outras épocas há sete anos, por influência de amigos. "Passei a não ter medo de arriscar e a vestir tudo o que me apetecesse". O facto de ir a Londres seis vezes por ano para acompanhar o namorado, de origem britânica, aguçou-lhe ainda mais esta sua preferência. Garante que o conceito vintage em Inglaterra é sinal de requinte. "E, se forem peças boas e raras, chegam a ser bem mais caras do que peças novas".

Tal como Carlos, Sónia bate-se também na Internet por pechinchas. O vestido Christian Dior às riscas, datado de 1957, que usou na sessão fotográfica para o Expresso, foi adquirido em leilão na E-bay por apenas 86 euros. "Um achado!" Já a mala preta Chanel, que vale no mercado cerca de 300 euros, foi-lhe oferecida por uma amiga. Longe da imagem bafienta que muitos associam às roupas usadas, Sónia defende que o vintage não deve parecer datado, mas sim especial e actual. "We can't look like our granny!" (Não devemos parecer-nos com a nossa avó!)