Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Sebastião Pereira, um jornalista, um bandarilheiro ou um rei?

Luís Barra

Correspondente não é, mas é um (ou uma) jornalista conhecido há muito no “El Mundo”, só que usou um pseudónimo para escrever oito textos sobre o incêndio em Pedrogão Grande que o jornal espanhol publicou. Esta é pelo menos a explicação do diário de Madrid sobre o “repórter encoberto” que está a intrigar os portugueses, quer estes sejam a favor ou contra as críticas ferozes escritas em castelhano

Para escolher o pseudónimo “Sebastião Pereira”, em quem se terá inspirado o “repórter encoberto” do “El Mundo” que fez para o jornal espanhol uma polémica cobertura jornalística da tragédia de Pedrogão Grande, citada pela maioria dos órgãos de informação portugueses, especialmente na parte em que fazia duras criticas ao país e ao governo de António Costa? Terá ido beber o nome às touradas ou à realeza?

Até agora ninguém sabe quem é ou de onde veio Sebastião Pereira, nome e apelido curiosos para se esconder um eventual jornalista, esconder já que em Portugal não está registado como é obrigatório e as nossas leis deontológicas e éticas apontam para o uso do nome que consta na carteira profissional, título sem o qual não se pode exercer jornalismo no país, ao contrário do que sucede em Espanha. Também a Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal, na voz do seu vice-presidente João Carlos, afirma desconhecer tal personagem.

A editora de internacional do diário “El Mundo” recusou-se a desvendar o mistério. Silvia Róman, inquirida telefonicamente pelo Sindicato dos Jornalistas, respondeu aos gritos à pergunta sobre quem é o autor dos textos, assumindo apenas tratar-se de um (ou uma) jornalista que utiliza o pseudónimo Sebastião Pereira e que o jornal há muito conhece.

Perante a insistência, a editora nem sequer quis dizer a nacionalidade do correspondente e gritou: “Parem de me atacar no Twitter! Parem de me enviar emails! Parem de tentar telefonar-me! Em 22 anos nesta secção nunca me aconteceu algo assim, nem nos casos da Venezuela ou da Turquia!”.

Talvez o autor dos artigos do “El Mundo” se tenha inspirado nas touradas para arranjar o pseudónimo — há um bandarilheiro espanhol chamado Sebastián Pereira. Pode ter sido em honra deste confrontador de touros que sofreu três coronadas há cinco anos, durante um espetáculo em “Las Ventas”, no país vizinho, que o autor dos polémicos textos do “El Mundo” se inspirou para tourear os incêndios em Portugal. E, depois, fez uma união perfeita, juntou o nome mítico que pertenceu ao rei português que, ao morrer na batalha de Alcácer Quibir, provocou a entrega do reino à coroa espanhola para um governo que durou 60 anos, até 1640.

Na verdade, não há um ataque cerrado à editora do “El Mundo” no Twitter, há algumas perguntas, mas proliferam as “bocas” sobre a figura fantasma utilizada pelo jornal espanhol para dar notícias sobre a tragédia que matou em Pedrogão Grande 64 pessoas. Na rede social há até quem diga que sabe quem é Sebastião Pereira… outros escrevem que se ele fosse uma árvore a Polícia Judiciária já o teria apanhado.

Quinta-feira, ao jornal “i”, os serviços administrativos do diário espanhol conotado com a direita afirmaram tratar-se de “uma situação surreal”, acrescentando desconhecerem o que se terá passado. Outra explicação fora dada à página do Facebook “Os Truques da Imprensa Portuguesa”: trata-se de um jornalista a trabalhar por conta própria que se oferecera ao “El Mundo” para fazer a cobertura do incêndio, já que se encontrava por perto.

Uma leitura aos oito textos assinados por “Sebastião Pereira, Lisboa” entre os dias 18 e 21 dá a impressão que o autor faz um cozinhado da sua opinião com o que vai ouvindo e lendo nos órgãos de informação. O artigo mais polémico tem o titulo “Caos en el mayor incendio de la historia de Portugal: 64 muertos, un avión fantasma y 27 aldeas evacuadas” e nele se afirma, por exemplo, que “a desastrosa gestão da tragédia pode pôr fim à carreira política de António Costa”, já que o combate ao incêndio “começou com otimismo e terminou em caos absoluto”, dada a “evidente falta de coordenação entre as autoridades”.

As críticas foram profusamente replicadas pela comunicação social portuguesa, julgando-se tratar-se da “análise” do correspondente do “El Mundo” em Lisboa, cujo segundo texto “enviado” para Espanha, titulado “¿Por qué arde Portugal cada verano?”, já sedimentava o tom crítico. “Os lusos dizem por piada que só existem duas estações no seu país: a das inundações de inverno e a dos incêndios que atingem o país durante o resto do ano.”

E assim Sebastião Pereira chamou a atenção dos lusos. Em Portugal, uma pessoa para exercer jornalismo tem de possuir uma carteira profissional e, se for correspondente estrangeira, beneficia do direito a um cartão de identificação que titula a sua atividade e garante o seu acesso às fontes de informação, segundo a lei. Em Espanha, não existe carteira profissional para jornalistas.

Até 2015, o jornal “El Mundo” contava com uma jornalista espanhola como correspondente em Lisboa, Virgínia Lopez, que é também autora de dois livros sobre Portugal: “Impunidade”, publicado em 2013 e que conta 15 casos escandalosos, na sua maioria de corrupção e cujo desfecho foi pouco ou nada satisfatório, e “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”, uma obra que fala de dez séculos de casamentos, guerras e traições.