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Sociedade

Cercados pelo fogo e pela água

Na Cova da Eira, cenário de bilhete postal, grande parte do pinhal envolvente ardeu nos últimos fogos de sábado e de domingo

Nuno Botelho

É um cenário que se repete demasiadas vezes, perto da foz da ribeira de Alge. Água e fogo tocam-se mas não se misturam, deixando os habitantes à mercê da fúria da natureza

A Cova da Eira é um bilhete-postal. É ali que a ribeira de Alge desagua no Zêzere. As águas correm tranquilas em várias direções, debaixo de um anfiteatro natural de pinhal, uma grande parte dele queimado nos últimos fogos de sábado e de domingo. Um restaurante que serve sável fresco, uma pequena marina com embarcações recreativas, algumas vivendas brancas de turismo de habitação. A pequena reentrância de terra, com relva até às margens, atrai centenas de turistas ao local, que aproveitam o silêncio para pescar, ler, ou simplesmente dormir.

O isolamento é também o maior inimigo dos que ali vivem e que quase todos os verões se vêm cercados pelas chamas. Só existem duas estradas que os ligam ao mundo exterior: uma em direção a Figueiró dos Vinhos. A outra para a Arega, a aldeia mais próxima. E sempre que o fogo ataca, os postes de eletricidade ficam carbonizados, deixando os poucos habitantes à mercê de si próprios.

“Este ano foi ainda pior. Houve mais fumo e mais incertezas”, queixa-se Paula com um sorriso triste.

A frase é dita com anuência de familiares e amigos que conseguiram esta segunda-feira finalmente descer de carro a via sinuosa de alcatrão, contornando ramos queimados, postes e fios elétricos.

Paula e a família estiveram 48 horas incontactáveis, causando preocupação aos familiares espalhados não só pelo país mas também no estrangeiro. Um ritual que se repete na época de fogos e que teimam em não se habituar e muito menos a conformar. Este ano foi pior.

Várias reparações tiveram de ser feitas na estrada sinuosa que liga Figueiró dos Vinhos à foz do Alge

Várias reparações tiveram de ser feitas na estrada sinuosa que liga Figueiró dos Vinhos à foz do Alge

Nuno Botelho

Pior porque as chamas estiveram mais próximas das casas num cerco de fogo mas também de água. As chamas galgaram não só a encosta próxima da Cova da Eira como também percorreu todo o pinhal do outro lado do rio Zêzere.

“Foi uma sorte o vento não estar de Norte”, diz João, um familiar que veio ajudar o irmão e a cunhada a reorganizar o restaurante. Alguns habitantes de aldeias vizinhas, como os de Enchecamas e de Casal de Alge foram evacuados. Mas eles ficaram.

Uma sorte. Também Vítor, gerente do parque de campismo da foz de Alge, situado do outro lado das margens, um pouco mais acima, salienta que tudo podia ter sido pior. Os setenta campistas, portugueses e estrangeiros, que gozavam as suas primeiras férias de verão, foram obrigados a desmontar as tendas à pressa, no sábado, por precaução. Não é a primeira vez que tal acontece e não será a última certamente. “Somos nós contra o mundo”, queixa-se, enquanto ajuda a desobstruir a estrada, desviando os postes da estrada. Um trabalho pesado que conta apenas com a colaboração das gentes da terra. “Onde é que estiveram as autoridades durante o fogo? Onde estão agora?”, interroga-se.

Agora, Vítor percorre a estrada sinuosa, a carro e a pé com uma única missão: limpar de vez o asfalto para a foz da ribeira de Alge voltar a ser o bilhete-postal que atrai turistas de todo o mundo. As águas, mas também o destino daquela gente, corre em várias direções.