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Incêndio resultou de conjunção “pouco habitual” de fatores meteorológicos adversos

Rui Duarte Silva

Temperatura muito elevada, baixa humidade, ausência de chuva, descargas elétricas associadas a trovoada seca, mudança de direção de vento muito rápida e reduzida água no solo foram os fatores enumerados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA)

O presidente do IPMA, Jorge Miguel Miranda, disse que o trágico incêndio de sábado surgiu em sequência de uma “pouco habitual” conjugação de “fatores adversos”, realçando a “impossibilidade técnica e a grande imponderabilidade” de prever um incêndio de tais proporções “naquele sítio, àquela hora”.

A informação foi prestada esta segunda-feira em conferência de imprensa, na sede do IPMA, em Lisboa.

Temperatura muito elevada, baixa humidade, ausência de chuva, descargas elétricas associadas a trovoada seca, mudança de direção de vento muito rápida e reduzida água no solo foram os fatores enumerados.

Jorge Miranda admitiu que a “área desestruturada” do local em que deflagrou o fogo - “uma mistura arbórea que não é favorável”, zonas agrícolas de minifúndio e terrenos com declive - facilitou a propagação das chamas.

O IPMA esclareceu que foram registadas descargas elétricas na região Centro, no sábado, coincidindo com o início do incêndio, mas o sistema de deteção remota do IPMA, com sensores instalados em Braga, Castelo Branco, Olhão e Lisboa, não permite identificar a localização exata das emissões das descargas.

O sistema “não é cem por cento fiável”, apenas conseguindo prever a emissão de descargas elétricas “em alguns distritos do continente”, reconheceu Nuno Moreira, dirigente da Divisão de Previsão Meteorológica, Vigilância e Serviços Espaciais, acrescentando que “há muitas incertezas na previsão de trovoadas” em termos dos sítios onde vão ocorrer.

Nuno Moreira recordou que o aviso meteorológico emitido previa apenas a possibilidade de ocorrência de trovoadas em alguns distritos.

O IPMA estima que as descargas elétricas associadas a trovoadas secas - trovoadas que provocam relâmpagos, mas em que a chuva evapora-se antes de chegar ao solo - possam continuar hoje na região Centro e junto à fronteira espanhola.

Nuno Moreira assinalou, ainda, que o aviso de risco elevado de incêndio emitido para o fim-de-semana passado não abrangia o distrito de Leiria, ao qual pertence Pedrógão Grande e os concelhos vizinhos de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, por onde as chamas se expandiram.

No sábado, precisou, a humidade rondava os 10 a 20% e, nalguns sítios do território continental, a temperatura superou máximos históricos para o mês de junho, com a mínima a atingir nalguns pontos os 26ºC.

O presidente do IPMA, Jorge Miguel Miranda, avisou que “o clima está em mudança” e que as pessoas têm de se “adaptar a essa mudança” e apelou a uma “cultura resiliência”.

“Temos de nos preparar para uma catástrofe natural”, vincou, referindo que “o trabalho de casa” para minimizar o impacto de fenómenos meteorológicos, que “vão aumentar no futuro”, tem de ser feito com “um esforço legislativo, financeiro, social, político”, envolvendo todos, desde famílias a Governo.

O fogo, que deflagrou às 13h43 de sábado, em Escalos Fundeiros, concelho de Pedrógão Grande, alastrou depois aos concelhos vizinhos de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, no distrito de Leiria, e entrou também no distrito de Castelo Branco, pelo concelho da Sertã.
O mais recente balanço dá conta de 63 mortos e 135 feridos.

Há ainda dezenas de deslocados, estando por calcular o número de casas e viaturas destruídas.

Além de Pedrógão Grande, existem quatro grandes fogos a lavrar nos distritos de Leiria, Coimbra e Castelo Branco. Em todo o País, os fogos mobilizam um total de cerca de 2.155 operacionais, 666 veículos e 21 meios aéreos.