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De volta aos campos comidos pelas chamas. “A vida continua. Tem de continuar”

Nuno Botelho

Esta segunda-feira foi dia de trabalho, mesmo para muitas das vítimas do fogo de Pedrogão Grande e de Figueiró dos Vinhos. Apesar do custo pessoal, querem recomeçar o que o fogo interrompeu durante o fim de semana,pois não perderam a esperança na natureza

Com o ouvido colado ao telemóvel, Zulmira, 56 anos, relata a um dos filhos que trabalha na Suíça as últimas horas “encrencadas” da sua vida. A conversa é entrecortada pelas falhas da rede móvel, que a obrigam a repetir, sempre em voz mais alta, alguns episódios mais rocambolescos. “Era a bombeira a empurrar-nos e a gritar: vão-se embora daqui para fora”, conta a mulher que vive numa aldeia de nome engraçado, uma das muitas de Figueiró dos Vinhos, zona centro do país, varrida pelas chamas do último domingo. “O diabo perdeu a cabeça e o fogo virou para Enchecamas”, relata.

Nem 24 horas tinham passado depois da saída ordenada pelos bombeiros locais desta pequena povoação, e Zulmira já tinha regressado para ver os estragos. Não perdeu familiares, amigos ou a casa, mas viu a plantação do feijão queimada, bem como uma parte das batatas. Parece pouco, mas para quem vive da pequena produção local pode ser quase tudo “Como são tubérculos só arderam pela rama. Pode ser que se aproveite alguma coisa.” Não quer perder muito tempo com conversas, pois trabalhar na horta é tudo aquilo que quer fazer nos próximos dias.

Luís e Fátima, esta manhã, drante a apanha do mirtilo, que felizmente escapou às chamasu

Luís e Fátima, esta manhã, drante a apanha do mirtilo, que felizmente escapou às chamasu

Nuno Botelho

Noutra pequena aldeia, esta perto de Pedrógão Grande, quatro pessoas colhem mirtilos, agachadas, logo ao início da manhã desta segunda-feira. Parecem quase indiferentes ao mar de árvores queimadas que se estende em frente da plantação. Mas é apenas ilusão. Trabalhar é a única opção que têm, mesmo sabendo que alguns amigos, vizinhos, conhecidos perderam a vida ou foram hospitalizados com gravidade, com queimaduras causadas pelas chamas traiçoeiras. “A vida continua. Tem de continuar”, resume Luís, 52 anos, encolhendo os ombros.

No dia anterior, tinha vindo àquele mesmo local para tentar perceber a dimensão dos estragos de sábado, num dos sítios considerados como o ponto zero da ignição: Escalos Fundeiros. E, apesar de não ser o dono da herdade de mirtilos, sorriu de satisfação depois da operação rápida de reconhecimento. “Felizmente, o incêndio, apesar de se ter alastrado a vários locais próximos, só entrou numa parte da plantação.”

Fátima, uma das colegas que colhe a fruta ao seu lado, quebra o silêncio e lembra que a resignação é a única solução que lhes resta para poderem viver as suas vidas. Mais grave ainda seria se o mirtilo também tivesse ido com o fogo. “Este é o nosso ganha-pão”, conta a ex-talhante.

Apesar de o trabalho “dar cabo das costas” e ser muitas vezes repetitivo e cansativo, Luís e Fátima revelam ser uma dupla que consegue ver uma pinga de otimismo mesmo nos cenários mais negros. “Há uma pequena benesse: a partir das 11h podemos voltar para casa, já que a partir dessa hora, com o calor, o mirtilo fica demasiado mole para ser apanhado”.