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“O coração bate de uma maneira doida, parece que me vai saltar. Acho que vou morrer”

Cedric Ribeiro/ getty Images

O coração bate rápido, parece que vai saltar do peito; as tonturas pioram, o paciente acha que vai morrer. São sintomas de ansiedade, um mal que faz de Portugal líder pelas piores razões e que afeta cada vez mais mulheres e jovens

Para quase todos os colegas de turma, aquele era mais um dia normal na faculdade. Mas havia uma exceção. Maria, sentada numa das cadeiras da sala de aulas no quarto piso do edifício, pôs-se a pensar: “Se quiser fugir daqui não posso saltar pela janela, porque morro. Também não posso sair pela porta, porque não posso interromper a professora”. Tanto pensou que começou a sentir-se claustrofóbica com aquela perspetiva improvável. “Tive mesmo de sair dali e acabei no hospital de Santa Maria.”

Não foi a primeira vez que Maria Pedro Pinto, de 24 anos, sentiu a ansiedade tomar conta de si. Já desde os 15 que passava por estes ataques, sem saber o que lhe podia acontecer: “Cheguei a passar duas semanas na cama porque sempre que me levantava tinha tantas tonturas que achava que ia desmaiar”. Os sintomas confundiam-na: “O coração bate de uma maneira doida, parece que me vai saltar pelo peito. Tenho muito calor, posso começar a hiperventilar... Acho que vou morrer”.

Com a ajuda profissional que teve entretanto, Maria percebeu que muitos dos seus problemas estão relacionados com a separação dos pais, que aconteceu quando tinha oito anos e que a levaram a desenvolver uma perturbação de ansiedade que foi diagnosticada aos 19. Percebeu que não era “doida”: “À medida que fui conhecendo mais sobre o assunto, percebi claramente que ninguém morre de ansiedade”.

Pode parecer óbvio para quem está de fora, mas o problema não é raro: o primeiro estudo sobre uma amostra de população adulta representativa demonstrava já em 2009 que Portugal tinha na altura a mais alta taxa de prevalência destas perturbações a nível europeu (16,5%). Ao Expresso, José Caldas de Almeida, presidente do Lisbon Institute of Global Mental Health e coordenador do Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental, explica que, nessa altura, dos casos identificados “31,9% eram ligeiros, 48,7% moderados e 19,4% graves”. “Isto significa que mais de metade necessitaria de cuidados de saúde. No entanto, em Portugal, apenas 32,6% dos casos tinham tido algum tipo de tratamento no ano anterior.”

No ano passado foi conhecido “um follow-up deste estudo”: “Os resultados preliminares mostram um aumento significativo da prevalência de perturbações de ansiedade entre 2009 e 2016, sobretudo nos casos mais graves. O consumo de ansiolíticos passou de 11,5% para 14,6% da população adulta”. Há grupos mais afetados: “As mulheres, os mais jovens, as pessoas viúvas ou divorciadas, bem como as que têm um nível de escolaridade e um nível de rendimentos mais baixos”. No grupo das mulheres mais jovens inclui-se Maria, que continua a conhecer quem “não considere os problemas mentais doenças como as outras”.

A incompreensão dos que a rodeiam é também um dos aspetos que mais incomodam Beatriz, de 22 anos, desde que percebeu que o coração a bater impossivelmente rápido e as tonturas a ameaçar o equilíbrio tinham um nome. “Lembro-me que os ataques e fases mais ansiosas começaram por volta dos 16 anos, mas agora, olhando para trás, percebo que muitas das ‘más disposições’ que tinha derivavam da ansiedade”, explica. “A nível psicológico é uma sensação de pavor, como se algo muito mau me estivesse a acontecer e não tenho como escapar.”

Os sintomas variam, como Beatriz detalha quando diz que por vezes aparecem sinais que ainda não sabe como interpretar ou controlar. “Se ando contente e mais confiante tenho tendência a controlar melhor os ataques de ansiedade.” Maria aprendeu a “conhecer o corpo”: “Sei que beber água e apanhar ar me ajuda. Chorar faz-me libertar imensa adrenalina. Conversar com alguém sobre outras coisas banais, para não estar muito concentrada no que está a acontecer”.

O cocktail de medos revela-se de várias formas: conforme explica Diogo Telles Correia, médico psiquiatra, psicoterapeuta e professor da faculdade de Medicina de Lisboa, não existe apenas um tipo de perturbação ansiosa. O especialista identifica quatro: “A perturbação de ansiedade generalizada (com sintomas psíquicos - medo do medo - e físicos - palpitações, enjoos, diarreia, etc); a perturbação de pânico (em que os pacientes temem que algo de fatal ocorra, como um ataque cardíaco); a fobia social; ou as fobias simples (em que temem objectos, animais, situações)”.

A forma como afetam os pacientes variam, o que torna desafiante o diagnóstico. Todos conhecemos alguém com uma personalidade ansiosa, um traço do feitio. Até onde é natural, saudável? “Não existe um limite rígido entre a ansiedade normal e a que se considera anormal”, esclarece o clínico. “É normal, numa situação de ameaça ou perigo, reagirmos com ansiedade. No entanto, se essa ansiedade começa a surgir em graus demasiado elevados e contínuos, sem ser apenas em situações específicas, torna-se patológica e acarreta um nível de tensão que é danoso não só para a mente mas também para o corpo.”

Maria já foi acompanhada por um psicólogo e um psiquiatra e não exclui voltar. É medicada. Diogo Telles Correia explica que “a psicoterapia cognitiva comportamental pode ser muito útil” nestes casos. “Os pensamentos que os levam a hiperbolizar as preocupações são identificados e estratégias mentais são utilizadas para os superar. Os medicamentos são muitas vezes necessários por períodos e podem promover um alívio dos sintomas. A atividade física e os exercícios de relaxamento podem ser benéficos, mas não fazem milagres e para os casos mais graves não são suficientes”, afirma o clínico. “Uma vez que os sintomas da ansiedade também são muitas vezes físicos, em até 80% dos casos os pacientes consultam outro especialista (cardiologista, gastroenterologista, etc) antes de irem ao psiquiatra.”

Os alertas são cada vez mais, mas muito continua por fazer, alertam os especialistas. “Nos últimos anos desenvolveram-se muitos esforços no sentido de chamar a atenção para a importância da depressão”, admite José Caldas de Almeida. “Penso que, sem diminuir estes esforços, é necessário começar a chamar igualmente a atenção para as perturbações de ansiedade, que constituem também um problema de saúde pública grave.”