Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“Morrem 60 pessoas por ano em Portugal em incêndios urbanos”

Carlos Fernandes, engenheiro e especialista em segurança contra incêndios

Alberto Frias

Carlos Fernandes, engenheiro e especialista em segurança contra incêndios

Hugo Franco

Hugo Franco

Texto

Jornalista

Alberto Frias

Foto

Fotojornalista

Em poucos dias, Londres voltou a ser palco de mortes. Pelo menos 30 pessoas perderam a vida no incêndio de quarta-feira na torre Grenfell (norte de Kensington), um número negro que deverá crescer nas próximas horas — há cerca de 70 moradores desaparecidos e 30 feridos hospitalizados, metade dos quais em estado grave. Este fogo já matou mais londrinos do que os dois recentes atentados ocorridos na cidade. E não será fácil apontar o dedo aos culpados da tragédia, ao contrário do que se passou depois dos ataques na ponte de Westminster, em março, e na London Bridge e em Borough Market, no início do mês.

Devemos temer um incêndio com as mesmas proporções do de Londres?
Felizmente, nos últimos anos tem havido uma maior preocupação na segurança contra incêndios. Mas há muita coisa a fazer. Em Portugal morrem por ano 60 pessoas vítimas de incêndios urbanos. É um número considerável. E só em Lisboa há seis incêndios urbanos por dia.

Os bombeiros de Londres aconselharam os moradores da torre Grenfell a permanecerem dentro da habitação depois de deflagrar o incêndio. É a atitude acertada?
Foi uma armadilha embora seja um conselho compreensível. A London Fire Brigade é muito experiente e tem um prazo de intervenção de seis minutos depois do alarme, um tempo espetacular. Partem do princípio que irão combater rapidamente os incêndios. Daí a confiança em dar esse conselho. Houve um défice de avaliação do risco que fazia sentido no passado antes dos revestimentos que foram aplicados no edifício no último ano. Felizmente o conselho não foi seguido por muitas famílias.

O que deve fazer uma pessoa que more num prédio alto em caso de fogo?
Deve dirigir-se calmamente para as escadas em direção à saída do edifício. Se tiver treino, deve usar os extintores ou mangueiras das zonas comuns.

Num caso extremo como o de Londres, em que as chamas já não permitem a descida, deve-se fugir para o topo do prédio?
Não. As pessoas têm de descer. Mesmo que no terraço haja uma piscina. Em geral, as pessoas morrem nos incêndios por inalação de fumo e não pelas queimaduras.

O “The Times” revelou que os painéis de alumínio de revestimento daquele prédio são a versão mais barata das três usadas pela empresa responsável. Os mais caros têm componentes antifogo e estes não...
É verdade e em Inglaterra estão agora preocupados com o uso destes revestimentos noutros edifícios altos.

Em Portugal também foi usada esta versão mais barata?
Não tenho conhecimento disso, e se existe, espero que os proprietários tomem medidas. Mas já tivemos incêndios desta natureza, que se propagaram pela fachada: um em Vila Nova de Gaia, em 2008, e outro no Parque das Nações (Lisboa), em 2010. O primeiro foi resolvido muito rapidamente, o segundo não tinha lá ninguém quando deflagrou. Mas atenção: não são as obras novas, as que estão a ser projetadas neste momento, que nos angustiam mas as obras de remodelação, feitas sem conhecimento das autoridades. Em Portugal, tal como em Inglaterra, há legislação própria, mas o papel do Estado tem vindo a ser fragilizado.

Como assim?
Os edifícios altos têm de ser inspecionados de três em três anos mas cabe ao proprietário a iniciativa de pedir à Proteção Civil para os fiscalizar. E isso nem sempre acontece. Este mecanismo de inspeção deveria ser reforçado. A nossa sociedade ainda não está preparada para esta autorresponsabilização nos incêndios.

O que correu mal em Londres?
Desde logo haver habitação social num edifício em grande altura. O prédio tem só uma escada de emergência que não estaria protegida já que o fumo se propagou por aí. O alerta terá sido tardio. E apesar de os bombeiros chegarem rapidamente ao local, com quatro viaturas, o acesso tinha vários obstáculos, o que terá dificultado a intervenção inicial...

Vai ser fácil saber o que aconteceu?
Não, dado que as responsabilidades estão diluídas. As investigações vão demorar meses.